por Olivia Nachle

Ex-jogador de futebol, espanhol deixou seu coração o guiar pelo Caminho de Santiago em busca de um novo rumo na vida. Acabou em Bali, pra lá ficar

Era uma sexta à noite em Bali. Lá estava eu sozinha, largada no sofá da casa que uns amigos tinham me emprestado, quando Jaime entra pela porta. ‘Hola? Que tal?’, lançou. Acho que não consegui esconder os olhos arregalados. O rapaz, do alto de seu 1,88 m, tem uma beleza que faz querer olhar. Seu rosto é simétrico, quadrado, e a pele traz o bronzeado de quem já há dois anos mora nessa ilha ensolarada. O sorriso misterioso é de um homem moleque, que vive a vida sentindo tudo que ela pode dar a quem anda de peito aberto e percebe o tanto que ela tem a oferecer. 

Dois anos atrás, Jaime Astrain percorreu caminhando 200 quilômetros no Caminho de Santiago de Compostela. Ele conta que foi uma semana inteira com todo o tempo do mundo para pensar e para se conectar. “This is your time”, ouviu lá do fundo. Queria conhecer coisas novas, ouvir outras línguas, mergulhar em outras culturas, sair da zona de conforto em que se acomodou. É que até então ele jogava futebol profissionalmente.

LEIA TAMBÉM: Ensaio de Américo Pinheiro Júnior

Nascido e criado numa pequenina vila no sul da Espanha, Jaime tinha 12 anos quando começou a carreira no Atlético de Madrid. Passou pelo Villareal, pelo Córdoba, pelo Cartagena, pelo Real Jaén. Jogou contra o grande Barcelona, na defesa, grudado em Neymar; treinou duro e diariamente; viajava de lá pra cá…

Foram 15 anos dedicados ao futebol e alguma coisa o fazia sentir que era hora de se jogar no mundo de outra forma. Depois da imersão experimentada na andança pelo Caminho de Santiago, Jaime comprou uma passagem pra Indonésia em busca do diferente. “Logo que cheguei, senti que aqui era meu lugar”, diz. 

Enquanto passa um café  - uma paixão -, ele me fala da vida e olha no fundo da câmera para alguns cliques - assim, naturalmente. Bali é uma ilha intensa: há muita magia, muito carisma e um estilo de vida convidativo. Você se entrega a ela assim que chega - e ela te retribui.

O espanhol chegou assim, de peito aberto. “Senti muita coisa por aqui e é esse sentir que tem guiado meus passos”, conta. “Eu não perco tempo pensando se vai dar certo ou não, o mais importante é seguir os sentimentos e deixar o coração dar os rumos.” O convite para trabalhar como modelo não demorou a chegar e ele foi emendando um trabalho no outro sem nem perceber. “Eu não achava que sabia ser modelo, mas deixei fluir e acabei descobrindo que é um trabalho que consegue me colocar em contato com tudo que venho buscando: viagens, pessoas diferentes, novas culturas e idiomas”, conta. 

No final de junho, Jaime vai passar uns dias nas Filipinas e, na sequência, segue para Itália, Espanha, Alemanha, Cape Town e, lá pra agosto, atravessa o Atlântico até a Colômbia. Se o Brasil está nos planos? “Com certeza quero conhecer.” Só que Jaime bem conhece a energia intensa de Bali, sabe que os planos sempre podem mudar. “Aqui é difícil planejar muito, em dois minutos muita coisa muda”, conta. “Eu não gosto de monotonia e essa é uma das coisas que eu mais amo daqui.”

E nessas, ele segue preenchendo seus dias com tudo aquilo que o faz sentir bem: acordar junto do sol, apreciar aquele belo café da manhã - um ritual sagrado nessa ilha mágica -, encontrar os amigos, fazer exercícios, trabalhar de algum lugar diferente, caminhar no pôr do sol. “É um flow bom de viver e de sentir. Nem sempre a gente acerta, mas, se faz com o coração, a coisa sempre vale a pena.” 

Créditos

Imagem principal: Olivia Nachle

matérias relacionadas