por Márcio Cruz
Trip #183

Documentário resgata e discute o legado da cena de hardcore dos anos 90 em São Paulo

Fim da década de 80. O Brasil vivia a ressaca das primeiras eleições diretas para presidente após 20 anos de ditadura, seguidas do Plano Collor, que quebrou muita gente. Diferente dos dias de hoje, em que o encontro de amantes de hardcore, emocore, sambistas e metaleiros na rua Augusta, centro de São Paulo, é algo banal, naqueles anos as coisas estavam mais inflamada, e embates de gangues de estilos musicais diferentes podiam causar a morte. É o que conta o documentário Hardcore 90 – Uma história oral, do historiador paulista Marcelo Fonseca, 36 anos, que recria a evolução do hardcore e seus subgêneros na Grande São Paulo, a partir dos entrevistados.

O filme deve ser finalizado em 2011 e, na busca do que aconteceu na época, ouve pessoas que atuaram na cena, como músicos, fãs ou ativistas, em uma narrativa documental. Enquanto o filme não fica pronto, o diretor e o cinegrafista Fernando Alves disponibilizam trechos das 37 entrevistas já realizadas (são 100 previstas) no blog http://hardcore-memoria.blogspot.com. Ali estão depoimentos tão distintos como o de Cesar Lost, ex-skatista profissional e ex-baixista do Againe, banda de hardcore melódico famosa na época; de Janaína Veneziani, ativista straight edge (vertente pacifista do hardcore) que ajudou a divulgar o vegetarianismo; e de fãs que trilharam por outros estilos musicais, como o sambista Kiko Dinucci e o músico Guilherme Granado. “O hardcore vem envolto na fala de alguns de uma maneira muito romântica e com saudosismo.”, diz o diretor, na época vocalista da banda Constrito.

O punk dos anos 80, na Grande São Paulo, ficou marcado, em parte, por gangues de carecas, skinheads e outros, que tomaram emprestada a estética original do movimento para cometer crimes de intolerância. No entanto, a partir dos anos 90, o hardcore se reorganizava em um novo ambiente, em shows menores e longe dos confrontos. Grupos como os anarcopunks e a Juventude Libertária passaram a promover eventos de caráter pacifista, unindo a filosofia anarquista do russo Mikhail Bakunin, o vegetarianismo e o repúdio à intolerância de inspiração neonazista. “Era briga direto. [Então] eu comecei a curtir um pico que antes se chamava Hëllish e depois virou o Der Temple. Eram uns caras que não tinham nada a ver com briga”, relembra Alexandre Kalota, um dos entrevistados. Mais tarde, o próprio Kalota, como muitos outros adolescentes fãs de bandas do gênero, se tornaria adepto do vegetarianismo e da filosofia straight edge.

Skate e anarcopunk
Ao mesmo tempo, o hardcore melódico acompanhava o desenvolvimento do skate nas ruas. Era no intervalo entre “ollies” e “180s” que muitos tinham acesso a gravações caseiras em fitas cassete. Em uma época pré-internet, os fãs sabiam das novidades por fanzines feitos à mão e distribuídos nos shows. Em meados da década de 90, enquanto bandas como No Violence e Self Conviction eram fortalecidas pelo straight edge, outras como Execradores, Metropolixo e Abuso Sonoro lideravam movimentos de vocação política anarcopunk.

Ao conciliar diferentes pontos de vista, o projeto realça o êxito do punk e do hardcore em São Paulo, estilos que, ainda hoje, reverberam na cena musical da cidade com lastro na cultura do “faça você mesmo”.

O músico e produtor Daniel Ganjaman, 31, é outro remanescente. Na época, Ganjaman formava suas primeiras bandas ao lado de seus irmãos, Maurício Takara (Hurtmold) e Fernando Sanchez (CPM 22). “Foi um momento de formação muito importante”, reflete o músico, hoje no coletivo Instituto. Mas é no discurso dos personagens mais obscuros, até agora maioria dos entrevistados do documentário, que Fonseca acha inspiração para continuar as filmagens, mesmo sem patrocínio. “Faço para mim mesmo, por minha satisfação e por essas pessoas.”

Quebrou o pau

Convidamos a maior conhecedora de hardcore da Trip Editora para falar um pouco de suas memórias

Por Carol Meirelles*

O pau fechava na Galeria do Rock, no centro de São Paulo. Era um tal de um botar o dedo na cara do outro que vou te contar. Quando os carecas esperavam na porta do show, então, aí a coisa ficava feia mesmo. No meio disso, comecei a frequentar shows, adolescente. Era o começo dos anos 90. Straight edgers faziam festivais numa casa no Jabaquara, enchendo a cabeça da molecada com palestras entre os shows. A ideia era bacana, e muita gente parou de comer carne, mas o discurso era meio chato, eu queria ver os shows não ouvir lição de moral. Mas dessa galera saiu muito som bom, como o do Self Conviction ou o do Constrito. Enfim, hardcore, straight edge, carecas... uma guerra de egos.

Fim de semana corrido
No começo dos anos 90, Tube Screamers e Againe saíram na frente na preferência da rapaziada, mas também estavam estourando o Kangaroos in Tilt e o More Beer, no caminho aberto pelos pioneiros Ratos de Porão.

Os lançamentos eram limitados, coisa de 500 CDs, e os shows ferviam em casas como a Der Temple ou a Black Jack, que começou só com metal, mas nas matinês de domingo abriu espaço para o hardcore. Na esteira dessas, outras casas apareceram como Dama Shock, Aeroanta e a Casa de Cultura do Butantã. Confesso que os fins de semana eram corridos, pequenos com tanto lugar pra ir.

E a cena não era só em São Paulo, não. Havia boas bandas em outros picos, como Safari Hamburguers (Santos), Pinheads (Curitiba), Dead Fish (Vitória), Dread Full (BH) e os cariocas do Barneys e do Rivets. Era toda uma turma que não tinha van, que às vezes botava o pé na estrada de ônibus mesmo. São quilos de histórias, como a dos meninos da banda Dance of Days, que alugaram uma Kombi pra tocar em Goiânia e na volta o motor quebrou no meio do nada. O que salvou foi uma gambiarra feita com um cordão de tênis. Improviso bem ao estilo hardcore.

Vinil 7 polegadas
Outro tentáculo eram as gravadoras, responsáveis por alguns marcos. Lembro quando em 1993 a Cogumelo lançou um compacto vinil de 7 polegadas do Safari, que bombou. Ou então a famosa Roadrunner, que apostou no Garage Fuzz (Santos) e no Killing Chainsaw (Piracicaba). Tinha ainda a independente F Records, que soltou a coletânea Girls just wanna have punk. Falando em girls, até o meio dos 90, hardcore era coisa de menino. Aí apareceram as meninas do Dominatrix, mostrando que eram mais do que só as namoradas dos caras. O som era bom e hoje as casa estão cheias de “mosheiras” na pista.

*Carol Meirelles é produtora-executiva do núcleo de revistas customizadas da Trip Editora e frequentadora da cena hardcore e metal há mais de 15 anos

Veja no site da Tpm vídeo das “mosheiras”: http://revistatpm.uol.com.br/tv-tpm/ao-vivo-do-mosh.html

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