Hoje, um carro como o Maverick V-8 representa a encarnação de tudo o que é errado: inseguro, beberrão, grande. Mesmo assim, continuamos acelerando

Acho que a minha geração foi a última que pôde curtir, sem peso na consciência, os grandes automóveis queimadores de combustíveis fósseis. Ninguém se sentia poluindo o planeta e dirigir enquanto menor de idade era um pecadilho não só tolerado como, em garotos como eu, até mesmo incentivado. E, por essas obras do acaso, na garagem da casa de meus pais repousava, nos anos em que eu estava aprendendo a dirigir, um Ford Maverick V-8 cor de abóbora. Aquele carro era tão potente que fazer uma simples baliza era complicado, pois ele tendia a dar saltos conforme se aliviava a embreagem. Nas retas, era fácil acelerar e cantar pneu na primeira, na segunda e na terceira marchas, com o ronco do motor inundando os ouvidos enquanto passava-se de zero a 180 quilômetros por hora em poucos segundos.

Quando soube do tema desta Trip, me lembrei imediatamente no Maverick V-8. Porque potência, para mim, era aquele carro. Hoje essa ideia me parece cavalarmente estúpida, assim como também era idiota ver naquele caubói que fumava Marlboro um ícone de masculinidade, mas era assim que eu pensava naqueles tempos, com 15 ou 16 anos de idade. Nos dias mais esclarecidos de hoje, um carro como o Maverick representa a encarnação de tudo o que é errado: inseguro, beberrão, grande e com capacidade para levar, com conforto, apenas duas pessoas. Ele representou, além disso, o apogeu do modelo econômico/ideológico norte-americano que dominou o mundo nos anos seguintes à Segunda Guerra: o bacana eram estradas em vez de ferrovias, transporte individual em vez de público, alimento processado substituindo o fresco e cidades moldadas para automóveis e não para pessoas. O fato de o Maverick ter vendido pouco no Brasil e logo ter sido descontinuado parecia ser um sintoma de que aquele jeito de viver se aproximava do fim. Pois o tempo passou, o Maverick virou objeto de colecionador e o universo que ele representava ficou no passado, com o crescimento da consciência ecológica, da preocupação com o espaço urbano e do consumo consciente. Verdade?

LEIA TAMBÉM: "O relógio está contra nós", por André Caramuru Aubert

Um charmoso assassino

Seria bom se fosse, mas não é bem o caso. Talvez tenhamos melhorado algumas coisinhas aqui e ali, mas com certeza não o suficiente. Os carros continuam a ser um bom indicador. Eles estão mais econômicos e menos poluentes, é fato, mas as vendas cresceram tanto que anularam os avanços tecnológicos e inviabilizaram as reformas urbanísticas. A produção automotiva mundial quase dobrou em menos de 20 anos, entre 1997 e 2015, quando superou inacreditáveis 90 milhões de unidades no ano. Além disso, os oceanos estão se esgotando rapidamente, espremidos entre as descargas de lixo de um lado e a sobrepesca de outro; as florestas tropicais continuam a ser passadas impiedosamente na motosserra, fornecendo madeira para móveis descolados e abrindo espaço para plantações de soja e fazendas de gado; o consumo de petróleo segue ladeira acima; o carvão mineral continua a ser a principal fonte de energia de muitos países; a temperatura planetária não para de subir e, para completar, o novo presidente do país que mais contribui para isso tudo decidiu que sustentabilidade é uma grande bobagem.

Signo exemplar daqueles tempos, o Maverick tinha um enorme talento para acelerar, mas não se comportava assim tão bem em freadas e curvas. Instável, aquele carro era, literalmente, um charmoso assassino. Exatamente como nós, hoje. Estamos acelerando, acelerando, maravilhados com o nosso poder de consumir de maneira insaciável tudo o que cintila diante de nossos olhos. E com uma enorme dificuldade para frear ou mudar de rota. Nós somos um Maverick. Resta ver no que toda essa potência sem freios vai dar.

LEIA TAMBÉM: Todos os textos de André Caramuru Aubert

matérias relacionadas