por Douglas Vieira
Trip #268

Ao mesmo tempo que lida com o Parkinson, Penna Prearo segue criando histórias repletas de significados e humor a partir da fotografia

– Alô.

– Alô, quero falar com o Pena.

– Está falando.

– Então, Pena, aqui é da gravadora Philips, e indicaram falar com você porque você sabe onde encontrar uma caixa Leslie para a gravação do Tim Maia no estúdio Eldorado.

– Ah, você está querendo falar com o outro Pena.

– Tem dois Penas na produtora?

– Tem.

– E você faz o quê?

– Sou fotógrafo.

O diálogo ocorreu em 1972, no telefone de uma produtora em que Penna Prearo trabalhava fazendo de tudo um pouco – como substituir a telefonista na hora do almoço, exatamente o que fazia quando recebeu a ligação transcrita de memória acima. “A pessoa, que era a Célia Macedo, podia não ter perguntado nada, mas perguntou. Foi a primeira vez que eu falei ‘sou fotógrafo’ para alguém”, conta. “Faz fotografia? Não quer vir aqui fazer umas fotos do Tim Maia?”, foi o que ouviu de volta de Célia. E foi assim que, no lugar de anotar um recado para o produtor musical Pena Schmidt, anotou o endereço de seu primeiro trabalho comissionado: retratos de Tim Maia que estampariam a capa de um LP. O moleque de 22 anos partiu para a rua Major Quedinho, no centro de São Paulo, onde ficava na época o estúdio Eldorado e a redação do jornal O Estado de S. Paulo.

Penna deu naquele momento o passo que definiria sua vida até hoje. O retrato de Tim o colocou no caminho que desejava quando chegou a São Paulo, quatro anos antes. “Desembarco como forasteiro e sonhador em 1968 para 1969, quando eu tinha de 19 pra 20 anos”, conta. Nessa época, nem sequer tinha a câmera Pentax Spotmatic que usou para clicar o soulman brasileiro e, mais tarde, muita gente da música brasileira ao longo de décadas. “Vindo da família que eu vim – pai ferroviário e mãe ‘prendas do lar’ – eu tinha que trabalhar. Vai trabalhar, vagabundo – não comprar máquina fotográfica.”

Devagarinho, devagarinho

Antes de mudar para a capital paulista, o garoto nascido em Maylasky, em São Roque, e criado na periferia de São Paulo, em Itapevi, pegava diariamente o trem para a estação Júlio Prestes para trabalhar na editora Abril. Penna era pesquisador de vendas, mas estava lá atrás do sonho de ser remanejado para a fotografia. “Era 1968, ano em que eles lançaram a Veja, malfadada. Depois veio a coleção Nova História da Música Popular Brasileira, excepcional, e a Placar.” Seu plano, porém, foi interrompido por uma notícia e um conselho: 
“Não vou conseguir te transferir. Se quer fazer isso, tem que pegar firme e cair fora”, disse seu supervisor, Dagmar. Não foi uma decisão difícil naquele momento e Dagmar ainda foi fiador na compra 
de sua primeira câmera 35 mm, em 36 vezes.

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Penna partiu, então, para um novo trabalho, breve, no depósito de uma loja de material de desenho, e, em seguida, na editora Arte & Comunicação, onde finalmente começaria a se aproximar de seu destino. Fundada por Narciso Kalili, Sérgio de Sousa e Eduardo Barreto, todos egressos da extinta revista Realidade, a editora abriu os horizontes de Penna. “Lá, eu conheci Claudia Andujar, George Love, Lúcio Kodato... Roberto Freire, o psiquiatra e escritor. Eu continuei fazendo pesquisa lá porque eu queria ficar perto desse povo. E a coisa foi andando, devagarinho, 1970, 71.”

Devagarinho, devagarinho, até conhecer Toy Fonseca, que o levou para visitar a Prova Filmes, 
de José Pedro Scatena, de quem Penna ficou amigo. “Era um lugar que gravava jingles, publicidade e música. Os Mutantes gravaram lá. Muita gente baixava. Conheci Sérgio Mineiro, Renato Teixeira, Zé Rodrix, Tavito, convivia com esse pessoal”, conta. Foi na Prova Filmes que, em 1972, o fotógrafo atendeu a tal ligação.

Depois de clicar Tim Maia e se tornar oficialmente fotógrafo, Penna fez outras capas marcantes – como a do álbum Elis (1977), de Elis Regina – e fotografou diversos nomes da música brasileira, seja para discos seja para revistas como a extinta Bizz, e fez trabalhos também para a Trip. Paralelamente à fase retratista, porém, ele começou um trabalho autoral, que ganha corpo em 1984, com uma foto tirada em Extrema, Minas Gerais. Nela, uma mulher usando um capacete similar ao de um traje espacial, olhando para o horizonte, aparece envolvida por uma luz verde que emula uma aurora boreal. É a primeira imagem da série Transmutantes e também marco zero da obra autoral de Penna. “Essa é a fotografia que inicia minha trajetória e minha pesquisa com a cor”, explica.

O retrato e o clique solitário deram espaço às séries e o preto e branco do início se converteu definitivamente em cores intensas, bem saturadas. Agora sempre associadas em coleções, suas fotos passaram a ser batizadas e explicadas como se fossem filmes de ficção científica (Transmutantes, Falange ciclope, Vida em Marte, Movimento RÉPTIL) ou sátiras do cotidiano e de sua própria rotina (GRANDE AQUÁRIO para pequenos tubarões, Recenseamento de iguais diferentes, Tribunal das pequenas alterações, Cartografia do andarilho, peNNúltima sessão).

“Quando comecei a fotografar meio tremido, dizia que estava preparando meu trabalho para quando tivesse Parkinson. Queimei a língua”

Penna registra o universo ao seu redor sempre a partir deste olhar bem-humorado, colorido, repleto de texturas e interferências, tanto na revelação (e, hoje, no tratamento das imagens) como no uso de objetos para a construção dos personagens surreais que protagonizam suas narrativas fotográficas. O gosto pela música aparece na forma de pensar a fotografia, explicada por ele como composições; o gosto pelo cinema, na vontade de contar histórias ficcionais e fantásticas, como a série que dá nome a seu primeiro livro, Jornada do alumbramento de Apollo (Ed. Madalena), publicado em 2016.

Seu trabalho incorpora tudo que aparece pelo caminho, seja uma ideia seja algum desafio da vida. Aos 68, lida há um ano com o mal de Parkinson. O que poderia ser um momento de autocomiseração para um fotógrafo que depende da firmeza de suas mãos rapidamente serviu para ele descobrir uma nova ferramenta, que lhe deu condições de seguir com seu trabalho: “Estou há cinco meses com o ‘espertofone’ e já fiz duas exposições com fotos feitas com ele, no MIS, em São Paulo, e agora em Curitiba, no Museu Oscar Niemeyer”.

Com o celular em mãos, Penna adaptou um tripé para poder segurar a câmera, ou seu smartphone, com a mão esquerda, menos afetada pela doença, e assim tem feito muito de seu trabalho com o novo brinquedo, que ele chama de machadinha. “Quando comecei a fotografar assim, meio tremido, e alguém perguntava, eu dizia que estava preparando meu trabalho para quando tivesse Parkinson. Queimei a língua”, brinca. E, com o humor que nunca o abandona, segue com seu “cinema de breque”. “Não lembro quem disse isso para falar do meu trabalho, mas eu adorei.”

Créditos

Imagem principal: Penna Prearo/divulgação

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