por Luiz Filipe Tavares

Cantor e compositor fala sobre novo disco solo, Ludovic e amarras da vida adulta

O mineiro Jair Naves fez do cenário alternativo de São Paulo a sua casa. Em 2000, gravou o baixo em algumas faixas do disco Cobaia, último CD de uma entidade do rock paulistano chamada Okotô, liderado por Cherry Taketani. No ano seguinte fundou o Ludovic, que fez história no underground com seu "pós-hardcore pé-de-cana" único na cena da cidade, com quem lançou os excelentes Servil (2004) e Idioma Morto (2006). Com o fim da banda em 2008, passou dois anos se preparando para tornar-se o único artista solo a emergir do circuito pós-punk da capital paulista e caiu na estrada para mostrar sua evolução como letrista, cantor e compositor.

Depois de lançar o elogiadíssimo EP Araguari em 2010, seguido por um compacto com as faixas "Um passo por vez" e "Minha cúmplice, minha irmã, minha amante" no ano passado, Jair fecha 2012 lançando seu primeiro álbum solo propriamente dito e o faz com um disco de nome praticamente imemorizável: E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas, disponível para download gratuito no Bandcamp.

Antes de voltar a excursionar com o novo material, o cantor de voz densa e canções urgentes encontrou um tempo para falar com a Trip a respeito de toda sua carreira, comentando o fim do Ludovic, a recepção do novo álbum, as temáticas sempre presentes em suas letras e até o filme O Caso dos Irmãos Naves. Dirigido por Luís Sérgio Person em 1967, o longa conta a história de Sebastião e Joaquim Naves, parentes distantes de Jair que, em uma armadilha das autoridades locais, foram condenados por crimes que não cometeram na cidade que dá nome ao primeiro EP do terceiro Naves mais famoso da família.

O Ludovic lançou seu último disco em 2006 e só agora está saindo seu primeiro álbum solo. Esse foi o período ideal de incubação para seu primeiro disco completo desde Idioma Morto?
Seis anos parece um tempo muito longo. Idioma Morto saiu em 2006 e começou uma turnê de divulgação de dois anos. Em 2008, porém, o Ludovic acabou no período de pré-produção do que seria o nosso terceiro disco. Eu até acho engraçado, porque se esse disco tivesse existido, ele seria algo parecido com meu primeiro EP solo [risos]. Depois que a banda acabou fiquei mais de um ano pensando se ainda queria fazer música e se voltaria a me dedicar a isso e tudo mais. Quando decidi lançar um novo trabalho usando meu nome, fiquei o segundo semestre de 2009 preparando Araguari, que saiu bem no comecinho de 2010. Precisei de um tempo para me adaptar a essa situação de artista solo, ainda mais por eu vir de um cenário onde não existia nenhum outro artista solo. Existem pouquíssimos artistas da cena a que pertenceu o Ludovic que trabalham em carreira solo. Acho que foi ótimo para mim lançar esse EP pois ele me deixou mais confortável nesse papel. Por isso, de certa forma, faz sentido que esse disco só tenha saído agora, até para que ele não fosse igual ao que fiz até hoje em minha carreira. Claro que ele tem um pouco do Ludovic e um pouco do EP e do single que lancei antes, mas ele segue por um caminho bem diferente. Então acho que essa conexão se deu no tempo certo sim.

E vocês chegaram a gravar alguma coisa dessa fase final do Ludovic? Existem algumas demos desse disco perdidas por aí?
Eu sei que existem algumas demos sem voz desse período. A gente chegou a tentar fazer juntos a música “Araguari I” mas não deu muito certo, porque já era bem diferente do que o Ludovic vinha fazendo. Então a gente tem coisas guardadas, mas nem tudo ali é digno de orgulho [gargalhadas]. Foi uma fase muito confusa. Era final de banda e não estávamos no melhor estado para trabalharmos juntos. Tem algumas coisas perdidas sim e pode até ser que a gente lance algo no futuro, mas não sei se seria uma boa ideia...

Por quê?
Não dá pra dizer que a gente nunca vai retomar nada disso, mas esse foi um material muito pouco trabalhado, só com o esboço das músicas. Então acho que não faria muito sentido lançar essas coisas. Penso que seria até um desserviço à visão que as pessoas tem da banda. Sempre que alguém fala sobre isso comigo eu penso nos Stooges. Até o terceiro disco de estúdio (Raw Power, de 1973), eles tinham uma das discografias mais perfeitas da história do rock. Aí eles voltaram em 2007 e lançaram The Weirdness, que é um disco bem ruim. Isso maculou a imagem da discografia deles. Então tem coisas que é melhor deixar como estão mesmo.

Como foi o processo de produção do primeiro álbum e quais as maiores diferenças dele para o Araguari?
Foi um disco mais pensado e mais colaborativo. O Renato Ribeiro (guitarrista) e o Thiago Babalu (baterista) estão comigo desde o começo desse projeto e o disco tem muito deles também. A princípio era para ser um disco ao vivo, mas como nós não tínhamos baixista na época e o Alexandre Molinari - que acabou gravando o baixo - tinha acabado de entrar, optamos por não gravar ao vivo. Gravamos algumas bases com todo mundo junto e deixamos o baixo separado para gravarmos com mais calma. Isso foi uma diferença muito grande para o Araguari, que foi um disco onde eu não me sentia tão seguro ainda e que gravei praticamente sozinho, tirando a bateria e o piano. Esse é um disco um pouco mais orgânico e mais urgente, que foi produzido em um período muito menor do que o EP. Araguari foi mais calculado entre execução e composição. Foi um disco que serviu para me mostrar que eu podia continuar fazendo música e seguir um caminho totalmente diferente do Ludovic.

Falando em Araguari, não dá para falar da cidade sem falar do filme O Caso dos Irmãos Naves. Qual a sua relação familiar com José e Joaquim Naves?
Eles eram primos da minha avó paterna. A família do meu pai é toda de Araguari. Ele faleceu quando eu tinha uns dois ou três anos de idade, então acabou que nunca consegui pesquisar essa relação a fundo. Mas ainda que não fossem meus parentes diretos, o filme foi uma coisa que me deu um estalo muito grande. Eu vi esse filme logo depois que o Ludovic acabou, em um período que eu estava tomando coragem para me lançar por conta própria. Quando eu vi o filme sofri um impacto emocional muito grande. Foi através dele que eu me lembrei de uma série de paisagens onde eu passei a infância. Ali eu vi muito das minhas irmãs e do meu pai. A história toda é muita forte. Foi um estalo mesmo. Até por isso coloquei alguns pedaços de audio do filme entre as músicas do EP como forma de agradecimento.

 

"A vida adulta em si já é algo que faz com que eu me sinta preso e limitado, sem as liberdades que eu gostaria de ter"


E é uma história que ainda paira sobre a cidade de Araguari, mesmo tendo passado 70 anos desde que aconteceu tudo aquilo...
Com certeza. Esse é um caso emblemático da Ditadura Brasileira na época do Estado Novo. É importante a gente falar sobre isso para evitar que algo assim volte a acontecer novamente. Casos de abuso policial, tortura e de julgamentos arranjados acontecem até hoje. Eu fico feliz por muita gente ter conhecido esse episódio e o própio filme por causa do EP. Então me sinto orgulhoso por ter podido participar disso de alguma forma.

A busca pela libertação é um tema recorrente na sua música e se reflete diretamente no nome do novo disco. O que faz você se sentir tão preso?
O cotidiano da vida adulta é uma coisa cheia de amarras, que vem cheio de responsabilidades. E eu vejo isso não só na minha vida mas também na rotina dos meus amigos e das pessoas que tem a minha idade e que cresceram comigo. Então a vida adulta em si já é algo que faz com que eu me sinta preso e limitado, sem as liberdades que eu gostaria de ter.

Expressar esse sentimento de prisão através da música é de alguma forma libertador pra você?
A música é uma válvula de escape poderosa para isso. Sempre fui muito tímido e reservado, então tenho certos lados emocionais que só consigo abordar dessa forma. Só me sinto confortável e seguro pra falar sobre isso quando o faço dessa maneira. A música para mim é libertadora sim. Não só o ato de compor, mas os shows também. É ao vivo que rola essa carga terapêutica pra mim.

É fácil reconhecer o Jair do Ludovic nesse novo disco, especialmente nas passagens mais angustiadas. Como você vê o trabalho de sua antiga banda hoje e quais as principais lições que o Ludovic te ensinou?
Me orgulho do trabalho que fiz com o Ludovic. Foi um aprendizado enorme. Tudo era feito de forma muito romântica e muito ingênua. Acho que em alguns momentos a gente poderia ter sido um pouco mais profissional. Várias bandas passaram por isso. Tocar, pra mim, é a coisa mais mágica e motivadora que existe. O Ludovic foi uma banda muito intensa e que tocou de certa forma as pessoas que a conheceram. Pô, a banda acabou em 2008 e até hoje as pessoas lembram dos nossos shows mesmo em uma época onde tudo é tão efêmero quanto hoje. Então fico feliz que a banda seja lembrada com tanto carinho. Me orgulho muito do que fizemos. Tem coisas que hoje eu acho meio sem noção [gargalhadas]. Mas ainda assim consigo entender e curtir.

Veja abaixo "Pronto para morrer (o poder de uma mentira dita mil vezes)", primeiro clipe vindo do novo disco de Jair Naves.

Vai lá: http://jairnaves.bandcamp.com

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