por Natacha Cortêz

Qual é seu plano de vida para os 50 anos? E para os 60? Seria razoável considerar ter filhos? Aqui, histórias de quem deixou pra ser pai e mãe em idades pouco prováveis

Rose Longo, 64 anos, conhece bem a sensação de ter em mente, de forma persistente, “quase inesquecível”, a idade que carrega. “Não é que me lembro a todo tempo que tenho 60 e poucos anos porque cheguei aos 60 e poucos anos ou me sinto com 60 e poucos. É que ter filhos adolescentes quando o mundo acha que você deveria estar tendo netos tem algo de transgressor e incomoda", diz a professora universitária. "É muito comum desconhecidos se referirem a mim como avó dos meus filhos. Fazendo isso, é como se me lembrassem de que estou indo contra o curso natural das coisas, mesmo que eu não acredite nisso." E de fato ela não acredita. “Tive filhos na idade em que quis ter filhos. A vida toda botei minhas forças onde importava pra mim e apenas pra mim.” Enquanto as mulheres da sua família se casavam e se tornavam mães, Rose estudava. Viajou o mundo: fez mestrado no Canadá e doutorado na Inglaterra, foi professora na Irlanda e consultora das Nações Unidas na África. Construir uma carreira consistente e rica em experiências leva tempo e dedicação. “É um projeto que exige tanto quanto ter filhos. É também um projeto que importa tanto quanto”, diz.

Há diferenças limitadoras entre homens e mulheres quando o assunto é ter filhos aos 50 – isso se você não contar com a adoção. Ao passo que homens podem tê-los em qualquer idade, “pois a grande maioria nasce com uma fábrica permanentemente ativa de espermatozoides saudáveis e segue assim até o fim da vida”, explica o ginecologista e obstetra Renato Tomioka, especialista em reprodução humana, mulheres nascem com um número finito de óvulos (1 a 2 milhões), que vai diminuindo progressivamente, especialmente a partir dos 35 anos. “Isso acontece porque o óvulo envelhece muito mais rápido que o útero. Por isso algumas congelam seus óvulos.” Ou seja, de acordo com a medicina, a partir dos 35, se você é mulher e tem vontade de engravidar, a situação começa a ficar preocupante. A saída sugerida é considerar um tratamento de reprodução assistida.

Foi o que fez Rose aos 50 anos, quando filhos passaram a fazer parte do seu plano de vida junto com Hércules Rosette, o companheiro que conheceu em uma sala de bate‑papo na internet alguns anos antes. A fertilização in vitro com o próprio óvulo lhe trouxe, na terceira tentativa, dois bebês gêmeos e lhe custou a venda de um apartamento em Brasília. Segundo Tomioka, tratamentos de fertilidade são praticamente regra pra mulheres como Rose – casos de gestação natural na idade que ela tinha são raríssimos. “Talvez você encontre no Guinness, ou na literatura.” No Brasil, a atriz Solange Couto endossa os casos raríssimos. Aos 54 anos e sem nenhum tratamento, engravidou quando acreditava ter “entrado na menopausa”, disse ao Ego em 2011.

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POR QUE NÃO?

Em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, a empresária Marça Maciel, 51, também recorreu à fertilização in vitro. Foi uma das três pacientes nessa faixa de idade atendidas pela ginecologista e obstetra Suely Rezende no ano passado. “Tratamentos de fertilidade exigem do corpo e da cabeça da mulher. O corpo precisa estar saudável e a mente, fortalecida. Tratamentos de fertilidade aos 50 então, exigem ainda mais”, diz Rezende. Além de saúde e mente sã, é aconselhável ter dinheiro. A fertilização in vitro com óvulo próprio custa, em média, a partir de R$ 20 mil e o preço vai até “o céu é o limite”. Existe ainda a opção de recorrer ao SUS, mas aí o céu é o limite para tempo e paciência.

Marça precisou de três tentativas e gastou R$ 130 mil. Acabou uma mãe radiante de trigêmeas. Carmem, Suelena e Valentina. A maternidade era um desejo que a acompanhou desde muito cedo. “Falavam que a mulher que comesse a banana grudada, aquela siamesa, teria gêmeos. Comi todas que vi pela frente. Sonhei com gêmeos a vida toda. Éramos dez irmãos. Todos tiveram filhos, menos eu”, ela conta. Por um tempo, Marça chegou a se contentar com os netos do marido, o pecuarista Humberto César Fiori, 60, que tem outros cinco filhos de dois casamentos anteriores, até que não conseguiu mais adiar sua vontade. “Eu precisava tentar. Mesmo na minha idade e sabendo de todos os riscos. Perguntei se o Humberto topava a empreitada de ser pai naquela altura da vida e ele disse: ‘Claro, por que não?’, e que eu seria uma mãe maravilhosa.”

Ter bebês em casa renovou os ânimos do casal, junto há dez anos. Marça sente que agora apenas fez “o que nasceu pra fazer”, e que “cada coisa acontece no seu tempo”. Rezende, sua médica, também acredita no destino, mas ainda mais no sucesso dos tratamentos de fertilidade, capazes de proporcionar a experiência da gestação e da maternidade a mulheres que antes lutavam para engravidar. Já Humberto, que foi pai aos 20, aos 30, aos 40 e, agora, aos 60, diz que nunca se sentiu tão preparado para a paternidade. “Tenho outra chance – e triplicada! – de ser o melhor pai que posso. E dessa vez tenho uma cabeça madura, mais sábia até. Me sinto mais otimista do que medroso. Só peço a Deus que me dê saúde pra ver as minhas filhas encaminhadas.” Quando as trigêmeas de Marça e Humberto tiverem 20 anos, seus pais terão 71 e 80, respectivamente. Se olhar apenas para os números, diz Marça, “a gente se condena a se preocupar e não quero que seja assim. Tenho convicção e fé de que vou conseguir criar minhas filhas da mesma forma que criaria se fosse mais jovem, só que sem a parte ruim e ansiosa da juventude”.

DE REPENTE, PAIS

Na China, a notícia do nascimento de uma menina nem sempre é festejada. E isso já foi mais grave. Em 2005, o jornalista Gilberto Scofield era correspondente no país pelo jornal O Globo e a política do filho único, que durou mais de 30 anos e acabou em 2015, ainda valia. Ver de perto a realidade das meninas chinesas mexeu com ele. Ali, aos 40 anos e um tanto surpreso consigo mesmo, considerou pela primeira vez ter filhos e comunicou a seu companheiro, Rodrigo de Mello, a vontade de adotar uma criança chinesa, “dessas rejeitadas pela família”. O trabalho, porém, falou mais alto. Gilberto se mudou para os Estados Unidos, onde foi correspondente em Washington, e como nos 20 anos anteriores de sua vida, o foco na carreira e um certo “hedonismo” orientaram o presente. “Eu tinha uma coisa de querer prolongar a juventude, de aproveitá-la ao máximo, e filhos exigem que você pare de olhar pra si e passe a olhar primeiro para o outro.” Os planos de ser pai foram adiados, mas não por muito mais tempo.

De volta ao Brasil, Gilberto e Rodrigo decidiram dar entrada em um processo de adoção. As exigências do casal eram quase nenhuma, apenas o fato de a criança não ter doenças intratáveis, e isso agilizou as coisas. Poucos meses depois, um telefonema do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, os levou a Paulo Henrique, 4. Na época, Gilberto estava prestes a completar 50. Rodrigo, 33. Para Gilberto, que adiou o estalo paterno que aconteceu lá em 2005, adotar Paulo Henrique aos 50 não foi uma decisão tardia, mas um privilégio para poucos. “Pude viver e pensar muito pra hoje ser um pai perto de pronto. O ideal é que todo mundo pudesse fazer esse exercício, pra entender do que se trata a paternidade, quais são as responsabilidades que o papel acarreta e as dificuldades que traz. E mesmo pra poder construir antes a própria individualidade", diz o jornalista. "Existe aquela ideia de que filhos podem impedir algumas coisas, de que se você os tem, tolhe liberdades individuais. Por um lado, há um egoísmo nesse pensamento, por outro, uma certa dose de honestidade. Não acredito que existe tempo certo pra ser pai, existe o seu tempo. No meu caso, foi aos 50.”

Agora, dois anos depois, Gilberto foi pai mais uma vez, com a adoção de Rafaela, a irmã biológica mais velha de Paulo Henrique. Atualmente, os filhos têm 7 e 16 anos. Foram adotados longe da faixa etária preferida nos pedidos de adoção – bebês de até 1 ano. Fazendo as contas, é como se Gilberto, aos 36, tivesse tido Rafaela. E aos 45, Paulo Henrique. “É muito provável que por isso eu esteja inteiro na formatura da faculdade deles”, brinca, mas sem deixar de pensar na própria idade e no peso que vem junto de ter filhos mais velho.

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DE REPENTE, MÃE

A supervisora de recursos humanos Rosa Takamoto, 60, e o taxista Sílvio Takamoto, 57, optaram pela faixa etária preferida nos pedidos de adoção. Acabam de receber Pérola em casa: a menina foi adotada com 1 mês de vida. A espera do casal pela tão desejada filha levou nove “enormes anos”, conta Rosa. “Todo esse tempo esperando e daí um dia te ligam e de uma hora pra outra você é mãe de uma bebê de colo, toda pequenininha e dependente. A impressão que tive é que, apesar dos nove anos, nunca me preparei para aquele momento. Eu não sabia o que fazer e morria de medo de não fazer certo.”

Rosa vive uma maternidade que só fez sentido acontecer agora, aos 60. Antes, era casada com o trabalho. Vivia pra construir uma base financeira sólida pra esta época da vida. Foi julgada, claro. “De uma mulher adulta, as pessoas sempre vão cobrar casamento e filhos.” Quando anunciou aos mais próximos que estava adotando aos 60, foi chamada de louca. “Diziam: ‘Por que você quer ser mãe agora que a vida está tranquila?’. Respondia: ‘Justamente porque a vida está tranquila que quero!’.”

Pérola é a primeira filha de Rosa e a terceira de Sílvio, que tem dois outros filhos de seu primeiro casamento, aos 16 anos. Desta vez, ele experimenta uma paternidade nova, diferente de tudo que viveu com os outros filhos. “Me sinto cheio de planos. Certamente serei um pai para Pérola que não consegui ser para meus outros filhos. Criar um ser humano na fase da vida que estou me motiva.” Os irmãos por parte de pai da bebê têm 38 e 35 anos e são pais de adolescentes. Com a nova integrante, toda a família é um pouco afetada. Papéis mudam. De repente, seu pai é pai de novo – e a filha dele é mais nova que seus filhos. De repente, sua filha é mãe aos 60 e se depara com situações que nunca imaginou viver. “Assim que pegamos Pérola no hospital, corremos pra uma loja dessas de bebê. Você precisava ver a cena. Nós dois lá, com ela no colo, perdidos e afoitos, pedindo pra vendedora de tudo um pouco. Foi engraçado e assustador ao mesmo tempo. Cheguei em casa e liguei pra minha mãe, contando da minha dificuldade na loja. Ela riu muito de mim e ainda mandou: 'Quem pediu pra ser mãe foi você’.”

Ter filhos quando o resto do mundo espera sua aposentadoria tem algo de transgressor, como disse Rose Longo. Mas talvez a transgressão vá além de desafiar condutas sociais ou a biologia e esteja em obedecer a si mesmo e olhar apenas para o seu relógio. 

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