por Autumn Sonnichsen
Tpm #169

Ele é uma mistura de Jamaica com Alemanha. Nascido em Freiburg, no interior, mora em Berlim e tem aquele olhar voraz de quem está descobrindo a cidade grande

Conheci Jason Raffington no café onde ele trabalha em Berlim. Eu e minha equipe estávamos ali olhando a tela do laptop imersos em um casting para escolher um modelo de mãos. E lá estava Jason, me distraindo com seus olhos bonitos, um cappuccino e suas mãos fortes. A pergunta veio naturalmente: quer fazer parte do casting? E não é que entre tantas mãos escolhemos as dele? Foi seu primeiro trabalho como modelo. Suas mãos segurando uma salada se transformaram em outdoors por toda Alemanha. O segundo trabalho foi esse, que você tem o privilégio de ver nestas páginas e onde ele aprendeu a tirar a roupa.

Jason apareceu no apartamento da minha amiga às 8 da manhã, com uma mochila cheia de cuecas, suas camisetas favoritas, muita fome e um sorriso marrento. Fizemos aquelas fotos de praxe: o menino sem camisa no sofá, no chão. Quando ele me contou que jogava basquete, fomos ao parque em frente e pedi que me mostrasse o que sabia fazer. E ele sabe mesmo pular. Depois, disse que precisava de um banho, estava todo suado. Me perguntou o que deveria vestir quando saísse do chuveiro. “Pode ficar só de toalha mesmo”, eu disse.

Filho de pai jamaicano e mãe alemã, Jason nasceu há 23 anos na pequena cidade de Freiburg, no meio da Floresta Negra. O pai tem dreads que vão quase até o chão, ele nunca os cortou. Jason conta que está planejando uma viagem para Jamaica para o ano que vem. “Estou cheio de parentes lá, mas nunca fui visitar”, conta. Esse menino está num momento bonito da vida, se abrindo, se conhecendo. Está morando sozinho pela primeira vez. Acabou de terminar a faculdade de saúde pública na Holanda, onde morou por três anos numa república. Agora, se mudou para Berlim para fazer pós-graduação. Nos fins de semana trabalha numa balada e de segunda a sexta, no café. Ele conta que gosta de lembrar quais são as bebidas favoritas dos clientes, gosta do ritmo do dia e de trabalhar de pé. Também gosta de cozinhar, de comer e de explorar a cidade nova. Tem aquele olhar ingênuo e voraz de quem está descobrindo a cidade grande. É lindo de ver.

Jason conta que jogava basquete até machucar o joelho. Tem três irmãos, todos medem mais de 2 metros de altura e dois deles foram jogadores profissionais. Ele, o caçula, tem “apenas” 1,90 e, por isso, é o pequeno da turma. Mesmo assim, seus pés ficam, charmosamente, para fora da cama. Ele me conta que geralmente dorme na diagonal, senão não cabe mesmo. Mas é o tipo de homem que curte ser grande, ele tem prazer no próprio corpo, na própria força. Diz com sorriso no rosto: “Autumn, você não tem ideia de como é legal ser grande. O melhor é andar com meus irmãos na rua. Todo mundo para pra olhar”. Fico imaginando essa cena, essa pequena turma de homens gigantes, com a pele preta e os olhos da cor de mar, andando por ruazinhas de uma cidade no interior da Alemanha. Deve ser um espetáculo.

Como todo menino grande, Jason sempre tem fome, e abre de novo um enorme sorriso quando fala que precisa comer. Lembra que uma vez fez um exame de saúde, e o resultado dizia que ele precisava ingerir 4 mil calorias por dia e parar de fazer esporte caso quisesse ganhar peso. Fiz uma massa pra ele, em parte por sua fome, e em parte porque acho bonito um homem grande comendo muito. Uma amiga me disse que eu deveria falar da bunda e das costas dele; pra ela, suas curvas parecem coisa de Niemeyer. Mas precisa falar? Além de curvilíneo, Jason é ágil, feliz e aberto. É também grato pela própria história, pela própria pele. Fizemos uma última foto, pelado na cama. Era melhor deixar essa por último. Jason me deu um abraço e foi para o café trabalhar.

 

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Créditos

Foto principal: Autumn Sonnichsen

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