por Ariane Abdallah

Maria Mariana, 36, quatro filhos, diz que casar e parir são o caminho da felicidade. Será?

Ela foi porta voz de uma geração ao contar no palco suas experiências com droga, sexo, aborto... Dez anos depois do sucesso de Confissões de Adolescente, Maria Mariana, 36, volta à cena com quatro filhos e o polêmico Confissões de Mãe, livro onde afirma que casar e parir são o caminho da felicidade. Enquanto muitas ex-fãs atiram pedras, a Tpm foi escutar o que ela tem a contar

    Se você tem mais que 20 anos e menos que 40, sabe quem é Maria Mariana. Sabe, inclusive, como foi o primeiro beijo que ela deu na vida, que nada mudou na sua aparência quando olhou no espelho depois da primeira transa, e que foi chorar no colo do pai – o dramaturgo e cineasta Domingos Oliveira – quando fez um aborto. Tudo antes de completar 18 anos. Isso porque Mariana transformou seus diários em Confissões de Adolescente, que começou como livro (relançado agora pela editora Agir) e virou peça de teatro, dirigida por seu pai e apresentada pelo Brasil durante 15 anos. Mas marcou mesmo como a série de TV, sob o comando de Daniel Filho. Os 39 episódios – dos quais alguns são encontrados em DVDs –  passaram na Cultura, na Rede Bandeirantes e no Multishow e tiveram os direitos vendidos para a TV francesa TF-1. “Foi um fenômeno. A gente era Beatles, bicho. As adolescentes nos seguiam em hotel, éramos ídolos de uma geração”, lembra a atriz Ingrid Guimarães, companheira de Mariana no espetáculo, nas Páginas Vermelhas da Tpm #83.

    Mas se você leu jornal no último mês, sabe também que Maria Mariana cresceu e não é mais tão “queridinha” de sua geração. Está mais para anti-heroína. Depois de dez anos de sumiço, ela aparece com quatro filhos, um novo livro, Confissões de Mãe, e uma causa: “Quero abrir a consciência das pessoas sobre a importância de criar filhos. Ser mãe é um trabalho que está desmoralizado”. Em seu texto, afirma que casar e procriar “é o que de mais importante podemos fazer”, que a mulher que não se permite isso está fugindo e que devemos buscar o parto normal, mas “aceitar, se você não estiver merecendo viver esta experiência”. Por essas e outras, criou polêmica, foi chamada de “reacionária” no jornal A Folha de S. Paulo e despertou a fúria de mulheres que defendem o direito à felicidade sem casamento nem filhos – ou como se  bem entender.

“Quero abrir a consciência das pessoas sobre a importância de criar filhos. Ser mãe é um trabalho que está desmoralizado”

Qualquer mulher

    De cara limpa e cabelo sem tintura (nem fios brancos), Mariana recebe a reportagem da Tpm no sobrado em que mora há nove anos, em Macaé, cidade de 170 mil habitantes no Estado do Rio. Com o mesmo corpo da época das primeiras confissões, ela vai da sala para a cozinha e da cozinha para a sala, fala com as duas assistentes que preparam o almoço e recebe a prole, que chega no jipe do pai e sobe correndo as escadas para tirar o uniforme e lavar as mãos. Em volta da mesa, Gabriel, 5, chora porque não quer comer; Clara, 9, olha de canto para a repórter; Laura, 7, fala alto e gesticula com rapidez; e Isabel, de 2 anos, faz questão de almoçar sem a ajuda de ninguém. Mariana fala baixo, desliga a televisão, e não se importa com os protestos. Na sala decorada sem firulas, com cadeiras, mesa e um banco comprido, tudo de madeira rústica, uma foto de Domingos com a primeira neta no colo é a única imagem exposta.

    O cineasta não compreende a escolha da filha única, que criou sozinho desde que ela tem 7 anos. Em entrevista à Tpm em 2006, ele é quem confessa: “Mariana resolveu ser dona de casa, mãe de filhos, o que é uma lástima porque ela era uma atriz genial, inspirada. Eu disse para ela: 'Você cria filhos como eu crio peças'”.

    Além das Confissões, Mariana atuou nas novelas globais Lua Cheia de Amor e Pedra sobre Pedra, nos filmes Amores, de Domingos, e Cazuza O Tempo não Para, de Sandra Werneck, e já foi roteirista de Malhação. Agora, assina também o roteiro da novela Os Mutantes, da Record. Mas a mulher que você conhece a seguir se especializou mesmo em desconstruir papéis. Sem máscaras, ela fala à Tpm sobre casamento, religião, preconceito, autoconhecimento e de como abriu mão de ser “a atriz”, “a escritora”, “a filha do Domingos” ou “a garota do Confissões”... para ser apenas uma mulher. Como todas as mulheres do mundo.

Tpm. No seu livro, você afirma que o melhor caminho para a mulher encontrar a felicidade é casar e ter filhos. Acredita mesmo que quem não faz esta opção não pode ser feliz?
Maria Mariana. Quem sou eu pra dizer que uma pessoa não é feliz? Cada um tem a livre escolha pra fazer o que quiser, mas, na minha opinião, ser mãe não é uma opção. É um degrau que a pessoa tem que pisar se quiser caminhar pra frente – mesmo que não possa ter filhos, pode adotar. Se a mulher quiser crescer, chega uma hora em que tem que assumir um relacionamento, encontrar seus propósitos, saber conviver com o outro. Agora, a mulher pode não casar nem ter filho. Pode até ser feliz, mas não vai caminhar pra frente. Eu tenho convicção das coisas em que acredito. Sei do que estou falando. Não li livros e escrevi uma tese sobre maternidade, eu vivi por dez anos todos esses dilemas, pari quatro vezes.

Como você conheceu o André [Pessanha, seu marido, que é médico cardiologista e homeopata]?
Eu estava com 26 anos, muito a fim de ser mãe, de casar. Morava sozinha na época. Fui fazer um retiro de 15 dias na Serra da Bocaina, meditando o dia inteiro. Vi o André numa confraternização no último dia. A gente se olhou e rolou uma sintonia. Um tempo depois começamos a namorar. Ele tem um primeiro casamento, de quase 20 anos, dois filhos, e estava querendo reconstruir a família. Por isso, um mês e meio depois eu estava grávida da Clara, e não foi sem querer [risos].

Você não sentiu falta de ter um relacionamento só do casal antes dos filhos?
Essa foi a nossa história. A gente vem se conhecendo, construindo nosso relacionamento no meio dos filhos. A gente não deixa as crianças com ninguém. Em todo lugar, levamos todo mundo, até porque aqui [em Macaé, onde moram desde 2000] não tem ninguém da família. Até hoje, não dormimos nenhuma noite sem eles. Agora que as crianças estão crescendo é que a gente vai ter lua de mel. Acho que o casamento, se fica só homem e mulher, não tem como dar certo. Nós somos muito imperfeitos. No cuidado com os filhos a gente se expõe, faz um trabalho de autoconhecimento, e isso fortalece o relacionamento.

Muita gente acredita que, quando a mulher para de trabalhar para cuidar dos filhos, as chances de o relacionamento com o marido se prejudicar são grandes.
Ao contrário. Acho que o casamento só começa de verdade depois que nasce o filho. Antes são egos convivendo, qualquer crise se separa. Hoje em dia as pessoas casam, fazem aquela festa linda, querem encontrar aquele homem perfeito. Então acham que vão pra rua, trabalhar, têm os problemas da vida, mas quando chegam em casa é prazer, diversão, conforto. E não é isso. Casamento é uma oportunidade que a gente tem de se conhecer, de evoluir, de se trabalhar, de crescer. Todo casamento tem problema, e é pra ter mesmo, porque é através desse relacionamento íntimo que vamos vendo nossos defeitos, aprendendo a conviver com o outro e nos trabalhando. E cada vez que a gente vence uma crise, cresce como pessoa. Estou falando de quem busca um sentido na vida, de evolução do espírito.



Você acredita em casamento para sempre?
Sim, casei pra sempre. Todo dia, busco um jeito de casar mais, de ser mais aberta, de compreendê-lo melhor, de aceitar melhor os defeitos dele e ele os meus. Não tem sentido a gente se separar. Pra começar de novo com outra pessoa?

Mas digamos que acabe a química entre vocês...
Esta é só a parte sexual. A química acaba, e a gente reconstrói. Afinando mais o relacionamento, as emoções, sintonizando melhor os objetivos que cada um tem. Aí sente aquela química voltar, ficar melhor.

Sentiu preconceito de seus amigos e familiares quando decidiu ser mãe e dona de casa?
Senti muito preconceito e pressão. Ninguém entendeu muito, né? As pessoas olhavam pra mim meio preocupadas. “Será que é o marido que está obrigando?” “Será que está deprimida?” “Mas ela vai ter outro filho?” [Risos]. Ser mãe é um trabalho que está desmoralizado. O pior é que a desvalorização vem de dentro das próprias mulheres, porque a pressão é tanta de querer estar sempre linda, bem resolvida, ganhando dinheiro, vivendo a vida de forma tão materialista, que você pensa: “Será que estou fazendo a coisa certa?”.

Você pensou isso?
Com certeza. Sou de carne e osso. É lógico que durante esses dez anos muitas vezes me perguntei: “Poxa, será que esse é o caminho certo? E minha profissão?” Porque a gente sente falta do trabalho, do dinheiro, da autonomia profissional. Eu estava acostumada a trabalhar desde cedo. Saí de casa com 19 anos, sempre tive meu dinheiro. Mas sempre a vivência com meus filhos vencia essa angústia. Todo esse trabalho de educá-los serve pra nós mesmas. Quem ganha mais com tudo isso é a mãe.

Como assim?
Uma pessoa de fora tem a ideia de que a mãe vai só entregar. Ela abre mão da profissão, do dinheiro, da liberdade... “coitada, a mulher entrega tanto que esvazia”. Mas não é isso. É um autoconhecimento. É muito mais fácil sair para trabalhar. Tenho um neném, deixo com a babá, e das 6 da manhã até 5 da tarde estou no trabalho, que ótimo. Não entendo essas mulheres que se contentam em parar em casa quatro meses pra cuidar de um nenê. Nesses anos, eu falava: “Que vontade de voltar a trabalhar para descansar um pouco”. Porque não é fácil, principalmente com a educação que tivemos, de que tem que ter trabalho, ideologia, uma máscara social. “Eu sou atriz, escritora, ganho tanto, visto tal roupa, sou amiga de fulano... Tenho que ganhar mais, tenho que ter o celular tal, tenho que...” Não tem nada. De repente, é você em casa com seu filho. Você igual a todas as mulheres do mundo. Não é mais bonita, mais feia, não tem a bunda mais não sei o quê. É mulher, mãe, que cuida da casa, passa roupa, faz comida, que troca fralda igual sua mãe trocou, igual sua avó. Nesse momento você vai ver o quanto essa mulher é mulher.

O que significa isso na prática?

A gente vê onde tem que melhorar. Aparecem as mágoas que às vezes ficaram da nossa própria educação, da nossa própria mãe, do nosso pai, coisas que muitas vezes a gente bota pra debaixo do tapete, porque tem que trabalhar, tem que ganhar a vida. A maternidade é uma oportunidade para a mulher se desenvolver. A gente vê hoje em dia muitas pessoas com dificuldades emocionais, sem caráter, pessoas perdidas. Muito homem de 40, 50 anos que tem mentalidade de 18, dependentes emocionalmente. Isso quando não complica mais: depressão, neurose... Em algum lugar essa educação está falhando. E eu acho que esses valores da firmeza do caráter, de a pessoa ser capaz de administrar as próprias emoções, são coisas que a mãe pode ensinar.

Como foi a sua criação?
Morei só com meu pai desde os 7 anos e aprendi muito com ele. Mas eu sempre busquei uma religião, uma sentido espiritual, e isso meu pai diz não ter. Tive uma educação liberal. Quando fiz 18 anos, ele botou uma cama de casal no meu quarto porque tinha a consciência de que era melhor dormir em casa com o namorado do que fora. Me deu grandes livros pra ler, grandes filmes, me formou culturalmente. Me ensinou muito de dramaturgia. Desde os 16 anos, colaboro com eles nas peças, nos roteiros. Ele sempre me pedia pra fazer uma cena ou outra. Ele me incentivava a escrever diário. E, como ele era minha referência, eu não escrevia à mão, era na máquina de escrever. Quando meu pai saía de casa, eu ia imitá-lo. Sentava na máquina dele, pegava o uísque dele, e começava a examinar as grandes questões da vida, em cima das vivências que eu tinha.

Foi assim que nasceu o Confissões de Adolescente?
É, Confissões de Adolescente era meu diário mesmo, textos que escrevi dos 10 aos 19 anos, alguns naquelas agendas.

O Confissões de Mãe é a mesma coisa em outra época?
É diferente, porque não conto no livro o que vivi com as crianças. Só os partos. Mas ele não é diário, são reflexões a respeito da maternidade. Coisas que eu vim escrevendo desde que nasceu minha primeira filha. Sempre tive a intenção de fazer um livro para minhas filhas. Eu olhava pra aquele bebezinho, sentia tudo tão intensamente e pensava: “Meu Deus, como é que eu vou ensinar isso pra essa menina daqui a 20 anos?”.

Você já pensou em quando seus filhos forem adolescentes?
Não quero nem pensar! Eu estou plantando uma amizade sólida com eles pra poder colher no futuro. Quero ser amiga, quero conhecer cada um deles. Esse é um trabalho que tem que ser feito desde agora. Eles podem confiar em mim desde agora, estou ali toda noite, dou conta.

Você afirma no seu livro que para ter parto normal tem que ter merecimento. Como é isso?

Levantei essa questão querendo falar a respeito da banalização do parto que existe hoje. Dá uma anestesia, tira a criança... Eu percebi que a mãe também precisa nascer. Na hora que você olha para aquele pedacinho de gente e aquilo é tua responsabilidade, saiu de dentro de você, tudo muda. Outro mundo. As coisas têm outro peso, outra cor. Você ganha uma força. É outro corpo, outra história, um renascimento. Então, esse parto da mãe precisa ser feito. Quando ela vive isso no trabalho de parto, através da dor, é um momento tão intenso que já dá para ter uma ideia de como vai ser toda a caminhada da maternidade. Vejo casos de mulheres, e comigo mesma foi assim [com a primeira filha, única que nasceu por cesariana], que quando esse momento não acontece, a mãe continua tendo que passar pelo próprio parto. Já vi casos de pessoas que têm filhos e continuam no lugar de filha. Isso cria um desequilíbrio, porque a avó assume o lugar dela, o marido não reconhece na mulher uma mulher, a criança fica insegura porque a mãe está insegura... Então o parto prepara o espírito da mulher pra mudar de papel. Eu sou espírita, por isso usei a palavra merecer, porque pra mim isso vem de outras vidas. Um merecimento, estar preparada.

Qual é sua religião?
União do Vegetal. Uma religião espírita de doutrina cristã, que usa o chá Hausca para efeito de concentração mental. Ele é inofensivo à saúde, é liberado pelo Governo, não é uma droga, existem vários estudos científicos em relação ao chá. Conhecemos a União quando o André estava parando de fumar e eu estava grávida da Laura. Encontramos muito equilíbrio lá.

Como foi a reação do seu pai quando você contou que estava grávida da Maria Clara [a mais velha]?
Ah, ele levou um susto. Eu falei: “Pai, está sentado?”. Ele falou: “Que foi?”. “Tô grávida...” Mas ele já sabia da minha vontade, né? Só ficou meio assim porque foi muito rápido. Cada vez que engravidava ele me chamava pra conversar [risos].

Antes disso você já tinha engravidado aos 17 anos, e fez um aborto. Como vê essa experiência hoje?

Aconteceu comigo, não me arrependo porque não tive escolha, até por uma questão familiar, não me deram muita escolha... Mas não faria hoje. Sou totalmente contra, a não ser em casos de estupro ou risco de vida para a mulher.

Como aconteceu toda essa mudança na sua vida, a começar pela busca da meditação...
A meditação transcendental foi bem cedo. Antes do André, morei por quatro anos com um músico [Eduardo Galli, com quem ela assinava uma coluna na revista Capricho, que resultou no livro Cara Metade], eu tinha uns 20 anos, e ia com ele fazer a meditação. Aí parei, me separei, depois fui fazer o retiro onde conheci o André. Mas creio que não foi uma mudança, foi um encontro com o que é mais a minha verdade. Eu sempre quis ser mãe, colecionava a revista Pais e Filhos quando era nova. Quem acha que sempre fui doidona e de repente encaretei, é porque não me conhece. A adolescência é só a fase em que a gente sai do nosso âmbito familiar, que organiza a bagagem que recebeu na infância e coloca diante do mundo. Vai experimentar, formar conceitos, construir nossa maneira de agir, nossas crenças, e eu fui me construindo.

"Eu sempre quis ser mãe, colecionava a revista Pais e Filhos quando era nova. Quem acha que sempre fui doidona e de repente encaretei, é porque não me conhece."

Como foi esse seu primeiro casamento?
A gente era muito imaturo, tinha mais uma relação de irmão do que de homem e mulher. Só aconteceu mesmo porque tinha a questão financeira que permitia, eu morava sozinha.Valeu como experiência, mas casamento mesmo não foi, não. Foi mais brincadeira de casinha.

Você fala da mulher ser mãe, servir o marido... Acredita que as conquistas feministas foram maléficas à mulher?
De jeito nenhum. Sou filha de uma mãe [a atriz e escritora Lenita Plonczynski] que viveu esse movimento e lucrou muito. Mas hoje é preciso equilibrar, resgatar a nobreza do trabalho da mãe. Falo por mim, que estava precisando desse equilíbrio. Estreei no teatro com 15 anos, já ganhava dinheiro, com 19 morava sozinha e trabalhava 24 horas por dia. Isso até assustava as pessoas com quem me relacionava, porque eu ganhava mais dinheiro do que qualquer menino que namorasse. Isso foi até conflito pra mim. Porque os homens não lidam muito bem com isso, né? Eles podem até falar que lidam bem, mas é da boca pra fora. Eu senti necessidade de desenvolver esses sentidos mais femininos, de harmonizar as coisas, trazer aconchego, esperança, essas qualidades menos agressivas. Existe hoje uma mistureba dos papéis. A mulher se coloca nessa posição também porque os homens não estão se colocando no lugar de homem. Então a mulher toma a frente. Temos que buscar o lugar da mulher que escuta mais do que fala, e deixar o homem no lugar dele.

Quem te ensinou a ser mãe?
Me espelhei muito na minha mãe. Tenho três irmãos que são filhos dela com o Luizinho Eça [pianista da bossa nova, falecido em 1992], antes de mim. Ela é muito mãezona, apesar de ter vivido a época da contracultura. Todo aquele movimento feminista, e ela estava em casa cuidando das crianças. Mas casada com artista, convivendo com Vinícius, com aquela turma da bossa nova. Aí conheceu meu pai, casaram, eu nasci e ficaram 7 anos juntos. Depois que eles se separaram, eu fui morar com meu pai. Mas ela sempre foi muito presente na minha vida.

Por que você ficou com seu pai?
Porque foi a conveniência da época. Minha mãe tinha outras três crianças, e eu sou filha única do meu pai, um xodó. Você imagina, meu pai intenso como ele é, e eu sou a única filha dele. Ele sempre foi um pai zeloso, amoroso, cuidadoso. Muito ligado a mim e eu a ele. Não tinha como a gente morar em outra casa.

Você tem lembranças de quando seus pais eram casados?

Pouquinho. A gente morava em Teresópolis, eles escreviam para a Globo. Eu tenho, na minha memória, a cachoeira, a natureza. Acho até que vem daí eu preferir morar num lugar mais calmo, perto da natureza.

Como foi a mudança para Macaé?
Foi quando nasceu a Clara. O André teve a oportunidade de montar a clínica aqui e a gente já queria mudar de lugar. A princípio, eu rejeitei um pouco Macaé. É uma cidade confusa, cresceu meio desordenadamente. Mas também é uma cidade que tem emprego, as coisas aqui se movimentam por causa do petróleo [Macaé é responsável por 85% de todo o petróleo do Brasil, e a economia local se desenvolveu 600% nos últimos dez anos – mais do que a China]. Aí a gente gostou muito, porque sair do Rio facilita muito nossa busca espiritual. Permite que consigamos nos observar melhor. Eu nasci na Barra da Tijuca, depois morei no Leblon. Não achava que existia vida fora da Zona Sul. E existe vida boa. Com tranquilidade, com silêncio.

Você pensa em voltar para o Rio?

A gente tem a intenção de voltar a morar lá daqui a dois anos para as crianças terem um ensino mais forte na escola. No ano passado, chegamos a passar seis meses no Rio porque tinha uma possibilidade de trabalho, mas as coisas não aconteceram. Muito trânsito, o André ficava muito tempo na rua, o que pra mim foi ruim, porque conto com ele para me ajudar com as crianças.


Você deve ter se afastado de muita gente com essa mudança de cidade. Manteve contato com as meninas dos Confissões ou outras amigas?
Pois é, eu nunca fui aquela pessoa que diz: “Ah, eu tenho muitos amigos”. A Patrícia Perrone [atriz, que participou da peça Confissões de Adolescente] é minha amiga, mas eu convivo pouco com ela. Eu tive filho antes de todas, então saí do círculo de convivência. Vim ter amigos mais velhos, pessoas do meio do André, da minha religião. Na adolescência, como eu sempre fui de namorar sério, acabava ficando mais próxima do meu companheiro.

Por que você acredita que seu livro está deixando tantas mulheres indignadas?
Confissões, falar de si é uma coisa que agride as pessoas, né? E eu gosto de ser mulher, talvez isso também esteja agredindo. Mulher, mãe, que serve o marido e os filhos. E agora estou retomando também o trabalho. Mas não consigo ver trabalho mais importante do que colocar na sociedade, daqui a 20 anos, pessoas equilibradas emocionalmente, capazes de administrar as próprias emoções, de caráter firme. Se eu conseguir fazer isso, vou estar contribuindo muito mais do que com qualquer livro que eu escreva ou qualquer peça que eu faça.

"Não consigo ver trabalho mais importante do que colocar na sociedade, daqui a 20 anos, pessoas equilibradas emocionalmente, capazes de administrar as próprias emoções, de caráter firme."

 

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