por Marcos Candido

Num acidente de bike, a mão de Fabio Mendonça ficou presa embaixo de um ônibus. O publicitário aproveitou para se transformar em uma nova pessoa – e pretende encarar a Transamazônica no pedal

Num acidente de bike, a mão de Fabio Mendonça ficou presa embaixo de um ônibus. O publicitário aproveitou para se transformar em uma nova pessoa – e pretende encarar a Transamazônica no pedal

 

Há três anos, o publicitário Fabio Mendonça, 46 anos, pedalava até o trabalho, na zona oeste de São Paulo, sem desconfiar de que estava prestes a reconfigurar a relação emocional e física que até então cultivava com o próprio corpo. Passava da hora do almoço quando um ônibus, em cruzamento, atingiu ele e sua bicicleta. Fabio foi lançado em direção às rodas traseiras, e sua mão direita ficou presa embaixo das dezenas de toneladas do veículo. “A primeira reação, claro, foi de desespero”, relembra. Após meses de cirurgia, os médicos anunciaram que um dos dedos do publicitário teria de ser amputado, o indicador. Os outros foram reconstruídos, mas ficaram
com movimentos limitados. “A partir daí, tive que me adaptar à condição, e também à oportunidade rara de viver sob um processo que muitas pessoas não costumam passar: a de se transformar em
uma nova pessoa”, diz. 

Fabio é um dos diretores da O2 Filmes, uma das produtoras de audiovisual mais premiadas do país, e também artista plástico por formação. Já dirigiu filmes para grandes marcas internacionais e nacionais e, em 2013, ganhou um Emmy Kids com a série Pedro e Bianca, exibida pela TV Cultura. No cinema, foi premiado no Festival do Rio com Curupira, seu curta-metragem de estreia, de 2004, e em 2014 estreou um longa na tela grande, A noite da virada. O retorno à rotina puxada de criação foi tecnicamente simples. “Apesar das dificuldades normais de adaptação, me tornei canhoto rapidamente. Há deficiências que debilitam mais do que a minha”, avalia Fabio. Para o próximo ano, ele se prepara para assumir a cadeira de diretor em um novo seriado a ser exibido no canal fechado GNT.

Foi a bicicleta que precisou ser submetida a uma reformulação total. “Transferi todos os comandos de câmbio e freio para a mão esquerda e, como já não tenho muita força na direita, tenho um velcro que melhora a minha pegada no guidão”, conta Fabio, que passou a andar mais em trilhas, de mountain bike, do que na cidade. Em setembro, ele pretende usar a bicicleta para pedalar – e filmar – mil quilômetros da Transamazônica, passando por alguns dos trechos mais inacessíveis da rodovia, de terra batida. “Hoje, olho para trás e penso que o acidente com a mão me ensinou a viver novamente. Parece que eu subi alguns degraus, sabe?”

Em uma camada menos prática da vida, a mão de Fabio o envolveu em um olhar mais introspectivo, espiritual até, sobre sua própria condição no mundo. “Posso dizer que houve um fortalecimento pessoal no qual alcancei um estado de compreensão da vida e da condição do próximo – me tornei uma pessoa mais solícita, mais caridosa”, reflete. “Quase ‘agradeço’ ao amadurecimento que minha nova condição me legou. Entrei em um estado constante de fortalecimento de mim.”

Créditos

Imagem principal: Luiz Maximiano

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