De rosto indonésio e sobrenome holandês, a americana trancou a faculdade na Califórnia para descobrir a potência de viajar. Acabou descobrindo a si mesma

Danielle está deitada em uma rede, no sul da Colômbia, sentindo os primeiros efeitos da aya­huasca: de olhos fechados, percebe vibrações no ambiente e cores em sua retina. É dia: embora os rituais com o chá amazônico sejam normalmente à noite, os xamãs de Putumayo preferem a luz do sol. Ao redor, apenas a floresta, se estendendo em todas as direções.

Quando Danielle decidiu, em agosto do ano passado, trancar a faculdade por um ano para viajar, não tinha ideia de que iria acabar conhecendo a Amazônia. Na verdade, tinha bem poucas ideias sobre o roteiro, que começou em Bali. "Fui conhecendo pessoas, seguindo o fluxo e apenas me divertindo", conta a californiana de 21 anos. "Eu adoro encontrar culturas diferentes e ver o mundo, e sou muito boa nisso." Os amigos que a levaram para a aventura colombiana, por exemplo, ela conheceu dias antes, em Tulum, no México.

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A causa inicial da viagem é mundana: o divórcio dos pais e a vontade de se afastar por um tempo de um mundo familiar recém-dividido. O significado de sair por aí conhecendo o mundo sem muita direção, porém, foi ganhando novos contornos: Danielle fala em wanderlust – palavra de origem alemã que descreve um forte desejo de viajar – e no poder de aprendizado que ceder a esse desejo tem. "O conhecimento que você consegue viajando é deslumbrante em comparação com qualquer conhecimento institucional", diz.

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Na California State University de Long Beach, Danielle começou estudando comunicação, mas logo mudou o curso para antropologia, depois de assistir a uma aula de antropologia cultural que "mudou" sua vida. "Era basicamente sobre deixar suas crenças de lado para entender melhor outras culturas", ela lembra. "Antropologia é sobre culturas e pessoas – e isso é exatamente o que você quer conhecer quando está viajando. Acredito que vou encontrar meu trabalho ou algo assim viajando pelo mundo, conhecendo pessoas."

Para chegar até os xamãs colombianos, Danielle voou para um "aeroporto muito minúsculo" em uma "cidade muito pequena" e dessa cidade muito pequena foi de caminhão, com outras nove pessoas, para uma vila, de onde caminhou 2 horas para dentro da selva. "Só de estar tão completamente longe da civilização já foi uma experiência incrível."

Tanto o rosto indonésio quanto o sobrenome de Danielle, Fisser, vêm do mesmo lugar: seu pai, Jeff, nasceu na Holanda, de uma mãe indonésia, e veio para os Estados Unidos ainda bebê. A mãe, Lori, é da Califórnia.

Crescendo em Huntington Beach, uma praia um pouco ao sul de Los Angeles, Danielle teve uma infância básica de California GirI. Jeff é surfista e levava a família (Danielle tem uma irmã mais nova) para road trips de motorhome pela costa oeste norte-americana e pelo México ("quando era mais seguro"). "Era um lifestyle total praiano. Essas experiências na infância com certeza fizeram quem eu sou hoje: superaventureira, corajosa e divertida."

A primeira vez que Danielle saiu dos Estados Unidos sozinha e colocou essas qualidades à prova foi em 2014. Prestes a começar a faculdade, ela foi convidada para um trabalho de modelo de uma semana na Tailândia. A decisão não foi exatamente fácil: a tal semana era exatamente a primeira semana de aula, quando os estudantes seriam apresentados aos colegas, aos dormitórios, aos professores. Mesmo assim, Danielle decidiu ir.

Ainda sem abrir os olhos, Danielle sente uma sombra em torno do corpo. É então que ela vomita. Isso é comum – no contexto dos rituais de ayahuasca, a reação pode simbolizar limpeza, do corpo e do espírito. No meio da selva colombiana, faz nossa aventureira de apenas 21 anos finalmente olhar o mundo. Quando enxerga, como que com uma lupa, detalhes minúsculos e eternos nas plantas ao seu redor, sua reação é outra: "Uou".

"Para mim, tempo é dinheiro. Eu preciso de dias livres para trabalhar como modelo. Mas amo a universidade. Quero estar na sala de aula, só que você tem que estar lá todos os dias. Estou sempre motivada, mas então me oferecem trabalhos. É difícil", ela diz. "Acho que vou voltar e terminar a faculdade. Mas não quero isso de verdade: porque eu sou tão jovem e deveria aproveitar isso. A vida é totalmente sobre experiências."

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Danielle continua trabalhando como modelo durante sua viagem sabática. Em Bali, fez contato com uma agência antes mesmo de chegar. Na ilha indonésia (foi a primeira vez que ela esteve na terra natal de sua família paterna), conheceu alguns brasileiros e, depois de uma breve passagem pela Califórnia, veio para cá. Não procurou agências de modelos porque pensou que estaria no país por pouco tempo. Acabou ficando três semanas em Florianópolis e mais um mês no Rio de Janeiro, onde comemorou seu aniversário.

Logo conseguiu trabalhos como modelo e, em um deles, foi convidada pela fotógrafa para fazer este ensaio. "Estou sempre de topless, sou sempre muito livre. Adoro correr por aí sem sutiã. E nós já estávamos fotografando no meio da mata, eu estava correndo praticamente pelada", lembra Danielle. "Me sinto mais confortável pelada na mata."

Danielle levanta da rede e decide andar um pouco. Vai até um córrego e repara em uma borboleta que voa por ali. Ela segue a borboleta por um tempo – o tempo exato é abstrato nessas horas – e uma jornada se completa em seu espírito. "Foi mágico. Eu sempre me imaginei crescendo como uma borboleta. Quando era adolescente, fiz uma cirurgia nas costas, para escoliose, colocaram duas hastes e parafusos na minha espinha. Isso foi uma coisa muito boa para mim, porque eu fui capaz de crescer e me transformar em algo muito bonito."

 

Créditos

Imagem principal: Nina Keller

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