A conspiração das lâmpadas

por J.R.Duran
Trip #208

”Quanto tempo dura uma lâmpada? Melhor dito: quantas horas uma lâmpada pode ficar acesa?”

O mistério da vida útil de uma lâmpada comum revela muito sobre um mundo em que as forças da economia são superiores às da conveniência

Quanto tempo dura uma lâmpada? Melhor dito: quantas horas uma lâmpada pode ficar acesa?

De acordo com o documentário The light bulb conspiracy (1), as respostas podem ser variadas. Na teoria do filme, um produto poderia durar, em condições estáveis de fornecimento elétrico, muito mais tempo do que se imagina. Isto é, sem oscilações na rede elétrica que mandassem para o espaço qualquer equipamento ligado em uma simples tomada (atire o primeiro computador no lixo quem nunca teve o hard drive queimado por uma variação elétrica). Na cidade de Livermore, na Califórnia, uma (uma só) lâmpada feita em 1900 e achada em um porão ainda pode ser acesa. Na minha casa, uma lâmpada queima toda vez que o aspirador de pó é ligado.

Acontece que no mundo moderno as forças da economia são superiores às da conveniência. Um produto que dure para sempre é um desastre para os negócios. Faz sentido. O mundo dos computadores que o diga: a cada produto novo tudo é um pouco diferente. O espírito da evolução é implacável com o da tradição. Uma das coisas em que o documentário tenta jogar um pouco de luz é a teoria da “obsolescência planejada”. Um produto manufaturado tem que ter a sua vida superada por outros da mesma linha, de maneira que estes provoquem o desejo de serem substituídos (2), senão a fila não anda. Parece fazer sentido quando a vida de um produto se encaixa dentro de nossas expectativas. Mas quanto tempo podemos considerar razoável (3)?

Jogada de mestre

Até agora não consigo entender um acontecimento que se enfiou nas nossas vidas, faz pouco tempo, sem nenhuma explicação: a mudança radical do formato dos pinos nas tomadas elétricas. Eles passaram a ser fabricados em outro padrão não por obsolescência ou desejo aspiracional do consumidor. Nada que seja minimamente explicado ou justificado. Mudaram por uma decisão meramente vertical, e, a partir de certo momento, todas as tomadas do país deixaram de ser da maneira como eram e passaram a ter outro desenho. E atenção: perversamente incompatível com o antigo. Jogada de mestre, tiro meu chapéu para a mente inquieta que conseguiu enfiar esse conceito goela abaixo de mais de 200 milhões de consumidores e faturar com essa decisão. Façanha com a qual nem o inacreditável Steve Jobs poderia sonhar, e que ainda me deixa perplexo toda vez que tento procurar uma tomada compatível com o pino que tenho na mão. Uma tarefa cada vez mais difícil de ser realizada na primeira tentativa.

Isso não é obsolescência planejada, isso é morte súbita, e me parece injusto. Muito injusto. Pode, Arnaldo?

(1) The light bulb conspiracy (2010), dirigido por Cosina Dannoritzer. O título do filme já diz tudo. Cosina, apesar do nome, é espanhola.

(2) Outra vertente da “obsolescência planejada” traz algum tipo de mecanismo embutido nos equipamentos que os faz parar de funcionar depois de determinado espaço de tempo.

(3) Hoje em dia uma lâmpada pode durar mil horas. De acordo com The light bulb conspiracy, poderia durar 2.500. A de Livermore já tem mais de 100 mil horas.

*J. R. Duran, 55, é fotógrafo e escritor (www.twitter.com/jotaerreduran)

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