Da Maré para Tóquio

Rebeca de Lima ensaiou seus primeiros golpes ainda criança nos ringues do complexo carioca. Aos 17 anos, é campeã nacional juvenil, além de aposta para a próxima olimpíada

por Giulia Garcia em

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Rebeca de Lima se preparava para entrar no ringue, em setembro passado. O estádio inteiro torcia para a adversária, Gleisiele Gomes. Famosa por nocautear as adversárias, Gleisiele era considerada a mais forte da categoria de 60 quilos. Mas, contrariando as expectativas, foi Rebeca quem se consagrou vencedora do Campeonato Brasileiro de Boxe Juvenil 2017 na categoria. “Estava completamente concentrada na luta, não escutava nada, era só eu e o coração ali dentro”, lembra Rebeca, 17 anos. Com a vitória, veio o convite para integrar a equipe brasileira que disputará o campeonato juvenil sul-americano em outubro, enquanto seu nome se tornava uma das apostas para a Olimpíada de Tóquio, em 2020.

A história de Rebeca começa no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, na comunidade de Nova Holanda. “Tive uma infância muito boa na favela, não havia conflitos tão frequentes.” Hoje, se incomoda ao ver as crianças brincando perto das bocas de fumo. “Em vez de cores e letras, elas reconhecem qual é a arma só pelo disparo. Estão crescendo no meio de uma guerra. O que vão aprender?” Quando era criança, seu meio-irmão, Axé, foi assassinado. “Viver na favela é uma segurança entre aspas. Não se pode roubar lá dentro, não há risco de ser assaltado, mas você pode ser morto.”

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As irmãs Rosilane e Rebeca de Lima - Crédito: Arquivo pessoal

Aos 7 anos, Rebeca viu um grupo de meninas correndo na Vila Olímpica da Maré, projeto social na comunidade. Descobriu que a atividade era parte dos treinos de boxe da Academia Luta Pela Paz e decidiu participar.

Sua mãe tinha medo que a filha se machucasse. Tentou colocá-la no balé, mas a menina se recusava. Conseguiu que os primeiros passos de Rebeca dentro da academia fossem na ginástica olímpica — a luta ficaria para outra hora. “Mulher no boxe ainda é um negócio bem recente. É uma questão cultural de ‘isso não é pra menina’. Machismo, né?” Seu pai, Osmar, lidava melhor com a escolha, apesar das preocupações. “Ele me sugeria outros esportes. Mas não era isso o que eu queria.”

A paixão de Rebeca era o boxe. A prima já lutava na academia, o que ajudou a convencer sua mãe. “Via as meninas se preparando para competir e meu sonho só era ser uma delas. Nunca pensei que me tornaria campeã nacional.”  

Pausa
Com a separação dos pais e o novo casamento da mãe, Rebeca deixou Nova Holanda. A mudança para a Ilha do Governador, aos 13 anos, a afastaria dos ringues. A mãe, antes apreensiva com os golpes do boxe, passou a se preocupar com a violência da cidade. Tinha medo que a menina andasse sozinha pelo Rio de Janeiro para ir até a academia.

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Os medos tiveram que ser deixados de lado. Aos 14, Rebeca voltou para a Luta Pela Paz e, incentivada por seu treinador Gibi, passou a participar dos campeonatos infantis. Eram as primeiras de muitas competições. “Ela é uma peça que temos para colocar na seleção olímpica”, diz Gibi.

As Olimpíadas tornaram-se o foco da garota e os treinos passaram a receber dedicação total. Mas treinar na Maré tem desvantagens. A violência da favela impossibilita muitas vezes treinos diários e, em momentos de operação policial, a Luta Pela Paz fecha as portas, prezando pela segurança dos alunos. “Tiroteio sempre teve, entre polícia e bandido, entre bandido e bandido. Mas acho que se intensificaram e não tô vendo resultado. É tiro pra acabar com o tráfico e apreender armas e drogas, mas no dia seguinte você vê a mesma rapazeada lá. Nada aconteceu, só gente morreu.” 

A Luta Pela Paz permanece ali. A academia é uma das sedes do projeto inglês Fight For Peace, que combina esporte e educação para o desenvolvimento de jovens da periferia. “Quanto mais crianças praticando esporte e estudando, menos jovens na rua. Dificilmente se aprende coisas boas ali”, diz Douglas Noronha, um dos treinadores de Rebeca.

Noronha faz questão de lembrar a boxeadora que suas prioridades vão além dos treinos e que o ensino superior é um dos próximos passos. “Acho que ele sonha por mim. Eu meio que aprendi a viver com o que a tenho agora e até posso sonhar com o que quero, mas fico sempre na dúvida. 'Caramba, vai dar certo?’ Não sei.” No terceiro ano do ensino médio, ela se prepara para prestar vestibular. 

Ela ainda não tem certeza de qual profissão seguir, mas tem um objetivo claro: sair da favela e vê no boxe um caminho para isso.  A vitória sobre a favorita no campeonato nacional foi o primeiro passo para a disputa sul-americana. Para Noronha, Rebeca é mais do que uma atleta. “Ela é o exemplo de que é possível, independente de onde você vem e das limitações que a vida te dá. É possível ser campeã nacional, terminar o ensino médio, ter uma formação superior. A importância dela vai além dos ringues.”

Créditos

Imagem principal: Emmanuelle Bernard

Fotos: Emmanuelle Bernard

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