por Bruno Torturra Nogueira

Autor do disco mais elogiado do ano declara: “Todo mundo tem fome. Se não é de feijão e farinha, é de amor”

Autor do disco mais elogiado do ano, incensado pela crítica e por uma devota massa de fãs, indicado a cinco prêmios no VMB, shows abarrotados. Criolo está por cima, não se discute. Mas o seu o sucesso é tudo, menos repentino. Está apenas colhendo os frutos de mais de 20 anos de rap – e 35 de uma dedicada e improvável história de educação em família

Você pergunta. Mas não encontra uma resposta pronta. E sim uma incontida fala ornada de poesia, difusa e um tanto disléxica. Um flow caudaloso de imagens, gestos, pausas dramáticas, recorrências e repetições que não denota um MC experiente – o que, de fato, Criolo é. Parece mais o lapidado sintoma de um homem angustiado. E não serão shows apinhados, fãs de todos os orçamentos, elogios rasgados e impressos, discos esgotados, uma capa da Trip ou um dueto com Caetano Veloso que vão acalmar, um pouco que seja, sua alma trêmula. Porque toda essa atividade sísmica na psique de nosso entrevistado não diz respeito a fama, dinheiro ou prestígio. Tem a ver com... carma?

Porque, cá pra nós, talvez essa angústia tenha começado há muito tempo, antes mesmo de Kleber nascer. Quando sua mãe, a dona Vilani, era só uma criança correndo com um pedaço de carne crua embrulhado no jornal do dia anterior. Ela tinha que chegar logo em casa, antes que o sangue manchasse todas as letras no papel e nada mais fosse legível. Era como ela matava sua fome por leitura e completava, autodidata, sua alfabetização. Já que não havia escola, nem livros, nem dinheiro... e a embalagem era a única coisa com palavras impressas disponível na região carente do Ceará. Escritos que ela decifrava a duras penas, comparando com seu nome (tudo o que sabia escrever quando seu pai morreu) e deduzindo as demais letras, depois sílabas e palavras. Hoje, ao escutar sua mãe descrevendo essa cena, Kleber tem os olhos empoçados.

Mais do que música, é essa improvável urgência o que Criolo nos oferece. Quando compõe, canta, improvisa ou, simplesmente, fala em uma entrevista. “Muito legal o que está acontecendo comigo hoje. Mas legal mesmo seria eu não sentir essa dor no peito”, ele diz, ao refletir sobre a repercussão de seu novo álbum, Nó na orelha. O disco rapidamente transcendeu as invisíveis, e agora menos rigorosas, fronteiras entre o rap nacional e a canção. Entre seus fãs antigos de rinhas e eventos de hip hop e um público mais amplo, menos aguerrido. Provocou um tiroteio de adjetivos generosos da crítica, que, refém de rótulos e preconceitos, enumerou não sei quantos “estilos” entre as dez faixas do disco. Muita gente, como se houvesse distinção, decretou que Criolo fez “a ponte que faltava entre o rap e a música brasileira”. Bobagem... Se ele fez alguma ponte nesse disco, foi entre sua história e um público cada vez maior – e mais carente.

“Todo mundo tem fome. Se não é de feijão e farinha, é de amor”, filosofa. E com isso explica um pouco do que está por trás da unanimidade que a canção “Não existe amor em SP” alcançou. A música nem deveria estar no álbum. Foi feita de repente, melodia e letra, enquanto esperava os atrasados produtores do disco, na porta do estúdio El Rocha. A letra que fala sobre o abismo entre a cidade e as pessoas, sobre a solidão de viver entre milhões de desconhecidos, evocou um amor mais difuso, espiritual – e tocou muita gente. Foram mais de 200 mil downloads em três meses, versões na voz de outros artistas. Canção, disco e clipe de “Subirudoistiozin” lhe renderam cinco indicações para o VMB, entre elas disco e artista do ano. Além do convite para dividir o palco da cerimônia em um dueto com Caetano Veloso e um coro emocionado em todo show.

Rajneesh do Grajaú
Até pouco tempo, ele era Criolo Doido. MC de boa quilometragem em São Paulo, um dos fundadores da Rinha de MCs, tradicional duelo de rappers bons de improviso, e voz frequente no Pagode da 27, samba comunitário de seu bairro, o Grajaú, na zona sul da cidade. Mas, Doido ou não, Criolo estava em crise. “Me questionava se eu deveria continuar no palco”, ele confessa, “se eu não tinha outras formas de colaborar. Foi quando Marcelo Cabral veio com a ideia de gravar algumas músicas do amigo. Até para não passar batido.” Sem pretensão, do começo ao fim, o projeto tomou corpo.

Curiosamente, o disco é fruto de tudo, menos dessa tal falta de amor em SP. Sem gravadora, orçamento super-reduzido, Criolo virou apenas o talento ao redor do qual gravitou muita gente que... amou o projeto. E estava a fim de ajudar sem esperar muito em troca. Cabral convidou Ganjaman para coproduzir a bolacha. Músico experiente, rodado no mainstream e no underground, Ganja entendeu logo o que tinha na mão. “Eu faria na boa um disco tradicional de rap. Mas quando ele cantou umas músicas vi que era um material rico pra cacete. Que tinha espaço ali para arranjos de banda mesmo.”

Ganja hospedou o cantor em sua casa, e trabalharam duro. Alistaram alguns dos melhores músicos de São Paulo. O único selo que acompanha o disco independente é o da Matilha Cultural, um coletivo de São Paulo do qual Cabral faz parte e que reúne artistas e ativistas em torno de diferentes causas. Entre elas, apoiar a gravação do que muita gente está chamando de melhor disco do ano. Sem verba de divulgação, com uma assessoria de imprensa voluntária, foi na rede que as primeiras faixas de Nó na orelha correram como rastilho de pólvora.

“Legal esse momento que estou vivendo. Mas legal mesmo seria não precisar cantar o que canto. Sentir essa dor no peito”

E seus shows ganharam não apenas uma finíssima banda, mas um público mais heterogêneo e devotado. É ao vivo, arrisca o repórter, que se entende melhor os tantos holofotes sobre o rapaz. Ele tem real domínio do público e de sua voz. Sabe se colocar ao mesmo tempo como líder e como um mero membro de uma súbita congregação. Mesmo entre boleros, raps, afrobeats, covers de Nelson Ned, é difícil não pensar que paira sobre as mãos erguidas e as vozes em uníssono um ar de culto, de igreja. Criolo não assume, nem é besta de admitir, a presença e o pique de profeta. Mas, por conta de frequentes, e sinceros, arroubos metafísicos e hiperbólicos, o rajneesh do Grajaú ganhou entre os mais chegados o apelido de Criosho.

MC, intérprete, compositor, artista 24 horas de plantão... Papéis cada vez mais públicos que ele assume. Exceto um, que ocupou 12 anos de seu currículo: professor. Dando aulas de arte em escolas ou no delicado papel de arte-educador, em que tentava a difícil primeira abordagem a menores de rua. “Não gosto de falar sobre isso”, desvia, “não quero parecer que estou me promovendo em cima disso.” Mas foi essa vocação, sonhada desde criança e herdada de sua mãe, que parece ter um papel inevitável em sua poesia e sua visão do mundo. E o contraste radical entre o amparo, a educação e os valores que aprendeu em casa e a carência, o egoísmo e o descaso que testemunhou nas ruas é o que parece ter criado essa urgência que construiu o homem angustiado, o MC de verbo farto, o artista de que todos falam. E o entrevistado a seguir.

Você canta desde os 13 anos. São mais de 20 anos de carreira, um nome consolidado no rap nacional. Mas com o lançamento do Nó na orelha seu som chegou para muito mais gente. É estranho esse sucesso “súbito”?
Quando eu comecei com 12, 13 anos de idade, não pensei que alguém fosse me escutar. Eu sempre fiz tudo por amor ao rap e por uma vontade muito grande de contribuir. Eu cantava porque tinha necessidade de expressar uma dor que eu sentia, e ela perdura até hoje. Mas é totalmente diferente de uma pessoa que entrou nessa pra fazer sucesso. Tanto que, até pouco tempo antes do disco, eu me questionei se deveria continuar subindo no palco. Se minha construção de texto, de ideias, ainda iria evoluir. Se não tinha outras formas de contribuir. Porque o MC no palco é só a ponta de um iceberg. Foi nessa época de questionamento que nasceu o Nó na orelha. De um registro de um cara que iria deixar os palcos. Sem dor nenhuma, com o maior orgulho. Veio da vontade de amigos que ajudaram a criar uma situação para eu ir ao estúdio não deixar esse material passar batido. E a coisa foi virando, ganhando corpo. E agora estamos vivendo este momento tão legal, o reconhecimento, esses músicos maravilhosos que estão perto de mim. Mas legal mesmo seria eu não precisar cantar o que eu canto.

Como assim?
Legal seria eu não sentir essa dor no peito. Eu faço música porque eu tô desesperado! Porque eu não me ponho à parte. Eu sou povo, sou do Grajaú. Tenho orgulho das pessoas que lutam por lá. Vou fazer 36 anos e vejo o quanto o mundo ainda está sofrido. Então só paro se alguém me matar. Porque eu sinto essa urgência de conversar com as pessoas. E eu acho que a música abre um diálogo. De certa forma, você não se sente só. Tem gente me escutando porque eu tô há 20 anos nessa. As pessoas vão esbarrando em mim. Um foi há dez anos, outro há 15 anos. Quando alguém fala que eu sou maravilhoso, ou me xinga, é porque estabeleceu um diálogo. É mágico isso! Não precisa glamorizar, inventar que estou fazendo sucesso agora.

Não é uma questão de glamour. mas quando esse diálogo ganha escala Deixa de ser tão pessoal.
Por um lado sim. Mas a mensagem passa e a gente cria uma ponte. Porque está todo mundo passando fome. Essa é a verdade. Estamos todos morrendo de fome. Seja de feijão com farinha, seja de amor. Por isso essa atenção toda, essas coisas que vêm acontecendo. Mais do que nunca hoje a arte é uma coisa buscada, valorizada. Porque o lúdico, a magia da comunicação, isso supre uma fome das pessoas.

Mas a exposição, foto no jornal, jornalistas te chamando de gênio... Você não acha esse hype meio perigoso?
Quando te elogiam demais você acaba arrumando inimigo sem saber. Peço desculpa a todos. Mas eu não estou em busca de elogios. Só faço música com o coração. Se um dia fizer outro disco vai ser com a mesma intensidade, com o mesmo amor que eu fiz esse. O que as pessoas falarem eu vou respeitar, é a opinião delas. Mas também não posso reclamar de uma pessoa que tá me mandando uma energia positiva. O irmão fez um elogio pra mim, ele tá emocionado, se identificou, muito obrigado! Receber um elogio, com tanta gente maravilhosa que tem feito música no Brasil, já é muita coisa.

Mas você sente seu ego sendo testado por conta disso?
O ego é o que mata o homem... Se cair nessa eu danço, porque a expectativa é do outro, então você vai sempre decepcionar. Se eu sou uma pessoa especial? Pro seu Cleon e pra dona Vilani, eu sou especial, porque sou filho deles. Mas quando subo no palco, as pessoas cantando junto, eu sei que cada um tem uma história e que poderia gastar seu tempo com qualquer outra coisa. Mas eles estão ali. Com essa vontade de estar junto. Então seria muita burrice achar que isso é por minha causa apenas. É uma multidão que faz tudo isso acontecer. Mas é claro que aí tem outro lado... Da superexposição, da supervalorização da arte. Porque lógico que já criaram um comércio disso. Óbvio. Os caras meteram cream cheese no temaki!

Cream cheese? No temaki?
Vamos fazer essa analogia bobinha. Meteram cream cheese no temaki, sabe o que isso significa? Que toda arte milenar que envolve esse prato, toda a cultura, a história dessas pessoas... não importa. Porque o que interessa é vender. Não tá ligado na tradição, na origem das coisas, não gostou do sabor? Mete cream cheese no bagulho. E assim vai indo tudo. E a gente consome. Esse é o risco quando massificam qualquer coisa. Quando essa informação da origem, da verdade das coisas não chega, em vez de bater em quem não recebeu a informação e consome, tem que questionar quem não deixou essa informação chegar.

Mas você corre esse risco cream cheese?
Todo mundo que tá se aproximando por enquanto vem porque se identifica. Eu não tenho poder de lobby, não tenho grana. Eu tenho uma carreira de 23 anos, sempre fui na contramão de holofote, na contramão de um caminho só para aparecer. Eu sei a minha origem. Lá no Grajaú ninguém vai perguntar de onde você veio, como você chegou lá. Se tá na hora do almoço, você vai almoçar. Se tiver frio, alguém vai dar um agasalho. Quando eu falo que “Não existe amor em SP”, é mais ou menos isso. O amor tá naquilo que as pessoas têm vergonha de ver, na delicadeza. Não na cidade, nas prioridades do sistema.

“Todo mundo está passando fome. Seja de feijão com farinha, seja de amor. Por isso a arte é tão valorizada”

Quais são essas prioridades?
O ser humano é a última coisa com que as pessoas se preocupam. Carros, celular, roupas sofisticadas. Isso tudo não é para os seres humanos, é pra alguém consumir e gerar grana, pra quem tem grana continuar com grana. Os seres humanos são meros detalhes nessa esteira. Eles devem amar aquela parte bíblica do crescei e multiplicai-vos. Porque, quanto mais gente, mais vão consumir.

Muita gente acredita que esses levantes no mundo todo acontecem porque as pessoas estão começando a perceber que esse sistema não está mais funcionando.
Acho que nunca funcionou. Aos poucos as pessoas vão acordando. A tecnologia ajuda nisso. As pessoas estão se comunicando. Os pensamentos comuns meio que acabam se encontrando no universo virtual, e isso tá fazendo coisas acontecerem. Um cara que sente uma coisa, aí ele lê um texto de uma pessoa que se identifica, faz uma conexão, e de repente tem uma rede de pessoas que se articulam e a coisa acontece. Mas, ao mesmo tempo, eu também acredito que tudo que está acontecendo é porque eles deixam. São válvulas de escape, tipo: “Vamos deixar eles acharem que podem protestar, só pra não ficar incomodando tanto, depois a gente retoma tudo como antes”.

Mas a diferença hoje em dia é que as coisas parecem estar saindo um pouco do controle, não?
Acho que não. Quem tem o poder tem o controle. E eles sabem que tem que existir uma ideia de esperança. Senão você é uma planta sem sol. O jovem sem esperança não tem força para trabalhar. Se você não trabalha, não mexe com a economia. Eles precisam de um cidadão minimamente pseudofeliz que continue consumindo.

 

Mas você não está simplificando, resumindo demais um inimigo? Quem são “eles”?
Eu sei que existem, mas eu nunca cheguei perto. O rosto não vai aparecer nunca. Vamos então pegar o nome de dez empresas que dominam o planeta financeiramente. Pode ser a própria ideia de corporação. Porque o ser humano nesse processo não existe. Só importa a corporação, o lucro. “Eles” é essa ideia. Essa fome, esse desespero, a loucura, a insanidade de nunca “tá bom”, nunca ser o suficiente. Gente gananciosa que vive em outro planeta. Eles não enxergam um ser humano, enxergam um consumidor e um trabalhador. Porque, se vissem seres humanos, Belo Monte jamais aconteceria.

Mas, falando em corporação, seu clipe foi uma parceria com a Nike, mostra os tênis etc.
Eu não estou à parte de tudo. Senão eu teria que andar vestido com uma saca de café e calçando garrafas PET. Eu fiz uma ação de marketing, mas não tenho contrato. Mas eu sei quem eu sou. Uma coisa é se deslumbrar, outra é criar mecanismos pra você trabalhar e sobreviver minimamente. Foram pessoas, seres humanos que se identificaram. E isso ajudou minimamente a pagar aluguel de equipamento. E é maravilhoso te falar isso porque quase ninguém iria saber. Todos os profissionais envolvidos cobraram um quarto do que esse clipe custaria. Foi pela vontade de participar, de colaborar para a mensagem passar para a frente. Mas a economia não vai mudar porque minha música está sendo mais escutada. Não tem jeito.

Escutando você, dá a impressão de que você não vê muita saída para o mundo.
A gente vive em um mundo em que pessoas morrem de frio, de fome na rua. Que desmatam o que resta de floresta. O planeta morrendo e de alguma maneira a gente não entra em pânico. O absurdo virou a regra e a sanidade, a exceção. Tanto que quando você vê um grupo ou uma pessoa fazendo algo em prol dos outros, sem esperar muito em troca, isso toca a gente de um jeito emocionante. E muitas vezes basta para você acreditar que alguma coisa tá mudando... Isso é uma desgraça emocional! E não é que eu não veja saída. Mas é que eu sinto que as pessoas são educadas para não pensar. Vou dar um exemplo. Quando falo que tem as oficinas abertas de xadrez no Grajaú, as pessoas ficam abismadas. “O quê?! Xadrez?!” Quando falo que tem um café filosófico no Grajaú, eles se assustam. Isso é uma agressão pra mim. É que no mundo deles eu não penso. Porque todo mundo, rico, pobre, não interessa... todo mundo foi educado para ser engrenagem.

E você sente que escapou disso?
Eu não leio muito. Li 3% do que minha mãe leu. Tenho dificuldade. Não sei tocar um instrumento musical, sou péssimo em matemática. Eu só tirava nota C. Não ia muito bem na escola, mas ia muito bem em me relacionar com as pessoas, meus amigos. Mas é que não conta relação humana no currículo. Eu aprendi em casa a importância disso. Tendo exemplos de sensibilidade, de muita solidariedade, de carinho com os outros. E aprendi assim a ver que a gente é mais do que o que está posto pela sociedade.

E isso não é levado em consideração na escola?
Dentro das escolas públicas, por exemplo, nós temos professores maravilhosos. Pessoas comprometidas, sensíveis, que lutam pra caramba por amor ao ensino. Mas aí vem o governo de São Paulo e tira filosofia do currículo, por exemplo. Depois como você quer cobrar sensibilidade das pessoas se você não a oferece? É triste... Mas, se você pensar, a escola só deixou de ser coisa de elite e se tornou pública com a revolução industrial, pra formar operário. Mas vai além disso. É importante a gente falar de escola? É claro que sim! Mas é muita inocência a gente falar de escola num país onde até a saúde é comércio. Se a sociedade não tem sensibilidade nem para lidar com a saúde, vai ter para tratar de educação?

Você também tem uma história como educador. Como foi essa experiência?
Dura, muito dura. Eu trabalhei com criança e adolescente por 12 anos. Uma coisa é você saber das coisas que acontecem, outra coisa é você estar lá. Porque minha função muitas vezes não era dar uma aula, ensinar. Era na rua mesmo, fazer a primeira abordagem, criar um vínculo. Abrir um diálogo. Mas eu nem gosto de falar sobre isso, não acho legal.

Por que, deixa você triste?
Não é isso. Mas eu respeito tanto esses professores compromissados, os arte-educadores, esses heróis que fazem a abordagem na rua, que eu omito minha história para não parecer que estou usando isso de alguma forma, que uso esse personagem para divulgar meu trampo. Eu não acho que as pessoas precisam saber disso pra julgar minha música, minha mensagem.

Mas a gente não está falando da sua música apenas. Você mesmo diz que o palco, o disco, são a ponta de um iceberg. Não é importante falar da sua história, das coisas que você aprendeu?
Certo... isso veio dessa vontade que aprendi com minha mãe, dessa sede de aprender e ajudar os outros. Desde criança eu passava na frente de escola e ficava imaginando que um dia eu queria dar aula ali... Um dia eu tornei esse sonho realidade e virei arte-educador. Trabalhei com ONGs, em projetos da prefeitura. O trabalho era abordar as crianças, os adolescentes, criar uma relação para poder perguntar se o moleque precisa tomar um banho... comer... se quer uma muda de roupa. Sem ofender, descobrir se ele sabe onde está sua família. E acompanhar. Descobrir o porquê de aquela criança estar na rua. Se a família tem estrutura para receber essa criança de volta. Muitas vezes não tem... Não é um trabalho fácil. Por isso não gosto de falar, entende?

Algo bem mais básico do que simplesmente ensinar.
Por isso digo que educação é, antes de mais nada, um ato de amor. Abrir um vínculo, minimamente, de um modo que não incomode, porque a rua é a casa dele. Você que é o de fora. Precisa de muita coragem para se dar conta de que você está na frente de um indivíduo, que ele está vivo. Para viver essa ilusão de achar que está colaborando de alguma forma, aceitar o desfecho de um caso, a realidade das coisas básicas da vida... E, com sorte, encaminhar essa pessoa para... eita, meu Deus... esse mundo que está posto. Esse mundo que pensa que prendendo ou batendo na cara de um menino de rua vai resolver o problema de armas e drogas no Brasil. Eu falo isso com dor no coração. Muita gente vai falar que sou pessimista, ranzinza. Mas também posso falar de zilhões de pessoas que estão na luta pra tentar mudar isso, e não querem holofote. Fazem a mudança é dentro de casa.

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Escola Maternal
Escritora, filósofa e mãe. Dona Vilani explica por que a lição mais importante de todas é o amor ao conhecimento

Esta entrevista poderia correr por horas. E correu, de fato, entre a hora do almoço e um jogo da seleção brasileira. Mas, quanto mais Criolo falava sobre educação, mais ficava claro que para entender sua real relação com o tema da presente revista o lugar adequado não era o agradável bar do Biu, em Pinheiros, onde esticamos o almoço. O certo era o Grajaú. Mais especificamente na salinha da escola estadual onde trabalha dona Vilani. Professora, filósofa, escritora – e mãe de cinco. Incluso nosso Kleber.

O verbo de dona Vilani é quase a antítese do filho. Calmo, construído em um discurso tão equilibrado e coerente que sai como um texto. Exala a paciência típica das tutoras de vocação que, no caso dela, beira a virtuose. Didática, em palavras e exemplos, a história e a rotina dela jogam luz sobre alguns dos mais reais, óbvios e ainda assim ocultos problemas da educação nacional. Faz elogios à escola pública, que formou não só ela, mas toda a prole. Dois, além de Criolo, se tornaram professores. Pensa sobre o descaso dos pais, e do país, na hora pensar a educação. “É muito fácil jogar a culpa na escola”, ela diz, “mas ninguém quer ensinar que o conhecimento não serve para ganhar dinheiro. Serve para nos tornar humanos.”

“É um trabalho que dura a vida toda. Precisamos entender que estamos em constante formação. Para educar o outro, temos que educar a nós mesmos.” E educar a si mesmo é algo que dona Vilani tem autoridade para falar. Desde sua autoalfabetização, ela nunca mais parou. Nem de estudar nem de dividir conhecimento. Primeiro com os filhos, depois com a comunidade. Organiza saraus de poesia, um café filosófico, já abriu a sala de casa para um cursinho pré-vestibular voluntário, completou o ensino médio com o filho Kleber, formou-se em filosofia, virou professora e hoje segue na escola atendendo alunos. Depois de anos na lousa, voltou ao básico para ajudar crianças e jovens em dificuldade. Hoje, para ensinar, ela escuta. E, para a Trip, ela fala.

Qual o seu papel aqui na escola?
Dona Vilani: Trabalho como professora pública há mais de 18 anos. Em 2005 passei a ter dificuldade pra escrever. Descobri que estava com uma doença chamada distonia. O médico disse que eu deveria me retirar da sala de aula, porque eu não poderia mais escrever na lousa. Eu entrei em pânico! O que eu ia fazer da minha vida? Aí me ocorreu uma coisa. Eu estava estudando para especialização em filosofia clínica, que é a filosofia adaptada à psicoterapia. Então resolvi fazer um projeto, aqui na escola, pra não ficar longe do aluno, que tem o objetivo de ouvir o aluno e tentar entendê-lo como parte do processo educativo. Tem gente que cria passarinho, cuida de samambaias… eu gosto de gente. De entrar na subjetividade de cada um, tentar entender cada ser como ele é.

Explique melhor.
Eu observei ao longo da minha vida que o professor briga com o aluno, manda pro coordenador, que briga com o aluno e chama o pai, que por sua vez briga com o aluno. Nesse processo é muito difícil alguém escutar e entender o problema do aluno. E não é que as pessoas não querem ouvir, elas não têm tempo. Aí pensei: por que eu não faço isso? No começo eu via os alunos que estavam com dificuldade de aprendizagem, ia de sala em sala chamando um por um para conversar. Hoje os alunos já me procuram sozinhos, eles querem ser ouvidos.

Qual você acha que é o principal problema deles?
O grande problema é incompreensão na família. Justamente por essa questão de não serem ouvidos. Semana passada, por exemplo, eu deixei o pai com o filho na minha sala e falei: “Vocês precisam conversar”. Quando voltei o pai chorava copiosamente, e eles estavam abraçados. Isso é uma vitória enorme. Veja, minha experiência é periferia, morei a vida inteira aqui. A luta pela sobrevivência engole as pessoas. As pessoas priorizam mesmo trazer o feijão pra casa. E felizes os filhos que têm os pais que batalham pelo feijão, porque muitos infelizmente nem isso têm. É um distanciamento daquilo que é ser família, essa coisa humana, da compreensão, da aceitação do outro, do diálogo. Meu trabalho hoje é promover isso.

É um papel que não é tradicionalmente da escola.
Os professores me chamam de psicóloga, mas sou uma professora que gosta de escutar. Eu não tenho essa preocupação com a cura, diagnóstico. A gente está quebrando umas barreiras. É um trabalho muito simples, de descobrir onde o problema está, buscar ajudar como posso, e colocar aquela criança, aquela família, em uma condição melhor. Não financeira, mas emocional. Isso está na base da educação. É muito gostoso, e um pouquinho cansativo às vezes. Quando você escuta a dor do outro, acaba carregando um pouco dela. Imagina uma criança dizendo que nem o pai a quer. Nem a mãe, nem a tia, nem a avó... sO que eu posso dizer a ela? Às vezes dói.

Então conta um pouco como foi a sua própria educação.
Ih, meu filho. Você tem tempo? [Risos.] Assim... logo cedo minha mãe foi embora de casa. Então ficaram eu, meu irmão e meu pai. Meu pai era um homem trabalhador, cheio de talentos. Mas quando ele faleceu eu tinha 8 anos. E fui morar com a esposa do meu irmão mais velho. Até tentaram me matricular no grupo escolar, mas ela tinha um filho todo ano. E quem cuidava das crianças era eu. Não dava pra estudar. Então tive que me alfabetizar sozinha.

“O conhecimento serve para nos tornar mais humanos. É simples ”

Como foi isso?
Meu pai, antes de morrer, me ensinou a escrever o meu nome. E ele sempre me punha no colo e lia muitas histórias pra mim. Isso abriu meu interesse pela leitura. Aí, um dia, escutei um poema do Manuel Bandeira. Era a coisa mais linda! Aquele dia eu me apaixonei e não teve volta. Depois que eu cuidava das crianças, me trancava pra ler. Naquele tempo a carne vinha embrulhada em jornal do dia anterior. Eu vinha correndo do açougue pra não passar o sangue da carne pro jornal. Pegava o meu nome e ficava tirando as letras do jornal, fazia uma salada. E aprendi. Casei, vim embora pra São Paulo, tive quatro filhos, adotei mais um. Aí, quando fui colocar o Kleber no ensino médio, acabei me matriculando também. Fizemos os três anos juntos. Foi uma fase muito boa da vida. Virei uma atração na escola pela minha idade. Eu chamava o pessoal pra vir para minha casa no fim de semana pra estudar. Escrevi uma peça, meus filhos todos faziam parte do elenco. No segundo ano escrevi um livro como trabalho de arte. O pessoal me incentivou, acabei publicando. Era uma emoção estar sentada num banco escolar, tanto que até hoje não consegui sair da escola.

Foi quando decidiu ser professora?
Eu sempre fui apaixonada pelo conhecimento. E de certa forma sempre tive esse papel, mesmo em casa. E, se eu não tinha conteúdo para ajudar meus filhos, então eu tinha que buscar. E eu fiz isso por amor ao conhecimento e por amor aos meus filhos. Eu via no bairro como se comportavam as famílias, as crianças, a forma de falar, o linguajar. Não generalizando, mas havia certa grosseria no falar. Palavras que me desagradavam. Eu não queria isso pra eles. Mas depois do ensino médio, quando tive uma oportunidade, fui fazer filosofia. Aí me tornei professora da rede pública e nunca mais saí.

E qual a avaliação da senhora sobre a escola pública?
A escola pública tem professores maravilhosos. Eu saí da escola pública, meu filho que é professor saiu da escola pública, o Kleber saiu da escola pública, todos os meus filhos. O que acontece que escola pública é tão malfalada? Eu percebo que falta uma integração maior entre a escola e a família. A diretora faz convocação para uma reunião de pais, os pais chegam já querendo ir embora. Eles não querem ouvir sobre o filho.

A que você atribui essa distância?
Os pais do aluno da escola pública, não generalizando, precisam lutar mais pela sobrevivência. Claro que desgasta muito. Mas isso não justifica apenas... Porque nas escolas particulares também tem esse problema. As pessoas estão sempre correndo atrás de algo a mais. Eu tive uma senhora maravilhosa que cuidou de mim na infância. Ela era analfabeta, mas dizia assim: “O ser humano é uma vasilha que nunca enche”. Mais tarde no curso de psicanálise na USP entendi isso melhor com Freud [risos]. Ninguém mais lê em família ou se interessa pelo que cada um pensa. As famílias têm que pensar que feijão e arroz é muito bom, mas existem outras formas de alimentar. Nossa psique, emoções, tudo isso precisa ser alimentado. É isso que os pais precisam pensar. Não adianta jogar a responsabilidade toda na escola, sabe?

Você, que criou seus filhos e continuou educando adolescentes, sente que há uma diferença grande entre essas gerações?
Bastante. Eu acho que o professor, bem ou mal, era uma referência, os pais eram uma referência de conhecimento. Ainda se valorizava o mestre. Hoje é tudo instantâneo. Você liga o computador e não precisa de mestre para nenhuma pesquisa. Não há mais aquela preocupação de buscar diretrizes. Pela imaturidade intelectual do aluno, ele acha que não precisa dessa orientação.

E a escola está dando conta dessa transformação tão rápida?
Exigir da escola é demais. Toda sociedade deveria pensar nesse acolhimento. E não pode ser com palavras, tem que ser com ações. O grupo de que faço parte se reúne, todo primeiro sábado do mês, no café filosófico. É aberto pra todas as idades, alunos, donas de casa, pais de família. No outro sábado a gente se reúne para falar de questões do meio ambiente, refletindo qual o papel daquela comunidade no meio em que ela vive. No mesmo sábado tem o recital de poesia. É pouco, mas estamos dando exemplo. Pense você. Quantos filhos veem os pais estudando? Para muitas pessoas é perda de tempo.

Fomos educados assim?
Foi colocado implicitamente que o conhecimento é para você ganhar dinheiro. Aí o aluno estuda, estuda e não ganha dinheiro. Aí vem a frustração. Quantos caminhos tortuosos essa molecada vai seguir, exatamente por isso, por não poder comprar necessidades criadas, incentivadas pela televisão? É muito triste ser frustrado, imagina pra uma criança.

E para que serve, então, conhecimento?
Eu digo aos alunos que nós fomos programados para o conhecimento, pois somos dotados de razão. O objetivo do conhecimento é nos humanizar. Desde o jardim de infância tem de avisar o aluno que ele tem de estudar para se tornar gente. Aí está o X da questão. Quem busca o conhecimento se torna mais humano. Aquele que não busca se embrutece. É muito simples.

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O homem da capa

Para ajudar a conceber a arte de uma de nossas capas do mês, não havia nome melhor do que Alexandre Orion. Conhecido por seus stencils, e pela forma como as imagens que cria nas paredes dialogam com a realidade, produzindo cenas inesperadas, ele próprio tem uma relação com o Grajaú.

Mauro Neri, colaborador e assistente em seu trabalho artístico, cresceu no bairro e havia sido aluno tanto de dona Vilani como de Criolo, nos tempos em que o cantor era professor de arte. Orion e Criolo tinham muitos amigos em comum no lugar. Mas ainda não se conheciam.

Quando se encontraram, finalmente, para um almoço, elaboraram juntos a ideia do ônibus escolar que abre esta entrevista, e do carrinho de mão cheio de livros que virou capa e pôster que acompanham esta edição.

A ideia de Criolo e Orion era apresentar a educação no Brasil como uma construção em andamento – e ele, Criolo, como um operário apenas nesse processo. Os grafites foram feitos todos no Grajaú.

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