Ligando aquele botão

Livro da antropóloga Mirian Goldenberg quer inspirar mulheres a ligarem o foda-se para serem felizes

por Juliana Sayuri em

A antropóloga Mirian Goldenberg adora ouvir histórias. Aos 62 anos, sua nota biográfica poderia incluir posições prestigiadas como professora titular do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora de best-sellers como A outra (1990) e A bela velhice (2013). Mas a expressão que melhor lhe define – e lhe agrada – atualmente é outra: “escutadora dos velhinhos”.

Desde 2015, a acadêmica santista radicada no Rio vem investigando o estilo de vida dos idosos (mais de 60 anos) e dos superidosos (mais de 90). Muitos dos entrevistados para seus estudos, inclusive, se tornaram seus amigos, principalmente os do segmento super: eles se falam quase todos os dias, por Facebook ou WhatsApp, e saem juntos para ir ao cinema, ouvir música, tomar chope. Segundo Mirian, os idosos são ativos, independentes, lúcidos e alegres. 

A antropóloga Mirian Goldenberg

Foram eles que inspiraram a conferência A invenção de uma bela velhice, apresentada pela antropóloga no TEDx São Paulo, em novembro de 2017. O vídeo, que desde sua publicação no YouTube, em janeiro de 2018, já ultrapassou um milhão de visualizações, também motivou Mirian a escrever o livro Liberdade, felicidade e foda-se, que será lançado no dia 22 de julho no Rio de Janeiro.

Na obra, especialmente endereçada a mulheres, a autora nos incentiva a ligar o botão do “foda-se”. “Vão dizer que sou uma velha ridícula porque vou à praia de biquíni? Ou que sou uma velha baranga porque gosto de usar minissaia? Vão dizer também que sou uma coroa periguete porque namoro um cara mais jovem?”, questiona a antropóloga na palestra. “Foda-se.”

Para Mirian, a palavrinha traduz a atitude libertadora de não se importar com o que os outros vão pensar, o que é especialmente caro a nós, mulheres. E não é de hoje que ela aborda a vigilância constante sobre a mulher e, principalmente, sobre o corpo feminino.

No livro Toda mulher é meio Leila Diniz (1995), a escritora conta como a atriz (1945-1972), que, em 1971, escandalizou a sociedade fluminense ao passear, grávida e de biquíni, na praia de Ipanema, liderou uma revolução simbólica ao escolher ter um filho fora do casamento e ainda exibir a barriga publicamente. Mais de 40 anos depois, a luta continua: em 2013, a atriz Betty Faria, na casa dos 70, foi alvo de críticas por ir à praia do Leblon, no Rio, de biquíni. “Gosto muito da resposta corajosa que a Betty deu às críticas: ‘Quer dizer que eu preciso ir à praia de burca?’ O fato de pessoas famosas levantarem essas questões ajuda a desconstruir o estigma do envelhecimento”, diz Mirian.

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Há três décadas a antropóloga pesquisa temas relacionados às mulheres. Já fez estudos sobre fidelidade (publicados nos livros A outra, de 1990, e Infiel, de 2006), corpo e sexualidade (Os novos desejos, de 2000, Nu & vestido, de 2002, entre outros) e, em sua últimas pesquisas, vem discutindo questões como vaidade e liberdade para mulheres maduras (Coroas, de 2008, Velho é lindo!, de 2016, entre outros).

Em Liberdade, felicidade e foda-se, a “escutadora dos velhinhos” costura dados e depoimentos colhidos ao longo de um levantamento com mais de 5 mil homens e mulheres de 18 a 98 anos. E, apesar de refletir a intersecção dos vários temas que permeiam os estudos de Mirian  – como o feminino e, mais recentemente, a velhice –, a obra busca um propósito ainda maior. “Este é um livro sobre felicidade”, diz à Tpm. A seguir, a autora fala mais sobre o novo trabalho, como viver a melhor velhice  – principalmente como mulher – e, claro, felicidade.

Tpm. No novo livro, você propõe uma 'antropologia da felicidade'. O que é ser feliz?
Mirian Goldenberg. Por antropologia da felicidade, quero destacar essa busca constante por caminhos para uma vida mais feliz. É uma questão universal e atemporal, que vem sendo discutida em diversos campos, da filosofia à economia. Agora, por felicidade, não quero dizer a ideia impossível, inatingível ou idealizada de plenitude, mas a felicidade cotidiana e concreta. Uma felicidade possível. E isso se expressa das mais diferentes formas. Há expectativas irreais, por exemplo: as pessoas valorizam pouco o que têm e dão muita importância ao que não têm. Digo que a pergunta certa é o que importa. Se perguntarmos o que “falta” para sermos felizes, as respostas incluem dinheiro, juventude, sucesso, isto é, o que se enxerga no outro. Agora, quando a pergunta é “qual é o momento do dia em que nos sentimos mais felizes?”, as respostas partem do que as pessoas realmente têm e, muitas vezes, são elementos simples do cotidiano, como um abraço carinhoso, um beijo, um elogio, rir com os amigos. Isso é o essencial. A partir dessa constatação, é possível descobrir novos caminhos e evitar sofrimento sobre expectativas irreais.

A antropóloga Mirian Goldenberg

E o que os mais velhos têm a nos ensinar sobre felicidade? Desde 2015, estou pesquisando pessoas com mais de 60 anos, especialmente quem tem mais de 90. Este é o primeiro livro dedicado a eles e o que eles têm me ensinado sobre leveza e viver melhor. Estudei homens e mulheres de 18 anos a 98 anos e notei que os mais felizes estão nos extremos – os mais jovens e os mais velhos. Os menos felizes estão entre os 40-50 anos. Isso confirma um estudo feito por economistas [das universidades de Warwick, no Reino Unido, e Dartmouth College, nos Estados Unidos], que contemplou 2 milhões de pessoas de 80 países, incluindo o Brasil. Os pesquisadores descobriram uma “curva” da felicidade: esse sentimento é maior no início da vida, diminui ao longo dos anos, chegando ao ponto mais baixo por volta dos 45 e, depois, volta a crescer. No meu estudo, atestei esse dado especialmente entre as mulheres. Na casa dos 40-50, elas se dizem mais infelizes, insatisfeitas e frustradas. É uma época de muitas expectativas sociais sobre o estágio em que você está vida, confrontando cobranças e pressões sobre conquistas e, principalmente, não conquistas. É a fase do “nem-nem”: não sou mais jovem, mas ainda não sou velha. Aí elas se questionam muito.

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Você diz que a única categoria social que inclui todo mundo é a velhice. Independentemente de cor, classe, gênero ou orientação sexual, todos seremos velhos, hoje ou amanhã. Mas, pensando, por exemplo, nos segmentos sociais que literalmente precisam ‘trabalhar até morrer’ no Brasil, há diferentes condições para se viver a velhice, não? Violência, miséria, pobreza são fatores inegáveis e que impactam em como se vive a velhice. Outros autores abordam esse contexto de condições socioeconômicas para o envelhecimento que é majoritário, principalmente no Brasil. Mas, no meu livro, quis mostrar outras variáveis e outras formas felizes e belas de envelhecimento em diferentes classes sociais, sem esquecer que há maneiras muito cruéis e violentas de vivenciar essa fase. Não pesquiso pessoas muito ricas, mas de classe média e classe média baixa que estão conseguindo reinventar o próprio envelhecimento. E é importante dar visibilidade a isso. Afinal, saber que um dia todos seremos velhos é libertador. É aceitar o inevitável. E, já que é inevitável, podemos perder o pânico de envelhecer, que é muito presente nos mais jovens, principalmente nas mulheres que sofrem com o envelhecimento muito precocemente. É só observar os números recordes de procedimentos estéticos e cirúrgicos para tentar parar os efeitos do tempo. Meu argumento é que podemos ter uma relação diferente com o tempo se compreendermos que um dia todos seremos velhos. 

Personalidades como Madonna e Xuxa vêm abordando abertamente questões como velhice, vaidade e sexualidade. É um momento novo para os mais velhos? O fato de pessoas famosas levantarem essas questões ajuda bastante a desconstruir o estigma do envelhecimento. Se sou a Madonna, sempre cantei e dancei, alguém vai me dizer que agora, aos 60, não posso mais? Posicionamentos de figuras públicas são fundamentais para que outras pessoas, não famosas, reivindiquem também um envelhecimento mais feliz e livre. Isso repercute em todas nós. Mas meu propósito, no livro, é dizer que podemos ser livres hoje e amanhã – e não só cultivar a expectativa do amanhã. Não preciso chegar ao 60 anos para dizer “foda-se”. Betty Faria fez, Leila Diniz também. As mulheres mais velhas que eu pesquisei já se libertaram até certo ponto. Então, escrevo principalmente para as mulheres mais jovens, que enfrentam o envelhecimento e as demais restrições de liberdade, as pressões sobre o corpo, o comportamento, a sexualidade. Fico feliz quando meninas de 18, meninos de 23 me dizem: “Não vou esperar para ser mais livre e mais feliz”. É gratificante demais, pois essa é a ideia do livro. Que seja libertador. 

A antropóloga no TEDxSão Paulo, em 2017 - Crédito: Rosana Salvoni/Creative Commons

A expressão também dá título ao best-seller A sutil arte de ligar o f*da-se (Mark Manson), que é considerado autoajuda. Você teme que seu livro seja rotulado assim? Escolhi o título Liberdade, felicidade e foda-se porque é o que melhor traduz minha pesquisa. Confesso que fiquei com medo de acharem uma expressão agressiva – o que não é: meu “foda-se” é uma atitude lúdica e libertadora. Ou de pensarem que estou entrando em uma modinha. Mas como as pessoas vão classificar meu livro está fora do meu controle – e decidi assumir o risco. Precisei ser coerente comigo mesma e com o que aprendi com minhas pesquisas e pesquisadas. Se elas dizem que esse é um sentimento importante, que lhes faz ter uma vida mais leve, então é o que deve estar na capa do livro. Seria incoerente se, por medo do que as pessoas fossem pensar, eu acabasse me censurando. Sempre defendi, e defendo agora, que o medo é um péssimo conselheiro. Então, se alguém não conhece minha trajetória de trabalho e achar que é só uma modinha, por exemplo, vou precisar ligar meu botãozinho e dizer “foda-se”.

Mas o que vem acontecendo é que, como meu trabalho é muito amoroso, sobre questões que nos tocam, como liberdade, felicidade e formas mais generosas de se viver, recebo milhares de mensagens lindas. Então, preciso ligar esse botãozinho muito mais para mim mesma. Às vezes, me martirizo por dias por ter dito uma palavra errada na TV, ou por uma vírgula que deixei escapar no livro. Mas, depois, paro e penso: errei, já foi, foda-se. 

Nas Páginas Vermelhas (2011), você afirmou: "O que mais me intriga é a questão do poder. Quero entender o que falta para nós, brasileiras, sentirmos o poder que temos". Você diria que nós, brasileiras, estamos mais empoderadas atualmente? Pois é, nessa entrevista, eu dizia que o contraste me intrigava. Jovens de 20-30 anos com medo de envelhecer e com preocupações com o corpo, enquanto as mulheres de 60-70 se mostravam mais leves e felizes, mais resolvidas com essas questões. Hoje diria que estamos, sim, mais poderosas – e cada vez mais as mulheres jovens mobilizam essas lutas, em diferentes frentes. Mas o contraste continua: não somos tão poderosas como poderíamos ser, pois o medo de envelhecer continua presente na sociedade, assim como as críticas a mulheres que não estão no padrão de corpo ou de comportamento – muitas vezes, feitas por outras mulheres. Então, estamos mais empoderadas, mas podemos muito mais. E podemos aprender a ser mais generosas umas com as outras. Vamos avançando, apesar das contradições.

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