por Alexandra Dinter

Num estúdio no centro de Copenhague, as tatuagens são feitas à mão com uso de ferramentas e técnicas pré-históricas 

A agulha especial afunda de forma ritmada na pele. A mão do artista conduz o bastão de madeira com leveza e precisão aparentemente sem esforço, fruto de anos de prática. Cada pontada deixa um único ponto preto brilhante. Assim nasce, de maneira bem devagar, um desenho entrelaçado. Simples na sua forma, mas feito de forma artística, com significado e tradição antigos. Ele se assemelha com a forma de tecer das tapeçarias. A uniformidade da monótona movimentação do trabalho se harmoniza com o barulho silencioso no fundo. Tambores e sinos, brilhantes melodias entrelaçadas. Lá em baixo se mesclam os sussurros de inúmeras vozes.

O tatuador barbudo limpa a figura inacabada para tirar o excesso de cor e a secreção da ferida. Seus olhos estão concentrados na obra. Ele vibra junto com seus músculos do braço pelo trabalho contínuo de fundir a tatuagem na pele. Suas roupas são caracterizadas por grossas costuras, tecelagem manual e couro. Suas joias pesadas, seus piercings no septo e colares brilham na luz, iluminando o extenso recinto cheio de tubos de neon. As luzes brilhantes das salas de exposição não são os únicos utensílios que interferem no charme arcaico da cena. Ali estão também luvas descartáveis, vaselina, folha e fita adesiva.

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À primeira vista, Kai Uwe Faust parece como se tivesse vindo de uma outra era: um guerreiro nórdico, xamã e mestre artesão. Ao mesmo tempo em que exibe habilidades e sabedorias tradicionais, ele é um cosmopolita contemporâneo, que faz suas viagens de avião. Nascido na Dinamarca, o gigante de olhar amigável dirige um estúdio de tatuagem bem no centro de Copenhague. O Kunsten På Kroppen – que, em português, significa arte corporal - é conhecido internacionalmente pela implementação de temas históricos e étnicos do mundo todo, principalmente no estilo típico nórdico, e pelas tatuagens feitas à mão com ferramentas e técnicas pré-históricas.

Handpoking

Kai Uwe Faust – também conhecido como Dr. Faustus – dá continuidade ao legado do norueguês Erik Reimes. Ele é o fundador do estúdio, um ícone no ramo, e estabeleceu há quase 30 anos esta tendência que até hoje é seguida pela galera. No estúdio trabalham atualmente quatro artistas: a talentosa novata Violeta Bendis; Patricia Campos, com um estilo feminino e habilidade especial em se certificar de que a perfuração seja quase indolor; Uffe Berenth, famoso pelos desenhos de animais imponentes e máscaras no estilo celta-nórdico; e, claro, o novo proprietário Faust, que amplia sua equipe com cautela. "Existem pessoas excelentes que exercem o ofício no mais alto nível. Pessoas que, como eu, sentem necessidade de contribuir com a arte da tatuagem e se realizam por meio dela", diz.

Faust veio para o Norte a convite de Reimes. Desde 2001 ele foi formado por Astrid Köpfler como tatuador, nos verões viajou para os mercados vikings escandinavos e lá aprendeu a tatuagem tradicional feita à mão e trabalhou o resto do ano no Studio Living Art Tattoo" em Hesse, na Alemanha. Ele chegou em 2008 como tatuador convidado e ficou. Quando as pessoas perguntam por que ele se especializou em um método de trabalho específico, com gravação manual, também chamada de "handpoking", ele descreve o encanto em mexer com equipamentos históricos, como agulha, pederneira, espinho, chifre e osso. "O trabalho manual é acima de tudo meditativo. É preciso atenção e paciência acima da média para entregar uma obra de alta qualidade. Nós trabalhamos com antiguidades genuínas, mas também com réplicas, e sempre com agulhas novas e modernas", diz Fauss, que destaca a importância da higiene no trabalho.Ele destaca que, do ponto de vista do cliente, é preciso pensar bem no motivo e na posição que será feita a tatuagem. "Para mim, uma boa tatuagem se encaixa perfeitamente na anatomia e é criada para que se funda com a pessoa e com o envelhecimento dela", acredita Faust, que descreve um problema que pode surgir quando as tatuagens são feitas por modismo: "a tatuagem simplesmente vai permanecer onde ela está, mesmo quando ela é datada, por exemplo, com um estilo anos 90. Então: 'Think before you ink!'". 

Tatoo sagrada

A inspiração para fazer tatuagens artesanais na realidade é muito antiga: a partir da Idade da Pedra e da Idade do Bronze, no norte da Europa, e a partir de diversas culturas ao redor do mundo. O conhecimento para isso nasce em grande parte da biblioteca do estúdio. "Erik, como um bom bibliotecário, nos deixou sua magnífica coleção de livros sobre arte e tatuagem. Um estudante nos elogiou recentemente, falando que temos mais livros sobre arte japonesa do que a Biblioteca Nacional." Outras informações são obtidas pela internet, por descobertas científicas e por achados em viagens.

Ao mesmo tempo, aprende-se não apenas habilidades artesanais, mas também uma conscientização do sentido e do significado da "tatuagem sagrada". Ao ser questionado sobre sua posição religiosa, Dr. Faustus se diverte e explica sua opinião sobre o animismo: "É a única coisa que faz sentido para mim. Diferentes disciplinas científicas trabalham para compreender os princípios do animismo, e em achar uma forma compreensível de explicá-lo para o Ocidente. Para mim, não é uma questão de fé, mas algo que eu experimento diariamente, é parte natural da vida."

Junto com seu trabalho original como artista tatuador, ele é um arqueólogo experimental e blogger, e também cantor na banda Heilung. Uma tatuagem para ele não é só uma tatuagem. "Espiritualidade para mim faz parte do meu cotidiano e assim flui o canto na rua que eu gravo, na história que eu conto. Eu canto na floresta, nos lugares sagrados e para as crianças dormirem."

Clientela militar

Existem opiniões controversas sobre os custos elevados das tatuagens. Por isso, em 2016, o estúdio criou o #militarydiscount, desconto de 15% para familiares de militares. Por uma simples razão: "Soldados são os nossos melhores clientes, o processo ocorre sempre sem complicações. São pessoas fortes, que nos dão liberdade, não entram em pânico e são pontuais por natureza". A tatuagem sempre esteve na casa e na pele daqueles que lutam. O mais velho tatuador europeu, Ötzi, morreu de forma violenta", explica o tatuador.

É preciso aceitar que as tatuagens se transformam com o tempo. Juventude e perfeição são ideais na humanidade. Mas nós envelhecemos, todos nós estamos em processo de decadência. Por isso, Faust dá o seguinte conselho aos clientes: "A tatuagem vai envelhecer com você de forma irreversível. Ela fica desbotada e desfocada. O preto vira azul e, depois de algumas décadas, verde. O vermelho vira marrom e o amarelo desaparece completamente. Crie sua tatuagem e leve em conta o processo de envelhecimento. Refazer a tatuagem nem sempre é a melhor solução. Aceite sua idade." Outras dicas podem ser encontradas no FAQ ndo site do Kunsten På Kroppen. Aviso de antemão: sim, dói.

Créditos

Foto principal: Reprodução

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