por Natacha Cortêz

Em “Tarja Branca”, o diretor Cacau Rhoden investiga as raízes e os significados do “brincar”

Para os criadores do documentário Tarja Branca – A revolução que faltava, brincar é um dos atos mais ancestrais e fundamentais do ser humano, tanto para se conhecer melhor quanto para se relacionar com o mundo. O que essa prática pode revelar sobre nós e sobre o mundo em que vivemos é o tema do filme produzido pela Maria Farinha Filmes (do elogiado Muito além do peso) e dirigido pelo curitibano Cacau Rhoden.

A ideia de espírito lúdico, "dizendo que esse é fundamental à natureza humana, e como o homem contemporâneo se relaciona com esse seu lado, ainda que negligenciado, é o que queremos tratar", comenta o diretor. “O filme destaca a importância de continuarmos sustentando esse espírito que surge em nossa infância, e que o sistema nos impele a abandonar na vida adulta.”

O documentário é costurado por depoimentos de personalidades como o jornalista José Simão, os atores Domingos Montagner e Wandi Doratiotto, o músico Helder Vasconcellos, o pesquisador Alfredo Bello e a educadora Lydia Hortélio, além do músico e dançarino Antonio Nóbrega.

“A cultura popular, com seus ritmos, danças e expressões artísticas tão ricas, também é uma chance única de se ter uma segunda infância”, revela a educadora Lydia Hortélio no longa-metragem.

A expressão “tarja branca”, definida no filme pelo artista plástico Hélio Leites como “um santo remédio”, é uma ironia aos medicamentos de "tarja preta". Esse remédio seria o reencontro com a criança que mora dentro de todos nós, e, mais do que isso, a aceitação da presença e das manifestações desse ser em nossas vidas adultas.

O filme estará disponível no iTunes a partir de agosto e no Netflix em outubro. Aqui, conversamos com Cacau Rhoden.

Tpm. Como aconteceu o convite pra dirigir o documentário?
Cacau. Eu já gostava muito de Muito Além do Peso, e eles me convidaram pra fazer o Tarja Branca. A ideia inicial era fazer algo relacionado aos brincantes da cultura popular brasileira. O formato, se seria um curta-metragem, ou longa, TV ou cinema, ninguém sabia. Então, mergulhei no assunto, que mal tinha contato antes da pesquisa para o filme, e a minha primeira pergunta foi: “Por que essas figuras se autointitulam brincantes? Por que a gente fala 'vamos brincar o carnaval'? Isso é mesmo do povo brasileiro? Por que falamos assim?” Me colocando como espectador, pensei: primeiro temos que entender o que é de fato brincar. Ao longo do tempo, o sistema subverteu o significado de brincar. Acho que é o sistema como um todo, nosso modelo sócioeconomico, nossa história capitalista. Tudo pra fazer que o ser humano abandone o espírito livre. Do jeito que está, o ser humano precisa ser útil ao sistema e para a produção. E consequentemente consumir, consumir, consumir. O brincar é sério. É nosso espírito lúdico e criador. Isso foi sendo abafado. Brincar ficou visto como negativo, leviano. O ser humano bem sucedido é o que produz e consome. Seres austeros, muito menos felizes e muito menos saudáveis. Você precisa ser rentável. Por isso tanto consumo de remédio tarja preta. Evidente que a indústria farmacêutica tem interesse. Mas a verdade é que ela simplesmente aproveita o filão que é a insatisfação de não fazermos o que gostamos na nossa vida. Porque tudo é mercado.

Pode nos dizer mais da escolha do nome Tarja Branca? Quando começamos a pensar em como abordar o espírito lúdico e tentar introduzi-lo ao espectador de maneira clara, para que pudesse identificá-lo nele próprio, notamos que havia necessidade de que falássemos disso sob pontos de vistas diferentes. Entrevistamos não apenas brincantes, mas jornalistas, artistas, educadores, músicos, e médicos, pra que tivéssemos também o ponto de vista psicanalítico sobre o tema. Foi uma experiência que abriu muito nossa mente; achávamos que nossa atitude seria psicanaliticamente mal vista e aconteceu justamente o contrário, o que foi muito importante para que entendêssemos a seriedade do “brincar”. Então, conseguimos muitos dados sobre a medicalização dos afetos, de como as pessoas são infelizes, apesar de felicidade ser algo muito abstrato. Estamos num momento em que cada vez mais o sistema nos empurra pra uma massificação, na qual todos os seres humanos têm que ser iguais. Precismos agir de formas iguais comportamentalmente, como se fossemos moldados. Então, foram medicalizados os sentimentos dos afetos, como se fosse errado sentirmos tristeza. É uma questão de aceitação da vida, pois ela não é uma pista plana, e sim como uma montanha-russa. Não sou contra a medicalização das pessoas, mas dos sentimentos, dos afetos. Hoje em dia, a alegria não está na moda, a depressão, sim.

Mas quem inspirou o título do documentário foi Hélio Leites, um artista de Curitiba [um dos personagens do documentário]. Ele “criou” um remédio tarja branca, e diz que, no futuro, o remédio não vai mais entrar pela boca, sim pelos ouvidos, a partir das palavras. Infelizmente muitas pessoas ainda não usam esse método, pois precisam se relacionar de novo, falar com as outras, se comunicar, usar seu corpo como ofício de alegria e aceitar as tristezas.

Outro assunto que o documentário apresenta é o ócio e a importância dele. Ao longo dos séculos, o “brincar” passou a ser malvisto, deu-se um outro sentido a ele, no sentido da zombaria e de não levar as coisas a sério, em função do sistema transformar o homem num ser fabril e produtivo, uma vez que esse tipo de homem pode ser moldado. A missão mais nobre do documentário é quebrar esses paradigmas. Brincar é estar pleno, quando nos conectamos com nós mesmos, com o outro, com o universo, com a natureza. Quando uma pessoa realiza uma atividade que é fonte de satisfação pra ela, está brincando. Nós queremos resgatar o real sentido do que é o “brincar”; somos um povo que tem essas figuras dos brincantes, mestres que ainda guardam o Brasil nas suas tradições, como no Maracatu, no Cavalo Marinho e em festas populares, no sentido de entendermos nossa identidade também como povo brasileiro, pois somos um povo brincalhão no bom sentido, e não no sentido pejorativo do “brincar”.

Depois de dirigir o filme, muita coisa deve ter mudado na sua cabeça. Novas percepções, por exemplo. O filme mudou muito a minha vida. Acho que eu estava na roda também. O simples fato de refletir a respeito disso, já é um começo. Ele não propõe um resgate a uma infância que foi perdida. Não é isso. Você resgata os anseios que tínhamos quando éramos novos. E lembrarmos do olhar curioso que tínhamos em relação ao mundo e ao outro. E isso pode estar em qualquer ofício, e em qualquer etapa da vida. Somos o país da alegria, o país do Carnaval. Sim, somos! Mas precisamos entender isso sem ser um discurso ufanista. Precisamos entender como identidade. Estamos em um momento muito estranho, as pessoas não querem colocar uma bandeira do Brasil no seu carro porque acham que estão sendo conivente com o superfaturamento de uma Copa do Mundo. A nossa identidade não pode ser rejeitada por isso. A gente não podia falar desse brincante só do ponto de vista dos artistas. É muito mais profunda essa discussão.

Se há algo moderno que podemos fazer é rever como estamos construindo nossa sociedade. O ócio é de uma inteligência sem tamanho. A forma como estamos nos relacionando com o tempo, estamos sendo serviçais com o tempo, com o sistema. Estamos servindo e não sendo.

E com relação às escolas, ao sistema educacional, como eles mudaram o “brincar”? O filme também passa por essa questão. Não me sinto a pessoas mais apta a falar de educação de forma aprofundada, mas o filme realmente passa por isso. Há muito tempo, tínhamos uma educação baseada na rigidez, substituída pela complexidade que trata de ocupar a criança durante a maior parte do seu tempo com atividades, não só na escola, mas também com aulas extracurriculares, fazendo, assim, com que elas não tenham tempo pra brincar. A criança não desenvolve sua autonomia, nem desejo; falta exercitar o lúdico, pois desde o nascimento aprende que deve ser rentável para a sociedade. Inclusive, relaciono essa privação pela qual a criança passa à violência presente na sociedade em que vivemos. O ser humano que se torna violento foi violentado, não apenas fisicamente, mas de suas capacidades de ser, estar, brincar.

Essa questão da revolução da criança é uma provocação, um convite a fazermos uma revolução interna, que é buscarmos o espírito lúdico agora. E isso não é infantilizar o adulto. Mas sim é uma coisa profundamente simples, fundamental, humana. O resgate do espírito lúdico é trazer um olhar mais lúdico do mundo. Precisamos quebrar os paradigmas que nos dizem que não podemos ser tristes, não podemos ser frágeis. Estamos robotizando a sociedade.

Você acredita que dá pra unir um mundo completamente digital, tecnológico e consumista e ao mesmo tempo ter esse resgate do espírito lúdico? Claro. É absolutamente possível. Acho que precisamos entender que a tecnologia deve estar a serviço da sociedade de uma maneira mais benéfica. Precisamos nos questionar se ela está nos trazendo felicidade, bem estar e satisfação. Agora, o consumismo desenfreado, óbvio que ele não pode trazer nenhum tipo de satisfação pra gente. Não sou contra dinheiro e contra consumo. Mas o consumo desenfreado faz mal como um todo pra sociedade e para o planeta. É uma busca incessante pela satisfação através do consumo. E essa busca não é eficaz e jamais será. Porque é muito efêmera, como todo consumo. O consumo só faz consumir mais. Precisamos rever seriamente isso. Não dá mais. Não podemos deixar a tecnologia entrar na mesma condição.

Vai lá: em cartaz nos cinemas

TARJA BRANCA - trailer from Maria Farinha Filmes on Vimeo.

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