Laura Carvalho explica o Brasil do boom ao caos

A economista tem suas próprias ideias sobre a insana economia brasileira e as transformou em um livro de sucesso em um país que normalmente não se interessa nem por leitura nem por economia

por Nathalia Zaccaro em

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Laura Carvalho tinha 31 anos quando deixou o cargo de professora de economia na FGV, em São Paulo, e passou a dar aulas na Faculdade de Economia e Administração da USP. No mesmo ano, 2015, assumiu uma coluna semanal no jornal Folha de S.Paulo. "Tive espaço quando as pessoas passaram a viver a segunda maior crise da história do Brasil e a economia foi para o centro do debate". Circulando entre artistas e intelectuais, Laura sacou que muita gente potencialmente importante para as discussões econômicas estava sendo excluída.

"A gente se vicia no economês e começa a ter monopólio de uma narrativa. Pensei sobre a importância de me fazer acessível." Em maio, ela lançou Valsa brasileira, uma tese que investiga a economia brasileira do boom ao caos, ou seja, de 2006 para cá, e que ficou quatro semanas na lista dos livros brasileiros mais vendidos. Fernando Haddad e Gregório Duvivier assinam elogios na edição.

"Os primeiros capítulos são o passo à frente, quando a economia brasileira cresce com o consumo das famílias. O passo ao lado vem com a desaceleração e a adoção do que eu chamo de Agenda FIESP. Depois, em 2015, vem o passo atrás e a segunda maior recessão da história", resume, explicando a metáfora do título.

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Laura levou um papo reto com a Tpm sobre crise, eleições e, claro, economia. Sem mistério, sem economês. Se liga:

Tpm. Você se surpreendeu quando o livro começou a figurar entre os mais vendidos?

Laura Carvalho. Muito. Quando resolvi publicar, achava que não ia vender muito de imediato, mas que talvez no futuro, quando quisessem entender a crise, fossem buscar interpretações desse momento. E eu queria registrar a minha. Eu tinha a sensação de que as pessoas não estariam abertas para um balanço crítico agora.

Tem uma teoria sobre o motivo do sucesso? Acho que todos estão concluindo que as soluções implementadas pelo atual governo não estão gerando os resultados prometidos. É a recuperação mais lenta da história das crises. Mercado de trabalho com muitos problemas, debate eleitoral que se aproxima... Eu achava que isso ia prejudicar as vendas, mas talvez tenha ajudado. As pessoas estão buscando entender a economia para saber o que fazer nesse momento complicado da democracia.

Você circula muito entre artistas e gente distante do universo dos números. Isso impactou o livro de alguma maneira? O fato de eu não andar só entre economistas me ajudou muito a perceber o quanto nós, economistas, bloqueamos informações. Usamos uma linguagem que exclui pessoas que potencialmente poderiam ser importantes para o debate econômico do país. Todos deveriam participar, dado que esse debate afeta todo mundo. A convivência com gente de fora da economia não só me trouxe insights, mas também me ajudou a pensar como me comunicar. É impressionante como a gente se vicia no economês.

Você percebe que seus leitores, em geral, são pessoas não muito habituadas ao tema? Muita gente não sabia bem o que estava acontecendo no país, mas não estava gostando da narrativa política dos acontecimentos. Tive um papel pedagógico de tornar o tema acessível e trazer essas pessoas para o debate. Não tenho pretensão de impor uma ideia, não gosto do papel do economista que vem trazer a verdade absoluta, até porque economia está longe de ser uma ciência exata. Quando você se torna acessível, passa a ter que debater e ouvir o que as pessoas têm a dizer. Tentei, ao contar a história do livro, introduzir conceitos e visões de economia para um público amplo. Passei a me dedicar muito a essa ideia: ensinar economia para quem não lê essa parte do jornal. Isso me desafia e dá prazer.  Agora, depois desse sucesso, estou até pensando em escrever alguma coisa ainda mais introdutória.

O sucesso é surpreendente exatamente porque o livro não é um guia básico, exige noções do assunto. De onde partiu essa ideia? Pesquisando e conversando com outros economistas, cheguei ao diagnóstico que apresento em Valsa Brasileira e que trata do período entre 2006 e 2017. Na prática, a ideia foi responder a uma pergunta que surgiu muito nos debates, tanto aqui quanto fora do país: como o Brasil saiu de um período esperançoso para essa crise profunda? As pessoas ficaram atônitas com isso e as explicações eram simplistas.  Pensando na metáfora da valsa, os três primeiros capítulos são o passo a frente, o período entre 2006 e 2010, quando a economia cresce acima da média. Cresce o consumo interno das famílias em um processo com alguma redistribuição da renda na base, ainda que limitado. Depois, vem o passo ao lado, que é o primeiro governo da Dilma. Não é crise, mas é desaceleração. Houve um erro grave de diagnóstico sobre o que era necessário fazer e a política econômica muda na direção errada, atendendo ao que chamo de Agenda FIESP. E depois de 2015 começa o ajuste fiscal e outros elementos que causam a segunda maior recessão da história brasileira, é o passo atrás. A tese de que basta cortar gastos públicos para que a economia volte a melhorar não deu certo.

"A gente se vicia no economês e começa a ter monopólio de uma narrativa. Pensei sobre a importância de me fazer acessível." - Crédito: Felipe Felizardo/Divulgação

Você acredita que essa crise econômica tem impacto político? A democracia acabou se enfraquecendo e se proliferam alternativas retrógradas e autoritárias para pessoas desesperadas, descrentes. Quando a crise atinge tanto uma parte tão grande da população, as pessoas passam a rejeitar o sistema político em vigor e acabam acreditando em falsas soluções. Elas estão desesperadas para que o sistema mude. E isso é um risco enorme para a democracia.

Pretende se envolver mais diretamente com a política? Já recebi propostas de diferentes partidos, todo mundo está buscando candidatos. Mas eu confesso que gosto de fazer exatamente o que eu faço, promover o debate e poder criticar quem for, no momento que for. Não tenho desejo de me candidatar, ainda mais com esse sistema político atual, não acho que seja meu papel. Quero colaborar como for possível para levar a política para onde acho que a sociedade deveria querer levar.

Quando você descreve o período do boom na economia brasileira, fala bastante sobre a importância do consumo interno. Acha que a solução para a crise passa por aí? Quando as pessoas pensam em consumo, às vezes pensam em consumismo, como se o crescimento do consumo se refletisse no que é supérfluo. Isso ignora a realidade do Brasil, a miséria de milhões de pessoas excluídas do mercado consumidor e que têm um padrão de vida muito mais baixo do que seria digno. Quando essas pessoas não estão gastando todo o dinheiro que ganham para se alimentar, tendem a consumir mais coisas. Um cabeleireiro, cultura, restaurante, serviços. Bens essenciais para que passem do nível da pobreza. São eletrodomésticos básicos, geladeiras, celulares. As pessoas olham para esse período de redistribuição de renda na base [durante o governo Lula], que teve muito esse consumo, e acham que isso é condenável. Eu acho que isso é parte sim do que a economia brasileira precisa para ser retomada, o que não não significa que eu defenda o modelo de capitalismo mundial, que fica incentivando a troca de bens tecnológicos. São coisas diferentes.

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Imagem principal: Felipe Felizardo/Divulgação

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