A monja feminista

"As mulheres não têm que se tornar mais masculinas, precisam achar a força no feminino", diz Jetsunma Tenzin Palmo, uma das mais importantes monjas do budismo tibetano

por Gabriela Borges em

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“Está tudo bem em não estar tudo bem. No budismo, não existe raiva justificável.” Ao mesmo tempo em que as frases de Jetsunma Tenzin Palmo são recebidas como um conforto em nossas vidas cheias de conflito, as provocações sagazes dessa monja budista tibetana de 74 anos nos leva a pensar e repensar como viver é difícil.

No último feriado de Páscoa, mais de 600 pessoas estiveram presentes em um teatro no bairro da Liberdade, em São Paulo, para escutá-la por quatro dias. Tenzin Palmo expõe a complexidade da filosofia budista usando uma linguagem acessível e com muita amorosidade. De vez em quando, faz algumas piadas e usa analogias da vida de quem vive em cidades, trabalha e tem família.

A monja nasceu Diane Perry na Inglaterra, em 1943, em um dia em que Hitler estava bombardeando Londres. Foi ordenada aos 21 anos na Índia. É conhecida e respeitada por ser uma das poucas yoginis ocidentais treinadas no Oriente, depois de ter passado 12 anos vivendo em uma caverna no Himalaia, sendo que três deles em um retiro de meditação. Em 2000, fundou o monastério Dongyu Gatsal Ling, na Índia, só para mulheres, onde está o templo tradicional budista com o maior número de figuras femininas em suas paredes. Oito anos depois, ganhou o título de Jetsunma, ou “venerável mestra”, em reconhecimento às suas realizações espirituais como monja e aos seus esforços na luta pelos direitos das mulheres praticantes de budismo tibetano.

Jetsunma Tenzin Palmo em sua palestra em São Paulo - Crédito: Samanta Samgolob


No Tibet, a palavra mulher significa “nascimento inferior” e o budismo está baseado na cultura patriarcal que a considera objeto de prazer, sexualidade e reprodução. Por isso, a trajetória de Tenzin Palmo é revolucionária. Ao ser ordenada, declarou publicamente seu voto de alcançar a iluminação reencarnando sempre em corpos femininos. Isso significa ser um buda feminino em uma religião que em grande parte ainda considera esse um título exclusivamente do sexo masculino, barrando as mulheres no acesso aos estudos da filosofia budista, ensinamentos esotéricos e rituais sagrados.

Durante seus primeiros anos na Índia, ela mesma tinha que sentar-se fora dos templos para assistir a cerimônias e rituais que aconteciam do lado de dentro, apenas por ser mulher. E foi contra essa barreira da discriminação espiritual que decidiu lutar. “No budismo, a razão para que as mulheres tenham estado em tamanho silêncio é porque não tiveram acesso à educação e não se sentiam confiantes, então, não podiam se expressar, como sempre acontece com as mulheres… Mas a natureza de Buda não é masculina ou feminina, essa desigualdade vem da sociedade. A chave para a mudança está na educação”, diz. Jetsunma Tenzin Palmo conversou com a Tpm sobre aborto, privilégios e compaixão.

Estamos vivendo uma situação bem delicada no Brasil. Há um mês, uma vereadora do Rio de Janeiro foi assassinada, Marielle Franco. Ela era mulher, ativista política, negra e lésbica. E há muitas pessoas defendendo que merecia ser assassinada. Como lidar com quem pensa assim?
Vivemos uma poluição material enorme; ar, terra, água poluída. Se a gente pudesse ver a energia de raiva, violência, paranóia, ganância, inveja, competitividade ao redor da terra, seria uma grande camada de energia suja. Então, é muito importante que a gente não aja a partir dessa energia, mesmo que estejamos indignados. Indignação baseada em raiva em vez de compaixão apenas adiciona mais disso ao mundo, além de medo. Como o Buda diz: “A raiva não é solucionada com mais raiva; a raiva é solucionada sem raiva”. Então, temos que colocar para fora amor e compaixão, porque o mundo está realmente sofrendo. E isso não significa que aceitamos e toleramos. Mas, se nos unirmos a essa energia de paranóia e medo, estaremos do lado deles, como em Star Wars. [No dia anterior à entrevista, durante seu curso, Jetsunma havia usado o exemplo do episódio da saga Star Wars, no qual Luke Skywalker, movido pela raiva, acaba se unindo ao "lado obscuro da força"].

“Estamos sempre falando sobre a agressividade masculina, mas nós nos tornamos agressivas como se isso fosse uma coisa boa. Não é”, diz Jetsunma Tenzin Palmo - Crédito: Samanta Samgolob


Às vezes, não temos sabedoria para falar com as pessoas dessa forma...
Não precisamos dizer nada, temos apenas que ouvir. Escutar porque a pessoa está pensando daquela maneira e entender o seu ponto de vista. Só assim temos a possibilidade de criar um diálogo aberto. Se encaramos as pessoas dizendo "nós estamos certos e vocês estão errados", será uma guerra.

Seria isso a "compaixão destemida" que você falou durante seu curso?
Sim. É a abertura para ouvir o outro lado sem julgamento. Por isso é muito importante não ser o outro lado de um mesmo padrão de indignação. Temos que aprender sobre amor, gentileza, compaixão e paciência. De alguma maneira, essas pessoas estão nos ajudando a olhar profundamente para dentro de nós mesmos, para a nossa própria negatividade. Elas são espelhos das nossas próprias mentes, mostram se estamos criando mais ou menos conflitos.

Você se considera feminista?
Como o Dalai Lama disse: "Se ser feminista significa que as mulheres deveriam ter oportunidades iguais, então, eu sou feminista". Digo o mesmo, porque as mulheres não estão tendo oportunidades iguais.

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O movimento feminista ganhou força nos últimos anos, mas há muitos desentendimentos com homens e entre as próprias mulheres de linhas feministas diferentes. Está tudo à flor da pele. É interessante entender essa noção budista de compaixão destemida e tentar tornar isso possível para as pessoas que estão nas linhas de frente das lutas por direitos iguais.
Pois a briga é o verdadeiro problema. Quando há briga, há times opostos e guerra. Isso não ajuda o mundo. O movimento feminista se tornou muito agressivo. Estamos sempre falando sobre a agressividade masculina, mas nós nos tornamos agressivas como se isso fosse uma coisa boa. Não é. Essa agressividade está destruindo o planeta. Então, porque estamos copiando os exemplos dos quais estamos exatamente lutando contra? As mulheres não têm que se tornar mais masculinas, precisam achar a força no feminino e parte dela é justamente a compaixão destemida. Como uma cadela que acabou de dar à luz e tem que proteger seus filhotes. Ela rosna, sem atacar, mesmo para cachorros maiores, age com compaixão destemida para defender seus filhotes. É desse tipo de coragem que falo, sem agressividade. Há inclusive muitos homens que estão dispostos a nos apoiar e lutar junto para acabar com as desigualdades de gênero, enquanto há mulheres que não apoiam outras mulheres. Não podemos estar em guerra umas com as outras.

“Precisamos nos colocar no lugar das pessoas que pensam diferente e tentar entender por que elas pensam e agem daquela forma”, diz Jetsunma Tenzin Palmo - Crédito: Samanta Samgolob

O aborto no Brasil, assim como em muitos países do mundo, se tornou um problema de saúde pública. Muitas mulheres morrem por conta de procedimentos feitos na ilegalidade. Ao mesmo tempo, existe uma enorme corrente contra sua legalização, baseada principalmente na militância pró-vida, desde a concepção. Como você vê essa questão, como mulher e budista?
Não posso falar apenas do meu ponto de vista, porque, em geral, é claro que o aborto significa tirar a vida de um ser humano. E tirar a vida do seu próprio filho, mesmo que seja um embrião, não é uma coisa boa. Ficar grávida sem nenhum tipo prevenção só porque é fácil fazer um aborto obviamente não é uma coisa boa. Mas, por outro lado, há circunstâncias quando, por exemplo, a gravidez acontece como resultado de um estupro ou porque a garota é muito nova e não tem condições de ter o bebê. A verdade é que a mulher deve ter o direito de escolher. É o nosso corpo e nós precisamos ter o direito de fazer nossas próprias escolhas. Mas devemos ter conhecimento das implicações. Não significa apenas "se livrar" de algo sem importância, você está "se livrando" do seu próprio filho. As mulheres devem ter consciência do que estão fazendo e o direito de fazer suas próprias escolhas.

A importância de se reconhecer privilégios é outro assunto importante nos dias de hoje.
Que tipo de privilégios?

Ser rico em relação aos mais pobres, branco em relação aos negros, homem em relação às mulheres. Privilégios que nós não escolhemos...
Como resultado do carma.

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Sim. Estava pensando sobre carma e privilégios durante seu curso e confesso que fiquei confusa. Porque ter ou não ter privilégios é um carma, mas você deve decidir o que fazer com ele.

Sim, exatamente. Como você lida com a sua situação? Carma não é algo que estabelecido, não é destino. Estamos fazendo escolhas a cada momento, principalmente quando temos clareza em alguma situação na qual podemos decidir o que fazer. Temos livre arbítrio, apesar da nossa condição. Do ponto de vista budista, é muito importante reconhecer que isso aqui é uma parte tão, mas tão pequena de toda a existência, de todas as nossas vidas. Quando pensamos que algo é muito difícil, muito ruim, se dermos um passo atrás e olharmos para o todo, vamos perceber que é uma pequena parte. E o que podemos aprender com isso? Muitas pessoas ricas, com alto nível de educação, desperdiçam completamente suas vidas e terminam alcoólatras, por exemplo. Felicidade genuína não depende de privilégios. Há muitas pessoas "desprivilegiadas" que são felizes, que encontraram sentido para suas vidas. Tudo depende da forma como você decide viver essa vida.

Mas as pessoas estão machucadas, com medo e com raiva. E por isso é tão difícil compreender e praticar a compaixão destemida.
Sim, mas precisamos abrir nossos corações. Esse é o ponto. Precisamos nos colocar no lugar das pessoas que pensam de forma diferente de nós e tentar entender por que elas pensam e agem daquela forma. Eles também estão pensando em suas vidas, em seus trabalhos, buscando ser felizes e sobreviver. E por isso não querem mudar de opinião.

Entendo o que você quer dizer. Mas, ao mesmo tempo, o Trump se tornou presidente dos EUA, aqui no Brasil vivemos um caos enorme na política. É muito difícil lutar dessa forma compassiva...
Bem vinda ao Samsara [risos]!  Esse é o ciclo de renascimento e morte. Ele não é uma jornada fácil e agradável. É impermanência, insatisfação e sofrimento. Há tempos em que as coisas parecem um pouco mais fáceis, aí fica difícil de novo. Às vezes, achamos que realmente aprendemos, como nos anos 60 e 70 com os movimentos de paz e amor, e olha o que aconteceu. Os anos 80 e 90 se fecharam novamente para os direitos das mulheres... Isso é o Samsara, minha querida. Não significa que temos que aceitar ou não tentar ajudar, mas não devemos esperar mais do que isso. Temos que fazer o melhor que podemos e “segurar a nossa vela”. Uma vela acesa ilumina a escuridão.

Vai lá: tenzinpalmo.com 

Créditos

Imagem principal: Samanta Samgolob

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