por Nathalia Zaccaro

As fotos de Medina Dugger homenageiam umas das mais ricas tradições culturais da Nigéria: os cabelos de suas mulheres

Radicada na Nigéria, a fotógrafa americana Medina 
Dugger é fascinada pela maneira como as africanas penteiam seus cabelos. Em 2011, quando trocou a Califórnia por Lagos, descobriu o trabalho do fotógrafo JD Okhai Ojeikere, um dos principais fotógrafos africanos do século 20.

Ao longo de sua carreira, ele registrou mais de mil penteados de mulheres nigerianas em retratos em preto e branco que compõem parte fundamental da história da resistência negra. “O mundo associa Nigéria a corrupção, petróleo e Boko Haram. As fotos dele constroem uma narrativa visual do país que fala de orgulho, tradição e beleza”, diz Medina.

Em março deste ano, ela lançou o projeto Chroma: uma ode a JD Okhai Ojeikere, em que revisita o trabalho de JD. “O padrão de beleza eurocêntrico continua subjugando a representação dos corpos negros e é importante combater essa percepção”, diz.

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Conversamos com Medina sobre a força das raízes africanas:

 Por que você decidiu se mudar para a Nigéria? Viajar para a Nigéria se apresentou como uma possibilidade em minha vida quando conheci uma nigeriana em Paris, durante meus estudos em fotografia. Ela ajudou a co-fundar o LagosPhoto Festival e, em 2011, fui contratada para ajuda-la a coordenar o festival, que é o único do gênero na Nigéria.

Como conheceu o trabalho de JD Okhai Ojeikere e por quê o considerou importante? Nesse mundo incrivelmente globalizado e conectado,  as tradições sociais e culturais correm o risco de se perder inteiramente. Depois de ler um livro sobre Ojeikere, eu entendi como as imagens dos penteados representam muito mais que um estilo único, elas registram uma importante parte da história nigeriana: o retorno ao estilo capitar tradicional em uma época em que o alisamento dos fios estava se tornando comum. Suas fotos contribuíram para a narrativa visual da história do país. Infelizmente, o mundo conhece apenas poucos trechos da história nigeriana. As fotos de Ojeikere são a ponta do iceberg quando falamos na riqueza da cultura desse país que pelo mundo é associado apenas a petróleo, corrupção e Boko Haram.  

Onde você encontra essas garotas com penteados tão incríveis?  Eu vejo cabelos incríveis todos os dias na Nigéria. Alguns dos cabelos registrados no Chroma são ainda comuns nas ruas, outros nem tanto. Para as fotos, as garotas fizeram versões mais imaginativas ou exageradas de penteados clássicos. Os cabelos das fotos foram feitos especialmente para o projeto. A proposta é chamar atenção para os estilos fotografados por Ojeikere, e, ao mesmo tempo, registrar as mudanças de estilo que aconteceram. 

O que mudou desde a época de Ojeikere? Acho que a maior mudança é a quebra da regra de que cada penteado deve ser usado em uma situação específica, e também a adição das cores. No passado, cada tipo de cabelo era de uma tribo diferente, alguns para mulheres casadas, outros para a realeza.  Apesar de ainda existirem tradições ligadas ao cabelo, como em casamentos, por exemplo, a maioria dos penteados atuais obedece a outros critério, como estilo pessoal, globalização e cultura pop. 

Seu trabalho é de alguma forma ligado ao movimento afrofuturista? Ele é político ?Eu me inspiro no afrofuturismo e no afrocentrismo. No mundo atual, considero impossível fotografar cabelos afros e não ser um trabalho político. A cultura visual mundial ainda é muito desproporcional quando comparamos a representação de corpos brancos e negros. Imagens tem um papel importante na construção de percepções. Espero estar fazendo minha parte para balancear melhor esses conceitos. Quero fazer parte da construção de diálogos que compartilhem narrativas positivas sobre a Nigéria.

Créditos

Imagem principal: Medina 
Dugger/Divulgação

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