por Ricardo Guimarães
Trip #264

O controle sobre os outros nos faz semideuses com a ilusão de que podemos tudo. Na sociedade em rede, porém, o poder virá do controle e da consciência sobre si mesmo

Caro Paulo,

“‘Fomos pegos pelados no meio da rua’, diz presidente da Andrade Gutierrez”, Folha de S.Paulo, 26/03/2017.

Guardei essa Folha porque tinha essa manchete que sintetiza de maneira deliciosa o espírito da época. Cada palavra é divertida e indispensável para expressar a surpresa com um mundo que acaba com o tipo de controle que dava segurança e poder a nós, homens.

Diz o entrevistado, Ricardo Sena: “Antigamente as coisas eram mais veladas, (...) o cara fazia uma coisa dessas e a Receita Federal levava cinco anos para descobrir. (...) Hoje é tudo on-line (...) E aí a coisa perde o controle”.

Controle é tudo na vida. É poder, força, potência. No controle reside nossa capacidade de interagir com o mundo, de fazer coisas, de surfar, de ir numa direção e não em outra. A vida natural é assim e sempre será; porém na cultura dos humanos o controle que dá poder de fazer o que bem entendemos está custando cada vez mais caro.

A evolução é darwiniana e bem simples, mas dificílima de aceitar: de controle sobre os outros para controle sobre nós mesmos. Quem não percebe logo a mudança é eliminado do cenário ou, no mínimo, é pego nu no meio da rua!

Mas que os fãs e réus da Lava Jato não se iludam. A mudança é muito maior do que a operação de Curitiba, como disse o meu xará da Andrade.

A Lava Jato não é causa. É consequência. Por trás dela está a sociedade em rede que com a sua horizontalidade subverte qualquer dinâmica de poder baseada na verticalidade da pirâmide hierárquica, onde os poucos que controlam muitos fazem o que bem entendem.

Repare na lambança que os governos verticais tipo Estados Unidos e Rússia estão fazendo na busca de controle da vida das pessoas. Eles mesmos são cada vez mais expostos em suas estratégias ingênuas e datadas para manter o poder. Veja que quem os expõe não são grandes organizações, mas indivíduos conectados em rede. Assista Snowden.

O controle sobre as pessoas, sobre o tempo, sobre a matéria nos faz semideuses com a ilusão de que podemos tudo. Podemos construir muros; armar a população; discriminar mulheres, negros, gays, índios, judeus, muçulmanos e cristãos; levantar fronteiras políticas e fiscais; desqualificar a ciência e a cooperação na solução de problemas sistêmicos; negar a ambiguidade e a complexidade da realidade, podemos tudo. Esses são os sintomas de uma cultura machista que acredita na possibilidade de controlar tudo e todos para impor sua vontade e seus interesses. E aí começa o risco, o prejuízo e a transição.

A transição já em curso está fazendo suas vítimas e os radicalismos populistas de direita que estamos vendo são reações a esse processo histórico inexorável para uma humanidade mais integrada, mais horizontal, mais eficiente e fluida.

O poder continuará vindo do controle, mas do controle e da consciência sobre si mesmo que, percebendo o outro, define uma relação espontânea e rica em que a troca, a negociação e o crescimento mútuo promovem o futuro melhor para todos. Releia Não zero – A lógica do destino humano, de Robert Wright.

Como eu disse, a transição não vai ser fácil. E, pior, vai ter momentos bem feios, porque essa gente que vai ficar pelada no meio da rua não é nada bonita!

Abraço do amigo Ricardo

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