por Marcos Candido

Rincon Sapiência, um dos artistas mais comentados do rap nacional, fala de "Galanga Livre", em que mescla a África ao funk em um enredo épico de afirmação negra

Rincon Sapiência, também conhecido como Manicongo, é um rapper da zona leste de São Paulo de quem você já deve ter ouvido falar. Na estrada há quase 17 anos, Danilo Albert Ambrosio lançou o álbum Galanga Livre no fim de maio. Com faixas publicadas no YouTube desde o segundo semestre de 2016, não tardou para que a obra completa se tornasse uma das mais elogiadas e comentadas do rap nacional.

No disco, Rincon conta a história de Galanga, negro escravizado que foge depois de matar um senhor engenho. Ele é perseguido, mas em sua fuga desfruta do ouro, do amor e do orgulho da própria cor, elementos fundamentais de sua existência que foram tomados pela escravidão. Há um subtom de Django Livre, filme de Quentin Tarantino, lançado em 2012. Mas, diferentemente de Tarantino, Galanga Livre não faz retrato histórico. O herói sonha em fugir da senzala e se vestir em um Herchcovitch. "Foi uma forma de falar sobre o passado e presente que envolvem os pretos e pretas contemporâneas", explica.

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Abdicando a seu modo da cada vez menos inevitável influência do rap vindo dos Estados Unidos, adicionou elementos da cultura africana nos versos e usou instrumentos africanos para musicar o que chama de "afrorap".

À Trip, Rincon fala sobre como uma viagem à África o lançou nesse enredo épico, comenta sobre espiritualidade, vegetarianismo, política e explica o que raios é o "afrorap".

Galanga Livre é apontado por muita gente como um dos álbuns especiais lançados em tempos recentes, mas você já está na cena há 17 anos. A que você atribui isso? Diria que tive mais tempo para produzir, uma direção musical melhor e conquistei mais maturidade para produzir e escrever. Galanga é um álbum mais conceitual, que conta uma história de ponta a ponta, da capa à ordem e as letras de cada música.

E que história você quis contar? Nas primeira faixas, tipo em Crime Bárbaro, o personagem Galanga está em fuga, apreensivo por ter matado o dono de engenho.

“Me considero espirituoso. Ser espirituoso não significa que eu seja um cara evoluído, ou zen. Ao contrário, faço parte dessa babilônia”
Rincon Sapiência

Na faixa Galanga Livre eu falo: "Eu não quero colher o algodão / mas eu quero vestir coleção Herchcovitch / O perfume flutua no ar, parece que bateu, já me deu apetite / Poderoso que nem Faraó e uma nega lindona tipo Nefertiti". É um jeito de ilustrar o preto contemporâneo por meio do banquete, da nobreza que ele almeja. E também mostra como ele luta para ocupar espaços, se vestir e comer bem.

Seu verso tem uma velocidade moderada, um pouco diferente do flow mais rápido que ganhou um certo status no rap. Eu acredito muito no ritmo. O verso de Galanga Livre em que eu falo "Andar, andar / Minha vida ninguém pode mandar / Procurando pela paz de Aruanda / Eu não vou bater panela na varanda..." Tem um ritmo moderado, que não sai atropelando tudo. Minha lógica é acompanhar o instrumental, utilizo a voz só como complemento. Às vezes há um exagero de velocidade que, pô, plasticamente pode soar até foda, com geral dizendo "nossa, o cara nem respirou". No fim, ninguém entendeu praticamente nada que ele disse. Para mim, pessoalmente, não é vantagem. 

É que papo é esse de "afrorap"? É uma música em que a percussão é a estrutura. E a percussão acaba sendo, naturalmente, afro. O afro passa pela ciranda, pelas baterias de carnaval, o berimbau. São elementos que a princípio são descolados do rap, ligado mais ao [estilo do] rap norte-americano. Eu colo no rap justamente para trazer no consciente das pessoas [a ideia] de que tudo isso que a gente está fazendo agora faz parte dessa diáspora da gente preta.

É por isso que a ancestralidade foi parar em suas letras? Foi uma busca natural. Eu, como preto brasileiro, não consigo falar qual a minha ascendência exata, diferentemente de italianos e dos orientais. Não sei ao certo se vim dos iorubá, dos congoleses ou sou nagô. Suspeito que, como meus pais vieram de uma região mineira onde viveram muitos escravos congoleses no passado, eu tenha antepassados do Congo. Nossas raízes não são contadas na escola, nos livros, na dramaturgia. Só se fala da escravidão, mas não de que também fomos reis e rainhas. De que o preto dominava a astronomia, era dono do ouro e do conhecimento. Recuperar nossa história também traz à tona nossa liberdade.

Aconteceu algo específico que te levou a homenagear esse passado? Viajei ao Senegal e à Mauritânia em 2013. Lá no continente africano - que é uma longa distância de avião - , percebi a proximidade do brasileiro com o africano. Como aqui em São Paulo, Dakar [capital do Senegal] é cheio de manifestações parecidas com as nossas rodas de samba, que em essência são manifestações afro. Tem o som do tambor que invoca espiritualidade, mas também serve para divertir, entreter. É um povo miscigenado como o nosso. Religiosamente falando, tiveram influência árabe, especialmente do islamismo, que também tem certa mistura de africanidade por lá.

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O que mais te comoveu nessa viagem? Meu espírito foi tocado quando fui para a ilha de Goreia, no oceano Atlântico, litoral de Senegal. Lá passavam escravos que, mesmo não capturados no próprio Senegal, faziam uma parada antes de irem ao Caribe, Brasil ou Estados Unidos. Goreia tem um forte militar, estaleiro, enfim, toda a estrutura colonial, e assim conheci os cômodos onde ficavam os escravos. Ao entrar no primeiro cômodo, uma energia muito forte me tocou. Comecei a chorar. E descobri que não fui o único.

Você tem alguma espiritualidade? Me considero espirituoso. Ser espirituoso não significa que eu seja um cara evoluído, ou zen. Ao contrário, faço parte dessa babilônia onde existem altos e baixos na vida. Não descolo o social, a vida bruta e física, do espiritual. Acho que um completa o outro.

Se tornar vegetariano foi uma mescla desses dois jeitos de enxergar o universo? Me tornei vegetariano pela parte espiritual, sob influência da cultura rasta e hare krishna. Ao mesmo tempo, conheci as mazelas sociais do consumo de carne - do monopólio de grandes latifundiários, da invasão de terra e do grande desperdício de água para a produção de carne. A falta d'água recente que tivemos em São Paulo tem muito a ver com a agropecuária. Também há a qualidade da carne, como os hormônios, que acredito que prejudicam a nossa saúde e tudo mais. É uma indústria nociva. Não sou um cara extremamente Bela Gil na minha dieta, mas levo esses fatores em consideração para me manter vegetariano.

E é difícil ser vegetariano na periferia? É difícil. Temos pouco acesso a lugares para comer. O próprio conceito do vegetarianismo - que é mentira - apresenta um mercado zen, light. No final, se cobra mais caro por ter esse glamour. Se você come coxinha, que é massa com frango, você paga por uma carne que é mais cara do que um legume. Uma massa com recheio de abóbora, que é baratinho no mercado, sai muito mais caro. Ser vegetariano assusta a periferia. Esse mercado precisa reavaliar seus valores também. Tento equilibrar a vida de uma maneira mais doméstica, comendo as coisas que eu mesmo preparo. Eu evito ao máximo comer fora de casa. Quando saio, acabo comendo falafel e grão de bico na [Rua] Augusta.

Você fala bastante sobre a autoestima do negro. O que você realmente quer dizer? A autoestima dos pretos e das pretas melhorou muito. Da Beyoncé ao mais underground, houve um verdadeiro resgate étnico. Na moda, o turbante retornou como uma identidade e por aí vai. 

“A autoestima dos pretos e das pretas melhorou muito. Da Beyoncé ao mais underground”
Rincon Sapiência

A denúncia direta de casos de racismo tem que existir, mas o racismo também está muito conectado à história, no padrão de beleza eurocêntrico, de traços delicados e narizes finos e cabelos lisos. Se você fala à mulher preta que seu cabelo preto e seus lábios grossos são bonitos, também funciona como um combate ao racismo. Por vezes, funciona até mais do que colocar o dedo na ferida de um racista, sabe? A busca da autoestima é um trabalho mais amplo de combate ao racismo.

Criolo e Mano Brown disseram que estão ou revendo letras antigas, ou tomando cuidado para não reproduzir machismo em letras. Você toma esses cuidados? O cuidado é contínuo. Um homem pode até imaginar que é altamente desconstruído, mas em algum momento dispara um alerta vindo de alguma mulher que você fez algo ofensivo. Como sempre falei da questão racial, percebi que nunca havia falado sobre gênero, especialmente ligado à raça. O mundo é machista, e há uma diferença entre o preto e a preta. Quando somos ofendidos, até as ofensas são diferentes em relação a gênero. Foi esse ponto que me tocou. Em Moça Namoradeira há um discurso pela liberdade da mulher. Para mim, como homem hétero, é muito mais confortável falar sobre isso do que uma mulher, mas acho que consegui ter uma sensibilidade necessária para não repassar um discurso degradante à mulher.

Há uma música chamada "Ostentação à Pobreza". O que é pobreza para você? É a ausência de valores básicos. Houve uma crescente das classes menos favorecidas nos últimos anos, e eu mesmo sou um reflexo dessa melhora. Meu filho já tem condições melhores de estudar e se vestir do que eu tive. Mas não é porque houve essa crescente dos mais pobres que a pobreza tenha morrido. Existem territórios indígenas sendo invadidos, latifundiários tomando quilombos e escolas de ensino precário que ficam há uma hora do aluno.

E essa ascendência social foi fruto de quê? Uma parte veio da ação dos últimos governos federais, que cabem várias críticas e vários pontos negativos, mas que se propuseram a ampliar acesso à educação superior. Não se tinha tantos pretos e periféricos nas universidades como temos hoje. Com estudo, há um norte para a vida. Já conheci muito jovem da periferia dizendo que ouviu minhas músicas na aula. Uma vez perguntei onde um deles estudava e ele me disse: sou professor. Há jovens que estão se formando com uma boa consciência sobre a realidade urbana e o papel do rap. São essas coisas que mudam o caráter do cidadão e isso resulta nessas melhorias sociais. Mas ainda tem muito a se conquistar, claro.

A busca pelo orgulho negro derivou dessa ascensão? O reforço da identidade negra não tem intervenção direta de governos. Tem a ver com a autonomia da periferia organizada, que coloca na rua o sound system, o fluxo de funk, saraus e encontros de coletivos negros. Essa semana mesmo fui na ocupação da Secretaria Municipal de Cultura após o episódio com o secretário de cultura [durante reunião com coletivos culturais da zona leste de São Paulo, André Sturm falou que iria "quebrar a cara" de um dos agentes culturais]. Se as iniciativas culturais fossem mais apoiadas pelo governo, o benefício seria ainda maior. Mas a periferia tá de parabéns em sua articulação.

Você tem algum posicionamento político à esquerda ou à direita? Na verdade, não sou muito crente nas polarizações, mas, se for usar um desses termos populares, eu estaria ali no lado esquerdo. Quando digo que "Bolsonaro não é tipo raro" é porque muitas pessoas acreditam na máxima do "bandido bom é bandido morto", são racistas, homofóbicas e por aí vai. O pior é que as pessoas que possuem esses valores são pessoas influentes, por vezes políticos, gestores de escolas, enfim, uma parte superior da pirâmide. É um fato infeliz. O tempo vai passando e o pensamento antigo ainda se perpetua porque nossa sociedade não é tão democrática. O "militarzão" tem um filho que se torna militarzão sob os mesmos valores, e o filho do filho também... E isso não dialoga com a realidade que o povo brasileiro vive - esse povo misto e com diversas orientações sexuais, diversas religiões... Quem chega lá em cima não tem muito essa sensibilidade em enxergar.

E como a periferia reage a esses discursos? Há na periferia quem teve uma formação cultural muito boa, mas há também quem ainda não tenha chegado a um ponto mais rico, culturalmente falando. A fonte de informação de muitas pessoas ainda são os discursos do Bolsonaro, ou o que a Veja escreve e a grande mídia noticia. Infelizmente, tem periféricos que reproduzem esse pensamento, mesmo nas periferias, mesmo sendo vítimas. É muito louco isso. Há um equilíbrio entre a parte engajada e os que, por falta de boas informações e boas rodas de conversa, acabam interpretando o errado como o certo.

Isso ainda é fruto de desigualdade? Parte é. Quando há um mínimo de ascensão econômica, há muitos que passam a reproduzir uma mentalidade elitista. Mesmo não sendo elite. Isso é um mal que ronda as periferias, mas que, no final das contas, são só más influências que correm por grandes mídias. E parte vem da desigualdade em que vivemos.

Você diria que está no auge? O auge ainda não é, eu diria. Mas tenho recursos que nunca tive. Há no disco músicas com contação de histórias, punchlines seguidos por várias batidas por minuto. Há canções sampleadas e outras em que fiz todos os arranjos. Vivo um momento artístico em que tenho usado bem esses recursos, onde aprendi a produzir, por vezes sozinho. Acho que consegui contar histórias sérias, divertidas. Vi os valores da galera do trap e do funk, tomando sua catuaba enquanto se mantém inteligente e engajada. E acho que consegui me conectar com essa galera usando o rap. A juventude preta está com orgulho do cabelo armado, tem o rap cada vez menos homofóbico e mais diverso do que nunca. Acho que estou em um bom momento.

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Créditos

Imagem principal: Renato Stockler / Divulgação

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