por Kátia Lessa
Trip #188

Fã de Bon Jovi e da namorada, Mallu Magalhães, Camelo luta para encontrar sua brutalidade

Nos últimos 13 anos, ele traduz o amor em música para uma geração sedenta por bons compositores. Integrante da banda Los Hermanos, idolatrado por uma legião de fãs, prestes a lançar o segundo disco solo, ele é o protagonista do romance mais comentado da música brasileira, ao lado da jovem Mallu Magalhães. Nas próximas páginas, ele abre o coração, fala das suas recentes mutações e revela um Camelo que você nunca viu

Você já deveria imaginar. O camelo aí da foto é arisco, antipático, avesso a muito papo. De uns tempos pra cá, vive longe dos companheiros de grupo. Tem uma barba respeitável, adora cenoura, batata-doce e fica incomodado quando atrapalham suas refeições. Guga, o camelo. O outro Camelo, Marcelo, fala pelos cotovelos, de forma gentil e sotaque carregado. Aparou a barba, tem 1,90 m de altura, calça 44, adora suco de melão com fruta-do-conde (sem açúcar), do BB Lanches no Rio, e PF de R$ 7 da vizinhança às quatro da manhã. Tem miopia e astigmatismo, e mora com Soninho e Albano, seus gatos vira-latas. Rói as unhas. Fica perturbado com barulhos, se sente perseguido por reformas, anúncios de voz em aeroporto e pessoas que falam alto em aviões. Por isso uma de suas melhores compras foi um fone de isolamento acústico usado para treinamento de tiro.

Durante dois dias, primeiro em seu apartamento em São Paulo e depois durante uma tarde no zoológico de Brasília, Trip esteve ao lado do compositor gravado por gente como Maria Rita e Ivete Sangalo, o criador de um dos maiores hits dos últimos anos, a música “Anna Julia”, e que virou alvo da legião de fãs do Los Hermanos, talvez os mais fervorosos exemplares deles no país desde o Legião Urbana de Renato Russo. Mais que fãs, eles são seguidores fiéis, que, de quatro anos pra cá, têm de se contentar com os velhos discos, vídeos no YouTube ou reencontros esporádicos como o último, que aconteceu em 2009 por ocasião de um convite para abrir o show da banda Radiohead. Ou mais dois deles que, revela em primeira mão, acontecerão no segundo semestre deste ano.

Afastado por tempo indeterminado da banda com a qual fez fama, Marcelo Camelo se prepara para lançar seu segundo disco solo, ainda sem nome até o fechamento destas Páginas Negras. Páginas, aliás, para as quais ele arriscou a vida ao lado do colega de sobrenome, o Guga, de quem levou uma mordiscada no braço durante a sessão de fotos da capa. Sem grandes danos. Não foi desta vez que acabamos com a maior esperança da música brasileira atual.

Cores e amores
Marcelo Camelo mudou de habitat. Por amor a uma paulistana, largou o Rio de Janeiro, onde nasceu em 4 de fevereiro de 1978, e está de cidade nova. O apartamento na zona oeste de São Paulo não lembra seu último refúgio, um apê no Alto Leblon, onde se isolou para compor o disco Sou. É mais barulhento. A rua tampouco lembra a vizinhança onde cresceu, no bairro de Jacarepaguá.

Filho de um dono de botequim e de uma artista plástica naïf, ele cresceu em um lar amoroso. “Lá em casa é todo mundo bom de abraço.” Talvez venha daí a pitada de romantismo que contaminou o repertório do então adolescente cabeludo, que adorava as bandas Weezer, Pearl Jam e Bon Jovi e os grupos de rock do underground carioca nos anos 90, para então criar um estilo com traços menos raivosos e texturas suaves de bambas do samba.

As paredes da casa da cidade nova são coloridas por desenhos, inúmeros. Quem chega ganha tinta e giz pra deixar tudo mais pulsante, como o álbum que está no forno. Nem a repórter escapou. O lugar tem ainda luzinhas coloridas, como as de árvore de Natal, e enfeites simples, como em um cenário de Michel Gondry.

O rabisco mais frequente é o rosto da namorada, Mallu Magalhães. Ela está na sala, atrás da porta da cozinha, sobre o móvel. Está também nas próprias marcas que deixou na cozinha, no batente das portas, no quarto. Está em porta-retratos (Marcelo é bom fotógrafo) e no fundo de tela do iPhone. No início do namoro, Mallu tinha 16 anos, metade da idade dele. Desse romance cheio de diferenças e completudes os fãs lucraram duetos e declarações de amor musicais como a da música “Janta”, composta por ele para o álbum Sou. No momento, é ele quem participa da turnê do segundo álbum da moça.

De uma hora para outra, ele transitou de jovem compositor mais disputado da MPB a alvo de concorridas imagens para revistas de celebridade, atraídas pelo chamariz fácil da diferença de idade. Sobre o assunto, ele se diz magoado: “Quando você se apaixona, se apaixona. O radical da palavra paixão é o mesmo de passividade. Quando acontece, tu fica meio passivo. Nosso encontro foi algo muito especial”.

No banheiro, um retrato de sua musicista preferida, Guiomar Novaes, ao lado do espelho, onde agora ele apara a barba. “Os cientistas todos têm barba. É uma parada que avisa que você não está nesta vida de brincadeira.”O olhar de Marcelo é quase como o de um cientista. O tipo que, ao observar o céu, aprende mais sobre o telescópio do que sobre a área observada. Duvida de tudo, é guiado pela teoria da Maybe Logic, de Robert Anton Wilson, e pelo amor que tem pra dar.

Além de assuntos cabeçudos como astrofísica, números primos ou os Crop Circles, Marcelo é viciado em Big Brother Brasil e adora Claudinho & Buchecha. Tentando distrair-se de si mesmo, ele diminuiu a barba e está diferente. Então, cuidado, se você acha que sabe tudo sobre o cara ali da foto, duvide, isso pode não ser um Camelo.

 

“O Los Hermanos só devería voltar para um disco novo, não ficar nessa de coisas velhas”

Está gostando de São Paulo?
Estou. Me surpreendi com a calma do paulistano, a “boa-pracice”. É como se o Rio tivesse um subtexto da malandragem. Quando chego lá agora, tenho que chavear a cabeça pra um modo meio marrento, senão você é maltratado o tempo inteiro. No táxi, você tem que chegar pro cara e falar: “Vou pra Copa, mermão” [risos]. Tem que ter uma afirmação. Aqui a gente acaba um ensaio, termina a conversa e os meninos da banda ficam lá sentados, na maior calma [risos]. Acho superestranho. Eu sou de Jacarepaguá, que tá no coração do Rio. É a malandragem.

De que você sente mais falta do Rio?
Do Rio [risos]. Sinto falta da praia, do sol, da umidade, dos amigos, e do BB Lanches. Em Copacabana dá pra ir ao boteco às três e meia da manhã. “Fala aí, João, beleza? Como é que tá o PF?” “Pô, hoje tá meio ruim, cara. Mas o feijão tá legal.” Copacabana é um bairro da tolerância. Um dia estava botando unha de porcelana no salão, todo barbudão, aí entra uma menina assim com um garotão francês...

Espera aí! Você disse que estava colocando unha de porcelana?
É que eu roo muito a unha e precisava deixar ela crescer. É melhor que tomar Opinol. Já tentei pimenta, mas dá uma viciadinha.

Agora você está sem unhas postiças.
Na turnê do Sou eu não podia roer a unha porque tocava muito violão. Quando acabou, eu roí de propósito pra evitar o violão porque queria um disco de guitarra, que é esse novo.

Ele é mais pesado?
A ideia é que seja mais pulsante.

Você parece muito feliz, radiante.
Eu sempre fui.

Na época do Sou, seu primeiro CD pós-Los Hermanos, você também estava?
É, na época do Sou eu tava um pouco mais introspectivo, isolado em um apartamento silencioso no Alto Leblon para compor.

Com qual frequência você fala com o pessoal do Los Hermanos?
De vez em quando. Vamos fazer dois shows no segundo semestre, dois shows fechados. Um em Recife e um em Salvador. E eu tô adorando. Pô, sinto mó saudade deles, outro dia fiquei vendo uns vídeos nossos em casa.

Sente falta dos amigos ou da banda?
Dos amigos, das músicas que a gente fez, de fazer música junto, do nosso repertório, da nossa relação pessoal, da nossa viagem, da equipe que a gente formou. Eu tenho saudade de quem eu sou quando estou com eles.

Quão perto vocês estão de uma volta?
Sinto que só deveríamos voltar pra fazer um disco novo, com repertório novo, pra não ficar nessa coisa de só tocar coisas velhas. Mas por enquanto cada um está com seu trabalho solo, criando coisas novas. O Rodrigo tem uma frase interessante que é: “Tempo a gente tem o quanto a gente dá”. Estamos dando um tempo para outras coisas.

Vocês se falam sobre os trabalhos individuais?
Eu toquei com o Barba no Canastra, mas ainda não vi o Bruno na Adriana Calcanhoto. Mas acompanho o blog dele. Com o ruivo [Rodrigo Amarante] falo mais, sou o maior fanzão do Little Joy. Fui ao show no Circo Voador e tudo.

O que você sentiu quando o viu tocar fora do Brasil, outra língua, um público virgem?
Todo sentimento é ambíguo. Eu poderia ter inveja, mas troco essa parada pela admiração. Vontade de tocar com gringo eu não tenho, porque tenho uma coisa com o português da qual não consigo me livrar. Mas o público virgem seria legal pra caramba. O Rodrigo foi lá, se misturou e se estabeleceu como parte da cultura americana que reverbera na cultura mundial. Para isso é preciso talento, coragem, coração grande que nem o dele.

Como você entende o fanatismo dos fãs do Los Hermanos?
Acho que a banda é boa [risos]. Eu acho que a banda é realmente muito boa.

Mas você acha que tem alguma relação com o cenário musical brasileiro, com a falta de ídolos?
Não, fizemos parte de um movimento de transformação da música. Cresci nos anos 90 ouvindo Raimundos. Fazia fanzine, acompanhava essa cena das bandas de fitas demo, principalmente as bandas do Rio, Poindexter, Cabeçudos. Aí veio o Acabou La Tequila, que foi uma transformação na minha cabeça. Ouvi uma música do Kassin, “É o fim”, “é o fim, tudo que havia se acabou...” [cantarola]. Uma música romântica. Fui ao show e vi que eles tocavam carimbó, do Pinduca. O Kassin tocando guitarra era absurdo. Nesse show tive essa sensação de ampliar.

Isso aconteceu com que idade?
Até uns 19 anos, eu gostava só de rock. Aí passei a acompanhar a cena alternativa e a ouvir samba. E isso tomou conta da minha vida dos 20 até hoje. Quase só ouço isso aí.

Isso aí o quê? Coisas antigas?
Eu não tenho essa relação com o tempo. Ouço de Dilermando Reis a Guiomar Novaes, pra mim ela é de hoje, de amanhã, de ontem. Eu gosto de música eterna. O que é muito contemporâneo fica atrasado rápido. Meu disco preferido é o último gravado em vida pela Guiomar, que é uma pianista brasileira de música clássica. Ela gravou só com repertório brasileiro, talvez por isso seja o meu preferido, com melodias brasileiras, sinuosas.

Antes você disse que acompanhava tudo, que fazia fanzine. Como você consome música hoje?
Eu não vou mais a shows como antes. Eu acompanho pela internet, ouço quase tudo que tem por aí. Entro em fórum de pessoas que comentam música americana contemporânea, vou em blog como o dos irmãos Mesquita, o blog do Guaciara.

Você é internauta?
Bastante. Vou lá no site do TED do YouTube e fico vendo palestras, documentários.

De música?
A música é 1% do meu campo de interesse.

O que ocupa uma parte grande do seu campo de interesse?
Astrofísica, por exemplo.

Eu estudei um pouco de astrofísica...
Não acredito, cara. Tá acompanhando o Grande Colisor de Hádrons? Espera aí, para a entrevista, vamos falar um pouco sobre isso, porque esse assunto é mais importante [interrompe, comenta sobre cientistas, pesquisas, mostra referências e imagens no iPhone].

Você se considera um nerd?
Não, mas acho que me interesso por assuntos que pega mal me interessar. Eu começo a falar sobre os sumérios ou o Grande Colisor de Hádrons com meus amigos e eles falam: “Não me vem com porra de sumérios a essa hora”.

Da nova geração da música, não tem ninguém que te chamou a atenção, além dos meninos do Hurtmold?
Ah, a Mallu, né? Por isso a chamei para participar do Sou. Tem uma banda francesa, Phoenix, que eu acho simpática. Gosto da esquisitice do Catatau, do Cidadão Instigado, da pessoalidade do Otto, dos Racionais.

Como você conheceu a Mallu?
Vi no YouTube, depois fui a um show dela no Rio. Aí a chamei para gravar no meu disco e nos conhecemos. Começamos um namorico devagar. Eu vinha pra cá, ela ia pro Rio...

O que mais te encantou nela?
É como se, quando ela tocasse, virasse eterna. Ela sai do universo mais óbvio de percepção que se teria dela e vira uma coisa maior, um universo inteiro. Quando ela tocava vinha uma força que eu achava estranha. Além disso adoro o modo como ela cria melodias. Foi uma ligação espiritual, imaterial.

Como você sentiu a cobrança pelo fato de ela ser muito mais nova?
Quando você se apaixona, você se apaixona. O radical da palavra é o mesmo de passividade. Porque, quando acontece, tu fica meio passivo. Não tem questionamento. Nosso encontro foi algo muito especial.

Você ligou para os comentários sobre o seu relacionamento que insinuavam pedofilia?
Fiquei muito chateado, muito magoado. Mas os pais da Mallu são educados e inteligentes o suficiente para não dar ouvidos a comentários de pessoas que nem me conheciam.

Teve algum tipo de conversa especial com os pais dela?
No começo pode até ter tido algum tipo de desconfiança por parte dos pais dela, natural. Mas hoje eles me conhecem, vieram em casa. Então não sou mais uma pessoa imaginária, que se relaciona com a filha deles, sou eu de verdade. Já estamos juntos há um ano e meio.

No cotidiano, a diferença de idade, o fato de ela estar na escola, atrapalha alguma coisa?
É só um detalhe. Diferenças práticas acontecem. Ela tem aula de manhã, eu vou dormir às quatro da manhã e acordo ao meio-dia. Em um casal, uma pessoa pode gostar de carne, outra não. Aí, pô, um gosta de Rolling Stones, o outro de Bon Jovi, entendeu? Duas pessoas são muitas coisas. O infinito é o outro.

Você tem fama de perfeccionista
Já fui mais cricri. Agora eu tento decodificar o que crio para entender a ética do trabalho e limar o que está sobrando.

Mas alguém te deu um toque, disse que você tava muito chato?
Nem precisa, né? Quando você faz coisas artísticas, a própria obra é muito útil como conselheira, psicanalista. Você se transforma a partir do que fez.

E essa história de “Marcelo Camelo é o novo Chico”? Como você encara?
Não existe isso aí não, quem foi que te disse isso? [Risos.]

Você nunca escutou isso?
Não, não. Ninguém fala isso com convicção. É sempre um sujeito oculto que aparece no meio da informação. Até porque eu me sinto um compositor com motivos e trajetória diferentes do Chico. Mas sou fã dele pra caralho.

O começo do Los Hermanos tinha bastante influência hardcore, do rock do underground carioca. Do que mais você gostava?
Dos 7 aos 15 anos eu só ouvia Bon Jovi e Pearl Jam.

Não escuta mais as duas bandas?
Outro dia mesmo eu fui ver uns vídeos do Bon Jovi no YouTube. Eu acho o Jon Bon Jovi um grande compositor. Todo o meu lado melodioso, a minha procura pela melodia bonita, eu devo ao Bon Jovi, ele foi o meu alfabetizador musical [a repórter gargalha]. Pô, tu não gostava do Bon Jovi, não?

O meu Bon Jovi era o Nirvana.
Eu não gostava do Nirvana, por causa da ausência de melodias bonitas.

“Todo o meu lado melodioso, a minha procura pela melodia bonita, eu devo ao Bon Jovi”

Aliás, esta semana (da entrevista) é aniversário de morte do Kurt Cobain. Você lembra o que estava fazendo nesse dia?
Tava com os meus amigos. Eu até tocava Nirvana, gostava de “Polly”, que era a única música... [risos] legalzinha... Mas se o Bon Jovi tivesse morrido ia ser mais marcante pra mim [risos]. Na verdade senti muito a morte do Dorival [Caymmi]. Achei que foi pouco sentida pelo país. Aliás, essa é uma característica da modernidade: o nego não para pra sentir a morte de ninguém. Isso me preocupa.

Qual a sua primeira lembrança musical?
“La Bamba” e “Twist and Shout”. Lá em casa quem trouxe o violão pra minha vida foi um irmão da minha mãe que é um puta músico. Foi o primeiro cara que eu vi tocando violão. Ele e o Gustavo, que é um amigo meu de rua, que tocava igual ao Jon Bon Jovi [risos].

Você fez faculdade de jornalismo. Na época você já queria ser músico?
Achei que queria ser biólogo, depois escolhi jornalismo, pois já fazia fanzine, gostava de escrever sobre música. Eu tocava, mas não tinha escolha estética, não cantava nem compunha de um jeito que eu achasse que vingaria alguma coisa. No fim da faculdade que a banda pegou, e eu resolvi largar o curso.

Por que você acha que o Los Hermanos fez tanto sucesso?
Tocávamos no circuito alternativo, frequentado por jornalistas. Com isso fomos convidados para tocar no Abril Pro Rock e logo depois gravamos o primeiro disco. Éramos muito diferentes do que acontecia no Rio na época. Fizemos algo mais romântico, que misturava samba, Bon Jovi e músicas mais pesadas, coisa que ninguém fazia na época.

Você liga para as críticas?
Ligo.

Lê tudo o que sai sobre seu disco?
Leio.

Fica chateado quando falam mal?
Fico.

Alguém já te tirou do sério?
A crítica musical é muito ruim no Brasil. Sinto que as pessoas não conversam com elas mesmas emocionalmente a ponto de se deixar invadir por coisas de universos diferentes. Existe uma parte da crítica que só quer música pulsante, estrangeira e feliz.

Você já chegou a responder alguma crítica ruim?
As pessoas transformam muito as coisas que eu digo, mas eu procuro não brigar. Eu já fui vitimizado por isso de jeitos muito violentos. Eu já apanhei, né!

Você está falando do Chorão?
Isso. Um cara fez uma entrevista escrota com a gente. Queria informação polêmica. Aí resolveu botar um aposto que sugeria que jamais faríamos propagandas como a que o Charlie Brown fez para a Coca-Cola. Então, quando li, liguei para o Chorão e ele disse: “Imagina, cara, deixa pra lá, tá tranquilo”. Aí eu pensei: “Pô, que ótimo, então tá esclarecido”. Mas um dia íamos tocar em um festival, e ele entrou no avião já meio alterado, me xingou, xingou o Rodrigo, falou que a próxima vez ia sair atropelando.

E atropelou?
Ele bateu boca e eu disse que essa parada estava me incomodando. Eu falei: “Pô, cara, não fica assim... Você tá caindo na pilha do jornalista”. Aí ele levantou de um jeito que eu nunca vi na vida, me deu uma cabeçada e um soco muito do nada. Eu tive que fazer duas cirurgias por causa dessa porra. No dia ele ficou arrependido, chorou, pediu desculpas.

E você desculpou?
Eu disse que um dia desculparia, mas que na hora tava doendo muito. Acho que ainda preciso trabalhar um pouco isso aí.

Em uma entrevista para a revista Tpm, a repórter te perguntou se você era um cara sensível, e você disse que também tem um lado bruto. Quando é que a sua brutalidade aparece?
Acho que todo mundo é um pouco bruto, um pouco sensível. Eu sinto muita compaixão pelas pessoas. Mas talvez, se alguém tentar tomar aquilo que me é mais caro, minha liberdade, minha mulher, meus pais, eu me torne uma pessoa violenta. Até hoje só saí do sério ao tentar apertar um parafuso, afinar um violão... Mas eu tenho como princípio não bater em coisas com sistema nervoso.

Você cresceu em uma família amorosa, teve pais carinhosos?
Tenho três irmãos, e lá em casa é a maior delicadeza. É até estranho porque o meu pai é filho de imigrante português, dono de botequim, analfabeto a vida inteira, cascudão. Mas ele é a pessoa mais doce do mundo.

Qual foi a última vez que chorou?
Hoje cedo. Choro direto. Cinema acho sacanagem. Fico mexido três dias com cada filme.

Esse seu lado bruto é uma mentira.
Até o fim do papo descubro e te conto [risos].

Você foi adolescente problemático?
Um pouquinho... A escola é um lugar que te obriga a conviver com grupos de interesses distintos e com pessoas exclusivamente da sua idade. Eu era mais introspectivo.

Você é vaidoso? Se preocupa com o que veste, por exemplo?
Só tenho medo de ficar careca. Os cremes que estão no banheiro são todos da Mallu. Eu aplico minha vaidade na música, na busca do melhor acorde. Na moda eu tenho dificuldade de identificar o que é legal, o que não é [risos]. Mas agora eu descobri que meu estilo é surfwear. Vou explorar mais isso [risos].

Como chegou a essa conclusão?
Um amigo olhou pra mim e disse: “Pô, tu é meio Passarela de Jacarepaguá”, que é um lugar perto de onde eu cresci, parecido com a Galeria do Rock, cheio de loja. O apelido do pessoal da minha rua era Urussanga Beach [risos]. E por ali era moda surfwear na época. Então acho que esse é meu estilo. Eu não entendo de moda, mas eu acompanho as paradas. Aquele Marc Jacobs se veste bem pra caramba. Sabe ele? O Bispo do Rosário também é um homem elegante. Tem alguma coisa de caber na roupa que ele usa.

“Deus já falou comigo uma vez. Ouvi do fundo da alma: faaaaaz!”

Você surfa?
Tenho problema com equilíbrio. Aprendi a andar de bicicleta aos 28. Mas jogo bola benzão, basquete, vôlei. Sou o rei da embaixadinha, faço que nem o Ronaldinho Gaúcho, aquela que você roda o pé em cima da bola... Teve uma época que eu encasquetei com isso. Adrenalina eu não sou muito afeito. Ela é feita pra você correr quando acha que vai morrer... Prefiro deixar pra usar nessa hora. Mas um cara que eu respeito muito é o Kelly Slater. Dizem que tudo na vida é onda, e um cara que é tantas vezes campeão mundial nisso é um cara que tem uma força especial.

Do que você tem medo?
Respeito muito o mar, tenho certo medo de criaturas bioluminescentes e de pessoas fantasiadas. Dessas que ficam entregando panfleto na rua, sabe? Acho que existe ali uma ausência de self-consciousness.

Você acredita em Deus?
Teve alguém que disse que Deus é um ponto de interrogação. Achei essa imagem bonita. Não acredito em uma figura, mas sim que fazemos parte de uma parada maior, e que ela é incompreensível a nós. Acho que a matemática, a natureza e todas essas coisas são uma simbologia desse ente maior. Mas é só o bicho pegar que todo mundo se apega a alguma coisa. Se você fechar os olhos e pensar muito na cor verde ou no número 24, é isso que você vai ver em todo lugar. Você como observador transforma o objeto
observado. Com Deus também é assim. Deus já falou comigo.

E falou o quê?
Foi uma única vez. Eu tava indo dormir e ouvi do fundo da minha alma. Ele disse: “Faaaaaaaaaaaaz!!!”.

Faz o quê?
Sei lá, cara. Só sei que eu fiz. Sigo fazendo.

Qual a sua posição em relação à legalização das drogas?
Sou a favor. Acho que deveriam pegar todo o dinheiro da droga e investir em educação. O problema todo é a falta de educação. A proibição tira a tua malemolência, a tua capacidade de lidar com aquela parada. Acho que deveria existir um centro de estudo que dissesse pra você quais são as consequências daquilo, uma orientação real. E, caso você tenha um problema, um sistema de saúde preparado para te amparar.

Cigarro você fuma?
Desde os 20. Um maço dura três dias.

E drogas ilícitas, você já usou?
Só usei maconha, mas parei porque não estava me fazendo bem. Aprendi o que aquilo fazia com a minha cabeça, com o meu corpo, com as funções. Pra mim não estava mais legal emocionalmente.

Este ano vai ter eleição, o que você acha do governo Lula?
Eu sou Lula Futebol Clube. Poucas vezes eu olhei para um cara e acreditei nele que nem eu acredito no Lula. Votaria nele novamente, mas sei que ele não faria isso porque respeita a democracia.

Vai votar na Dilma?
Vou, está decidido já.

Vamos ter Copa do Mundo. Você gosta de futebol?
Ô! Sou Vascão. Fiquei emocionado quando a torcida do Vasco fez um grito com a melodia de “Anna Julia”.

O que você sente quando alguém te pede para tocar “Anna Julia”?
É a música pela qual as pessoas me reconhecem. É lembrada pelas pessoas que não leem Segundo Caderno. Criaram um mito de que a gente não gostava da música. Mas aquilo era uma reação à nossa gravadora, que era pautada pelo sucesso imediato, pela vontade de angariar dinheiro o mais rápido possível. Mas a gente tinha uma carreira pra defender. Só não queríamos ficar conhecidos como uma banda de uma música só. Mas a gente sempre adorou a música. Uma vez recebi uma carta linda de uma mãe dizendo que tinha um filho autista, fazia musicoterapia, não reagia a nada, só a “Anna Julia”. Isso é lindo.

Você recebe muitas cartas de fãs?
Recebo algumas. Uma vez uma menina bem jovem que tinha câncer disse que ouviu o Sou e que aquilo era o alento da vida dela. Música é uma parada muito séria, mexe com as pessoas. Ou então uma história de uma pessoa que se matou e deixou uma carta que era a letra de uma música minha. Fiquei muito perturbado, não toco mais essa música.


Tirando o Bon Jovi... Você não tem nenhum ídolo?
Pô, tu vai ficar fazendo piada com o Bon Jovi... Tem a Guiomar. Um cara me deu o telefone de uma mulher que trabalhou para a Guiomar. Tive uma crise de choro assim que ela disse alô, só de saber que ela havia estado com a Guiomar Novaes. Acredita?

Você disse que já passou perrengue financeiro. Qual a importância do dinheiro pra você?
Tenho um senso de responsabilidade com as pessoas queridas. Não quero que minha família passe mais necessidade. Faltar dinheiro para comida ou remédio é muito foda. O resto é tranquilo. O bom é que as coisas que eu gosto de fazer custam muito pouco dinheiro. Gosto de tocar, não custa nada.

Você ganhou dinheiro com o Los Hermanos?
A equipe é grande, então não é uma quantidade de dinheiro que te possibilita ficar dez anos parado. A turnê do Bloco... deu prejuízo. A do Ventura foi bem-sucedida, e a do 4 rendeu uma graninha pra nós. O Barba tem um apartamento próprio, eu dei um para os meus pais, mas moro em um alugado. O Bruno comprou uma casa pra ele, o Rodrigo tem um dinheiro dele, mas não é um dinheirão.

Você já foi casado, né?
Já. Durante três anos. Mas a música é meio megera. Ela diz ou ela ou eu. Todos os discos dos Hermanos eu tive que me separar para poder compor. Eu me separava e depois compunha, me separava e depois compunha, todos. No Sou, inclusive. Eu separei pra poder compor. É punk isso.

Você é ciumento?
Sou bastante. Meu ciúme não é uma flecha, é um vulto. Tem a ver com possessividade, com querer a pessoa só pra você. Mas eu tento transformar em uma coisa boa, uma coisa bonita. Com a Mallu é pior, porque é a primeira vez que eu namoro uma pessoa famosa. Mas também não é nada preocupante, porque eu não sou besta de dar mole pra mim mesmo, né?

 

“É como se, quando ela [Mallu] tocasse, virasse eterna. Um universo inteiro”

Ela diz que o fato de passar a compor mais em português tem influência sua. No que ela te influenciou?
Na naturalidade de fazer as músicas. Ela tem um jeito muito especial de fazer as coisas de um modo menos pensado, e isso tem uma resultante estética muito bonita.

Como você era com a mulherada na adolescência?
Não fazia muito sucesso, não. Era na minha, não tinha muito êxito.

Sua vida sexual começou tarde?
Com uns 18, 19 anos. Foi meio tarde, mas só na faculdade eu fiquei mais saidinho. Eu era de uma ruazinha de Jacarepaguá e do nada fui para o universo da zona sul. Eu era diferente daquele povo. Não faltava vontade nem hormônios, mas eu não me dava bem.

O amor é o principal combustível das suas composições?
Quando falamos que o modo como você observa o mundo diz mais sobre o instrumento de observação do que sobre o objeto observado, eu tô falando também de amor. O amor é uma forma de ver o mundo. A minha tentativa em ser amoroso é também uma tentativa de ter amor pra mim.

Quais são as suas principais composições românticas?
Acho que “Janta”, que eu canto com a Mallu. “Dois barcos”, que é uma música triste do disco 4, e “Anna Julia”. Você não sabe a quantidade de Anna Julia que tem por causa da música. Um dia num táxi comentando isso com alguém o motorista gritou: “Minha filha chama Anna Julia!”. Eu respondi: “Fui eu que fiz a música”. E ele: “Mas fui eu que fiz a filha”.

Quais são suas músicas de amor favoritas?
Esse pessoal da música instrumental, a Guiomar, o Dilermando, a Chiquinha Gonzaga. Eles elevam o espírito, botam tudo nas nuvens. Mas música de amor é “Carinhoso”. Não tem pra ninguém. Na adolescência eu curtia o Weezer, um clássico da paixonite.

Você é romântico?
Sou. O meu irmão diz uma coisa bonita: a felicidade é um gesto físico. Tipo quando você faz carinho em um gato. No fundo você está fazendo carinho em você mesmo. O romance você cria com gestos românticos.

Qual a maior loucura de amor que você já fez na vida?
Poxa... mudar pra São Paulo. Morar aqui nesse lugar cinza e estranho [em tom de brincadeira]. Só pra ficar mais perto da Mallu.

A possibilidade de ela mudar para o Rio existiu em algum momento?
Estamos trabalhando essa ideia [risos]. Eu digo a ela que para quem trabalha com criação artística é muito interessante, porque promove uma contemplatividade do mundo.

Sua televisão é enorme. Você gosta de ver o quê?
Minha TV a cabo é meio banguela. Mas eu adoro National Geographic, History Channel. Na TV aberta adoro A grande família e Big Brother. Sou nível pay per view. Deste último eu não gostei muito, mas meu brother favorito é o Dhomini, porque ele é complexo, contraditório. Também torci muito pela Grazi.

O que você está lendo agora?
Estou apaixonado pela escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol. Ela é tão diferente de tudo que nem consigo classificar o que ela faz.

Li também que você adora Claudinho & Buchecha. Dos fenômenos pop nacionais, do que mais você gosta?
O Calypso eu demorei um tempinho para entender, porque eles utilizam um código diferente do que estou habituado. Adoro Claudinho & Buchecha, a Kelly Key. Funk carioca acho bom pra caralho. A estética daquela garotada é coisa de gênio.

E aí, achou a tal da sua brutalidade?
Deixei minha brutalidade naquela parede ali [mostra uma parece do escritório de seu apartamento, toda rabiscada, com traço forte em azul]. Talvez eu seja mesmo esse cara sensível e romântico. Pronto, pode escrever que eu assumo. Sou sensível, romântico mesmo.

Agradecimento Fundação Jardim Zoológico de Brasília www.zoo.df.gov.br

matérias relacionadas