por Amarílis Lage
Trip #261

Ao ver o planeta da estação espacial, o astronauta Chris Cassidy se deu conta da relevância da questão ambiental, um dos pontos centrais em suas palestras, como as que acaba de realizar no Brasil

Rio, quinta-feira, hora do rush. Entre os passageiros em pé num vagão lotado na linha quatro do metrô, uma figura destoava: um estrangeiro alto, de corte militar, queixo quadrado e olhos azuis, vestido com um macacão azul-celeste com o emblema da Nasa. Desceu na estação General Osório, em Ipanema – não sem antes se despedir de um passageiro que o ajudou com o itinerário. Em sinal de agradecimento, lhe entregou uma foto autografada. Na imagem, posava com macacão espacial e capacete. Assinado: Chris Cassidy.

Christopher John Cassidy cresceu em York, uma cidade de apenas 12 mil habitantes no Maine. Fã de matemática e de esportes, estudou engenharia oceânica no Instituto de Tecnologia de Massachusetts e serviu por dez anos na Seal, a força de operações especiais da Marinha americana, com missões no Afeganistão e no Golfo Pérsico. Até que, em 2004, foi selecionado para se tornar um astronauta. E isso tudo sem deixar de lado o esporte: assim que voltou de sua mais recente missão espacial, ele participou do Campeonato Mundial de Ironman, no Havaí. Não por acaso, Cassidy, que ocupa o cargo de Chief of the Astronaut Office, a posição mais alta na Nasa para astronautas ativos, é descrito no site da própria agência como “um Chuck Norris, sem aquelas restrições impostas pela gravidade”.

Seus passeios fora do planeta foram duas missões até a Estação Espacial Internacional, a 400 quilômetros da superfície. A primeira, em 2009, durou 16 dias. A segunda, em 2013, cinco meses. E foi nesse ambiente de gravidade zero que a ficha do astronauta caiu: as condições que permitem a vida na Terra estão em risco e é preciso conter o aquecimento global. De volta ao solo, Cassidy busca disseminar essa mensagem para líderes, pesquisadores, empresários e crianças. Essa nova missão que o trouxe ao vagão lotado da linha quatro do metrô carioca, numa tarde quente de novembro. O astronauta voltava de uma palestra para 50 crianças na Biblioteca Parque da Rocinha.

O encontro era parte de uma agenda corrida, que começou em São Paulo com apresentações na Fazenda da Toca, no Catavento Cultural, na Fundação Estudar e na Fundação Lemann. No Rio, Cassidy também visitou a SITAWI Finanças do Bem, uma organização que mobiliza investimentos para projetos que geram impacto socioambiental, a Escola Americana e o Museu do Amanhã, onde a proposta curatorial passa, justamente, pela questão da sustentabilidade.

Por trás da viagem de Cassidy ao Brasil, está a Spread Positivity, uma campanha sem fins lucrativos criada por Jeff Cassidy, irmão de Chris, e voltada a ações que promovam a interação real entre pessoas, com foco em aspectos como empatia e tolerância. “A Nasa recebe milhares de solicitações em busca de visitas como essas. E, compreensivelmente, é difícil para a agência enviar um astronauta para uma pequena escola, em outro país”, conta Jeff. “Por meio da Spread Positivity, conseguimos trazer Chris a uma série de locais que nunca teriam uma oportunidade assim.”

“O nome do que está acontecendo é aquecimento global – todos nós temos que trabalhar juntos para solucionar esse problema”
Chris Cassidy, astronauta-chefe da Nasa

Os dois irmãos encontraram a equipe da Trip em uma sexta-feira de manhã, dois dias antes de voltarem aos Estados Unidos. A sessão de fotos na Praia de Ipanema não passou despercebida. “Quem é o gringo?”, quis saber um vendedor. E correu a espalhar a novidade: “Gente, vem ver: tem um astronauta em Ipanema!”. Ao que Jeff interveio, rindo, num português com sotaque: “Ah, Chris, essa mentira de novo?”.

Você nasceu cinco meses depois da chegada do homem à Lua, em junho de 1969. Alguns anos depois, em 1977, foram lançadas as sondas Voyagers. Como a corrida espacial influenciou sua imaginação? Sempre quis ser astronauta? Não, ser astronauta não era algo em que eu pensasse. Na escola, eu gostava de matemática e de ciências, mas adorava mesmo era praticar esportes. O que eu me lembro foi de ver o acidente com o ônibus espacial Challenger [em janeiro de 1986, no qual morreram sete tripulantes]. Lembro que pensei comigo mesmo: “Caramba, como deve ser difícil fazer todas essas coisas para conseguir viajar pelo espaço”. Só mais velho, já com 26 anos, descobri que qualquer um podia se candidatar para ser astronauta, e então pensei, “OK, vou tentar”.

Nessa época, você já era fuzileiro naval. Como essa experiência o ajudou a se tornar astronauta? Definitivamente, foi algo que me preparou para ser astronauta, porque na vida militar – e mais ainda na Seal – você precisa ser capaz de pensar vários passos à frente diante de uma situação e conciliar muitas coisas ao mesmo tempo: falar no rádio enquanto toma decisões, sem perder de vista tudo que ao seu redor. Isso tem muito a ver com o que um astronauta faz.

O que o surpreendeu quando finalmente fez sua primeira viagem ao espaço? O que me surpreendeu foi ver como era difícil gerenciar, num ambiente de gravidade zero, todas aquelas coisas que geralmente nós apenas colocamos sobre uma mesa. Sabe quando você chega em casa e coloca suas chaves, seus óculos e sua carteira sobre a mesa e pronto, está resolvido? Lá eu me perguntava o tempo todo: onde eu posso colocar isso, e aquilo? Porque, se você não tomar cuidado, tudo vai embora voando [risos]. E ver a Terra é impressionante, quando você olha para baixo e... lá está ela. Eu não conseguia acreditar nas cores, aqueles magníficos tons de azul, marrom, verde, branco, todas essas cores combinadas – é uma coisa maravilhosa.

Foi durante uma missão espacial que você teve um insight sobre a necessidade de preservar o planeta? Eu olhei a Terra e me dei conta de que a camada representando a atmosfera é muito fininha, algo que você mal consegue ver. E percebi que qualquer disrupção nessa camada seria equivalente a abrir um buraco na parede da estação – algo que poderia matar todos. No caso da Terra, a “tripulação” é composta de mais de 7 bilhões de pessoas. Se não cuidarmos do nosso planeta, por exemplo controlando as emissões de gás carbônico, esse processo vai destruir tudo o que conhecemos e amamos. Quem for ao Museu do Amanhã, aqui no Rio, e vir os números apresentados na exposição, vai entender que temos um grande trabalho pela frente e que essa preocupação precisa ser incluída na nossa rotina.

Cientistas falam em antropoceno para definir essa nova fase do planeta, em que as ações do homem afetam o clima e os ecossistemas, e defendem medidas urgentes para que as mudanças sejam administráveis. Mas Donald Trump, recém-eleito presidente dos Estados Unidos, questiona essas evidências. Quais suas expectativas em relação à administração dele, no que se refere às políticas contra o aquecimento global? Como você mesma disse, o nome do que está acontecendo é aquecimento global – então acho que não é algo restrito a um político à frente da administração de um país, embora cada país precise fazer sua parte. Todos nós temos que trabalhar juntos para solucionar esse problema. As correntes marítimas e os ventos circulam ao redor do planeta como um todo, e o que acontece na Floresta Amazônica impacta grande parte do mundo. Isso demonstra que precisamos nos unir para resolver esse desafio.

Do ponto de vista individual, que atitudes você considera cruciais para a sustentabilidade do planeta? Acho que o primeiro passo é educação, é entender quais são os reais problemas e, a partir daí, refletir sobre como eles estão relacionados com a sua vida. Assim cada um pode decidir como vai agir. Há medidas pequenas e fáceis, como reciclar lixo e trocar o carro pela bicicleta. Mas educação é provavelmente a primeira coisa que devemos buscar. Eu quero fazer tudo o que posso nesse sentido e, como grande parte do meu trabalho é fazer apresentações públicas, quero trazer essas ideias para diferentes grupos. É isso que estamos fazendo aqui no Brasil.

Leia mais: Trip investiga o movimento mundial de desacelaração do consumo

Créditos

Imagem principal: Divulgação/Nasa

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