“Eles queriam um olhar diferente”

Um papo com Sophie Goldschmidt, a executiva que cresceu em Londres, não pegava onda e desde setembro é a presidente da WSL, a liga que é dona do circuito mundial de surf

por Pedro Carvalho em

Tpm / Esporte / Surf / Feminismo

Desde que a World Surf League (WSL) comprou o circuito mundial de surf, em 2014, os campeonatos ganharam uma cara mais profissional: transmissões ao vivo dinâmicas, estrutura de grande evento esportivo, repercussão nas redes sociais... Mas a WSL é uma liga deficitária. Em setembro, a associação – bancada pelo bilionário Dirk Ziff – contratou uma presidente (até então ele mesmo exercia o cargo): Sophie Goldschmitdt, uma britânica sorridente e atlética, que ocupou altas cadeiras em organizações como a NBA, a WTA (Women's Tennis Association) e a Rugby Football Union (Inglaterra). Por todos esses lugares, a executiva deixou um rastro de importantes patrocínios e parcerias comerciais, motivo pelo qual, nos bastidores dos campeonatos, se escuta que a nova chefe chegou para tornar a WSL um negócio lucrativo.

"Sempre trabalhei no meio dos esportes, então estou acostumada a estar em um mundo masculino", diz Sophie Goldschmidt

Após assumir a liga, Sophie trocou o frio de Londres pela ensolarada Los Angeles, na Califórnia, onde tem se esforçado para aprender a descer umas marolas nas praias locais. “Acompanho o surf há muito tempo, mas sou uma péssima surfista.” Entre um caldo e outro, a executiva viaja o mundo na cola do circuito profissional da modalidade, passando uma parte do tempo nos escritórios da associação e outra absorvendo a atmosfera das competições em praias paradisíacas.   

As responsabilidades, porém, fazem com que a maioria dessas viagens sejam só uma passadinha, como no bate-volta a Saquarema durante o Oi Rio Pro. Enquanto as ondas não paravam de explodir na praia fluminense, Sophie passou três dias nos bastidores do palanque, resolvendo pepinos ao telefone, fazendo pequenas reuniões ou jogando conversa fora com as atletas da WSL (que nos dias de sua visita aguardavam as baterias masculinas) nas áreas de descanso da competição. No papo com a Tpm, ela fala sobre ser uma chefe mulher no ambiente do surf de elite, a diferença entre as competições masculina e feminina, o plano de construir uma piscina de ondas no Brasil e as principais tarefas sobre sua mesa.

Sophie com Kelly Slater

Você cresceu em Londres, onde não tem ondas... Pois é. Acompanho surfe há  muito tempo, mas sou uma péssima surfista [risos]. Comecei no WSL em setembro e estava morando em Londres, então precisei mudar para Los Angeles, onde fica nossa sede. Tem sido meses incríveis, muita coisa acontecendo, é uma época muito empolgante para o surf, muitas mudanças... [O esporte estreará na Olimpíada de Tóquio, em 2020, e as novas piscinas de onda estão sacudindo o cenário das competições.]  

Você fica mais em LA ou viajando com o tour? Tenho viajado bastante. Especialmente no primeiro um ano, quero pegar o feeling dos eventos, me encontrar com todos os agentes envolvidos... Depois de ver todos os eventos, acho que não vou mais viajar tanto. De qualquer maneira, somos uma organização global, então as viagens sempre serão uma parte importante do trabalho.

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Você acha que o fato de não ser uma surfista é bom, ruim ou indiferente para o papel? O tempo vai dizer, acho. Eles me chamaram porque trago uma perspectiva diferente. Na maior parte das vezes, o surf sempre contratou surfistas [como dirigentes] e talvez as pessoas queiram agora buscar um novo olhar sobre como progredir e inovar. Acho que queriam alguém do mundo dos esportes, que entendesse o cenário, mas que também pudesse trazer algumas ideias diferentes. Temos muitas pessoas na organização que são próximas do surf, então temos um equilíbrio.

As pessoas devem achar que você tem um emprego incrível... O que é realmente legal e o que é difícil no seu trabalho? Bom, definitivamente trabalhar na WSL me deixou mais cool. [risos] Sim, me sinto muito sortuda. É um trabalho incrível,  convivo com atletas incríveis, muito talentosos. Sinto que é muito mais que um esporte, é uma cultura, um estilo de vida. Então tem sido incrível. A parte difícil é termos muitas oportunidades, porque o surf está passando por uma época muito efervescente, então é difícil saber como me dedicar às coisas que realmente vão fazer uma diferença. Enfim, é uma jornada incrível, que estou apenas começando. Nos próximos anos, podemos levar o surf para um lugar incrível.

Você acha que existe uma diferença na forma como as surfistas mulheres são tratadas no circuito mundial? Por exemplo, em Saquarema os homens puderam competir nos melhores dias de onda... Na verdade, acho que não. Na Founder’s Cup, por exemplo, o destaque foram as mulheres. A [surfista neozelandesa] Paige Hareb foi incrível. Acho que os surfistas homens têm sido bem mais respeitosos com as mulheres. E ocorre que algumas condições muito grandes e desafiadoras de mar ainda são difíceis para as mulheres. Do ponto de vista do desempenho, os homens fazem coisas inacreditáveis. Mas a forma como o desempenho delas tem evoluído é incrível, tem mudado muito rápido e vai continuar evoluindo.

Muitas vezes, uma mulher numa posição de poder é obrigada a lidar com um mundo dominado pelos homens. É diferente no surf? Bem, por enquanto tem sido ótimo. Acho que a forma como as pessoas têm me recebido – tanto os surfistas homens como as mulheres – tem sido incrível. Sempre trabalhei no meio dos esportes, então estou acostumada a estar em um mundo masculino, todos os esportes são dominados pelos homens. Mas é pouco tempo ainda, então vamos ver como será nos próximos anos. Até aqui, tem sido  positivo.

Sua vinda para a WSL é uma tentativa de torná-la lucrativa? Certamente, a gente enxerga que existe uma oportunidade de gerar mais receitas. No momento, estamos fazendo mais dinheiro do que jamais fizemos. Mas decidimos continuar investindo [na melhoria da liga], e há uma série de áreas em que precisamos melhorar. Claro que se não quiséssemos reinvestir [as receitas], a lucratividade seria diferente, mas estamos tentando manter uma visão de longo prazo, para estrategicamente fazer o esporte crescer. Nossas receitas são bastante fortes, mas temos um longo caminho pela frente.

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E nesse longo prazo, como a WSL vai dar lucro? Tem dois caminhos. Ou você se torna lucrativo gerando mais receitas, e acho que temos potencial de crescê-las em direitos de transmissão dos campeonatos, patrocínios, licenciamentos – que é algo que nós mal começamos...

Você diz produtos de merchandising da WSL? Merchandising e outros tipos de produtos licenciados. Novas experiências que podemos transformar em realidade. Acho que a piscina de ondas do Kelly Slater que nós compramos [a WSL adquiriu a Kelly Slater Wave Co em 2016 e fará uma etapa do mundial de 2018 no local] abre toda uma nova gama de oportunidades comerciais para nós. Além disso, para se tornar lucrativo, é preciso controlar custos. Se tem áreas em que a gente quer investir, em outras a gente precisa ser mais eficiente e gastar menos.  

A piscina de ondas parece ser uma parte importante dos planos da WSL. É parte desse projeto construir uma no Brasil?
O oceano sempre será nossa prioridade,  sempre teremos uma quantidade significativa de eventos no mar. Mas a piscina de ondas é uma grande oportunidade. Tivemos nosso primeiro evento nela [a Founder’s Cup] há duas semanas, foi incrível. Ainda são testes, a tecnologia ainda é um protótipo, mas nossas ambições têm crescido. A piscina fica na Califórnia, nós vamos construir uma na Flórida e estamos planejando outra em Tóquio [para possível uso na Olimpíada], na Austrália e no Brasil. E estamos olhando para a França. Acho que, no futuro, vai haver muitas piscinas dessas pelo mundo.

A CEO e a australiana Stephanie Gilmore, hexacampeãa mundial de surf

Como a comunidade do surf poderia usar a piscina no Brasil? Ainda não determinamos o modelo, mas vai ser uma instalação multiuso. Acho que uma parte importante será o treinamento para o surf de alto desempenho. Também vemos a oportunidade de fazer algo parecido com um country club [um clube de associados]. Sabemos que também é importante o uso para associações de surf e comunidades locais. Mas serão modelos diferentes em cada país, dependendo do mercado local.

Onde seria? Já estamos fazendo reuniões sobre isso, mas ainda não determinamos.

Provavelmente em uma grande cidade. Sim, é mais provável que seja em uma grande cidade.

Você não acha que os campeonatos em piscinas perdem um pouco da espontaneidade de uma competição no oceano? Bem, estive na Founder’s Cup por dois dias e acho que foi um dos melhores surfs que já vi, não achei nem um pouco chato porque cada surfista faz algo diferente na onda. Ela é muito mais consistente e não é sempre a mesma onda, o vento também afeta a qualidade [como no mar] e tem outras variáveis. Claro, não existe a mesma diversidade, por isso acho que o ideal é termos os dois. Você não tem as paddle battles [disputas para chegar primeiro à onda], não tem que saber ler as diferentes ondas ou quando as séries vão entrar, então obviamente há diferenças. Mas é interessante, os atletas pareciam sentir mais pressão porque eles sabem o que virá, então isso os força a ter que fazer mais. É quase uma nova disciplina dentro do esporte. E vemos manobras que eles não poderiam tentar no oceano. Então não acho que seja chato.

Sophie, em Saquerema

Não quis dizer que fosse chato... Sim! Mas quando você assiste à competição, todo o drama, a tensão quando o atleta ouve ‘onda vindo em 10 segundos’... Acho que é só outro tipo de mindset. E tem como variar a onda, no rancho em Leemore [a piscina criada por Kelly] temos três tipos de onda, é possível variar a velocidade e a altura. Em cada instalação teremos diferentes tipos de onda conforme a tecnologia se desenvolve.

Os campeonatos da WSL no Brasil sempre foram criticados pela qualidade das ondas. Mas sabemos que o país é um mercado importante para a liga. Qual a sua avaliação do evento em Saquarema, em termos de qualidade e importância? Eu amei. Esse é apenas meu segundo dia aqui, mas a organização está ótima, a praia é linda, muita gente assistindo. Sempre ouvi sobre a paixão dos brasileiros pelo surfe e é a primeira vez que a estou sentindo, e definitivamente ela atingiu as expectativas. E, sim, é um mercado muito importante, temos 11 brasileiros competindo no masculino e agora duas mulheres, com a Tati [Weston-Webb] mudando a nacionalidade. Então é um mercado prioritário para nós. E fiquei muito impressionada com o cenário aqui, é fantástico. [Nos bastidores do campeonato, Tpm apurou que o tour deve seguir em Saquarema pelos próximos anos.]

 

Créditos

Imagem principal: WSL/Kenneth Morris

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