por Simon Plesteinjack
Trip #188

Um grupo de eslovenos descobriu 2 praias na Croácia onde é quase impossível surfar - quase

As ondas no Mar Adriático, na Croácia, são raras, O clima é congelante, O mar está coalhado de pedras afiadas. Mas é para lá que snowboarders eslovenos rumam nas madrugadas de inverno pelo mero prazer de surfar em um lugar que ninguém imaginava que poderia ser surfado

Imagine que você está nos Alpes europeus, onde metros de neve cobrem a terra por meses durante o inverno. Não vou gastar seu tempo com uma descrição da paisagem, porque eu quero falar sobre o litoral. De qualquer forma, você provavelmente tem uma imagem idealizada na sua cabeça. É por aí mesmo. Mas acrescente algo que a maioria das pessoas que nunca esteve lá esquece de levar em conta: a temperatura pode ser de até 15 graus negativos em dezembro. E foi em dezembro do ano passado que alguns caras fazendo snowboard nos Alpes da Eslovênia começaram a fazer planos de ir ao litoral na manhã seguinte... para surfar.

“Nós vamos partir às 4 da madrugada, levem comida e a ‘dila’ (prancha). E, pelo amor de Deus, não esqueçam de seus Long Johns. A coisa vai ser fria. Gremo furat valove! (vamos dropar umas ondas!)”, convocou Matevz Pristavec, conhecido como Dzukac, terceiro lugar no campeonato mundial de big jump de snowboard e um dos mais entusiasmados surfistas eslovenos. Nós deixamos Liubliana, a capital do país, numa madrugada úmida e gelada. Nós não íamos em direção à costa da Eslovênia, de apenas 40 quilômetros, e sim para a da Croácia, com 1 mil quilômetros.

O país é um dos melhores lugares para esportes a vela do mundo, mas sempre se disse que não há ondas surfáveis ali. Isso não é uma surpresa, já que o Adriático é aquela parte do Mediterrâneo que entra mais fundo na Europa Central, entre a Itália e a Croácia. É um mar completamente fechado, quase impenetrável aos swells. O vento local é o único responsável pela formação de ondas. Mas não qualquer vento. Tem que ser o Jugo, o vento sul. O fato de o Jugo formar longas ondas no mar aberto sempre foi conhecido por pescadores locais. Mas eles nunca ouviram falar de surf no país, por isso nunca passou por suas cabeças que essas ondas poderiam estar quebrando em alguma praia por ali.

 

O mar está coalhado de pedras afiadas. É arriscado ficar muito tempo na onda, você pode sair com a prancha quebrada ou um joelho cortado

Alguns anos atrás, alguns eslovenos, que viajaram o mundo e aprenderam a surfar em outros mares, começaram a pensar no assunto. Com a ajuda do Google Earth, mapas náuticos, previsões climáticas na internet e tempo para circular, eles descobriram alguns lugares raros onde aparecem ondas surfáveis em condições igualmente raras. Encontraram dois beach breaks decentes e outros mais fracos. Nos dias de Jugo, Medulin e Barbariga tornaram-se pontos de encontro de surfistas eslovenos. Às vezes, até 50 deles se juntam ali, número significativo para um país de 2 milhões de habitantes.

O mar está coalhado de pedras afiadas. É arriscado ficar muito tempo na onda, você pode sair com a prancha quebrada ou um joelho cortado. As ondas aparecem irregularmente e em geral não passam de um metro – mas às vezes chegam a dois em condições especiais. Como as ondas vêm junto com o vento, os dias são frios e chuvosos. As garotas que acompanham os surfistas congelam mesmo escondidas nas vans. Poucas caem no mar. As que se arriscam a ver a competição da praia estão todas com suas “bundas” (nome esloveno para a jaqueta de esqui à prova de água e vento). Até na Croácia surf e bundas andam juntos...

ONDAS INCERTAS
Neste ano, a Croácia sediou o terceiro campeonato nacional de surf da Eslovênia, em meio a uma competição aberta a estrangeiros chamada Jugo Majstr (vencida em 2008 pelo baiano Fernando Eloy). 2010 foi bom para o surf no Adriático, já que o Jugo soprou com frequência. Pegamos ondas antes do início da campeonato, em um dos melhores swells da história de Medulin.

Como não há shapers na Eslovênia, todos os surfistas têm pranchas compradas em outros países. Alguns aprenderam surf nas férias em Portugal, Espanha, França, Bali... A minha prancha é brasileira, uma 6’3’’ feita pelo shaper Augusto Motta. Eu aprendi a surfar na praia do Tombo, no Guarujá. Era meu primeiro mês no Brasil e eu não falava uma palavra em português. Enquanto tentava ficar em pé na prancha pela primeira vez, procurava entender o que queria dizer o “e aí?” que os locais me diziam o tempo todo. Foi aí que eu percebi que seria melhor aprender os dois, português e surf, praticando o máximo que podia.

Muitos dos personagens desta história descobriram a mesma coisa em diferentes lugares do mundo. Para atender o desejo de surfar perto de casa, eles precisam de muita atitude. De onde vem esse desejo? Tem a ver com o parentesco do surf com o snowboard, nosso “esporte nativo”. Mas, sobretudo, com o fato de que na Europa nós viajamos muito, e cedo ou tarde nos encontramos andando descalços na areia de uma praia – algo que muda a vida de qualquer pessoa no mundo.

Não é uma questão de grandes ondas, mas de surfar em um lugar que ninguém imaginava que poderia ser surfado. A maioria dos surfistas eslovenos passou sua infância viajando para o litoral da Croácia nas férias de verão. Nós temos as mesmas memórias de clima suave, peixe grelhado, o cheiro dos pinheiros, pele salgada e águas transparentes. Mas o surf nunca foi parte dessa memória coletiva. Por isso surfar nessas ondas incertas é tão emocionante – é algo universal que trouxemos para essas terras. É algo que vamos contar aos nossos filhos. É a clássica história de começar algo novo, e isso não acontece online.

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