Sem roupa nem pudor

Convidamos a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, que atende casais há 45 anos, para bater um papo franco com o fotógrafo Brunno Rangel e o diretor de arte Marcelo Feitosa

por Milly Lacombe em

Tpm / Comportamento / Ensaio TPM / Relacionamento

Convidamos a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, autora de 12 livros sobre relacionamentos amorosos e que atende casais há 45 anos, para bater um papo franco com o fotógrafo Brunno Rangel, 30, e o diretor de arte Marcelo Feitosa, 38. O casal, que está junto há quatro anos e não tem filhos, nos recebeu em seu estúdio. “Todos os dias eu olho o Marcelo e escolho estar com ele”, diz Brunno. “Às vezes, tô vendo televisão e ele aparece: ‘Vem, vamos transar’”, conta Marcelo

Regina Navarro Lins. Como vocês se conheceram?
Marcelo Feitosa. Eu morava em São Paulo, estava na São Paulo Fashion Week e vi que alguém que não conhecia tinha curtido uma foto minha. Entrei no perfil e pensei: “Interessante esse menino”. Aí curti umas fotos dele.
Brunno Rangel. Eu morava no Rio, estava fuçando a hashtag da São Paulo Fashion Week, vi ele numa foto e pensei: “Hum, gostei”. Comentei numa foto: “Me passa seu contato por inbox”, mandei o meu e em seguida ele me passou seu WhatsApp. A gente começou a se falar por ali, depois por telefone e quando vi já estávamos falando pela câmera.
Marcelo. Na primeira vez que a gente se falou por Skype ficamos uns cinco minutos nos olhando.
Brunno. Sem falar nada.
Marcelo. Quando abriu a câmera, parecia que eu tinha encontrado uma pessoa de quem eu sentia saudade.
Brunno. A gente começou a se falar todos os dias por Skype. Em seguida, apareceu um trabalho em São Paulo e ele foi me buscar no aeroporto.

Regina. Aí então vocês se conheceram?
Brunno.
Saí do avião todo posando, mas ele estava me esperando no portão errado.
Marcelo.
Liguei e perguntei onde ele estava, e ele dizia que estava num café, mas que não sabia o nome. Pensei: “Vou ter que ter paciência com esse menino”.
Brunno.
Aí uma hora ele me mandou um WhatsApp. “Olha pra cima.” E, quando olhei, ele estava no outro andar e desceu a escada rolante chorando.

Regina. Por quê?
Marcelo.
Não sei, mas quando finalmente vi o Brunno lá embaixo, sei lá, me reconheci. A escada rolante descendo, ele olhando para mim, eu não sabia se enfiava a mão no bolso, mexia no celular, acelerava o passo.
Brunno.
Quando a gente se abraçou era como se não existisse mais nada em volta.

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Regina. O que atraiu vocês um no outro?
Brunno. O olhar. Até hoje quando vejo o olhar dele parece que é o meu lugar no mundo.
Marcelo. O humor e a leveza.

Regina. Depois de um ou dois meses, o que descobriram de novidade um no outro?
Marcelo. O jeito que ele levava a vida. Comecei a me achar nesse lugar confortável e feliz de pequenas coisas: acordar cedo, me cuidar, me alimentar direito, comer de forma saudável.

 

Regina. Numa relação o outro pode puxar a gente pra cima ou pra baixo.  Brunno. No começo, o Marcelo falava: “A gente precisa ter nossos espaços individuais”. E eu: “Isso não precisa ser uma regra, tem que ser natural”. A gente tentou impor isso na relação e parecia forçado, sabe?
Marcelo.
Hoje a gente tem um dia da semana em que eu vou para os lugares de que gosto e ele, para os dele. A gente chama de Dia da Criança. Eu vou a museus, ele vai comprar vinil e assim por diante.

Regina. Qualquer coisa que você faça só pra agradar o outro tem um preço altíssimo para a relação.
Brunno. Exato, e você nem percebe.

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Regina. E quais características incomodam?
Marcelo. Ele é controlador, bagunceiro e leonino.
Brunno. Ah, não sou controlador assim, não. Eu acho [risos]. Mas ele é áries com áries: cabeça dura, não pede desculpas.

Regina. Vocês têm pacto de exclusividade?
Brunno. Sim, mas acho que é mais um pacto de cumplicidade.
Marcelo. Você tem que ser cúmplice de você mesmo, cúmplice do outro e cúmplice da relação. São três pontas. Relacionamento é uma caminhada junto, é andar do lado do outro.

Regina. O que fariam se descobrissem alguma coisa?
Marcelo. Tentaria entender por que aconteceu. Sou mais preguiçoso no sexo, então tentaria ver se foi por isso.
Brunno. Se ele me contasse sem que eu descobrisse, conversaria numa boa. Mas se eu descobrisse, eu não saberia lidar. Seria o fim da cumplicidade.

Regina. Tem gente que acredita ser possível amar várias pessoas ao mesmo tempo. Concordam?
Brunno.
Tenho amigos que namoram mais de uma pessoa e acho uma evolução.
Marcelo.
Será que isso não é geracional?
Brunno.
Quando perguntam como a gente está há quatro anos juntos, respondo: “A gente se escolhe diariamente”. Todos os dias eu olho o Marcelo e escolho estar com ele. Não conseguiria dividir amor, atenção, dedicação.

Regina. Vocês acham que o sexo diminui no casamento?
Marcelo. Acho que sim, mas não pela falta de tesão, e sim pela convivência.
Brunno. Às vezes tô vendo televisão e o Marcelo aparece: “Vem, vamos transar”. E eu: “Como assim? Tô vendo filme aqui”. Mas acho que diminui porque você sabe que o outro vai estar ali no dia seguinte. É uma zona de conforto.

Regina. Brunno, você gostaria de transar mais?
Brunno. A gente transa uma, duas vezes por semana. Tá bom.

Regina. Como vocês imaginam a vida daqui a 30 anos?
Brunno. Com um filho.
Marcelo. Talvez três filhos e morando no mato.

Créditos

Bispo

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