por Lia Bock
Tpm #168

Ele está no cinema, na novela e em breve rodará o Brasil com o Larica Live Concert. Veja as fotos de seu ensaio sensual

"Tem que ser ele", o diretor Caito Ortiz bate o pé. Perde financiamento, perde edital, perde o apoio de parte da equipe que cede à lógica do mercado, mas não desiste. Ele quer Paulo Tiefenthaler no papel principal de O roubo da taça, longa que estreia este mês. A turma da grana pede um ator famoso para fazer o papel do ladrão da taça Jules Rimet e apela para a bilheteria. Cinema tem que conquistar o público. A história real passada em 1983 tem bossa por si só, mas alguém diz que precisa ser o Wagner Moura ou o Selton Mello. "O caralho. Tem que ser o Tiefenthaler." Caito tem certeza. Lusa Silvestre, o roteirista, já estava desenvolvendo o Peralta, protagonista do filme, para Paulo. "Em cada leitura dramática eu pegava os cacoetes dele. Não podia ser outro", conta.

Quem torceu o nariz pulou fora, o filme foi feito só com a metade do dinheiro captado e sem distribuidora. Mas quem precisa de certezas quando tem Paulo Tiefenthaler? Touché. Pelo papel, acaba de ganhar o prêmio de melhor ator no Festival de Cinema de Gramado. "Ele foi um ótimo companheiro de trabalho. Realmente não tinha como ser outra pessoa. O personagem era dele", diz Taís Araújo, que faz Dolores, sua mulher no filme. "Ele brilhou demais. É a força do filme! O Peralta faz uma merda atrás da outra e você ainda torce por ele, justamente porque o Paulo carrega essa energia mágica, é da natureza de menino grande dele", diz Caito.

“Gosto de um universo aberto. Onde a gente pode fazer um pouco de maluquice”
Paulo Tiefenthaler

Aos 48 anos, Paulo é de fato um menino grande. Apesar da família supercatólica, tem uma história desgarrada das vestes tradicionais. Já morou junto algumas vezes, mas nunca casou. "Assim de montar apartamento junto do zero, nunca. E nem sei se vou fazer, apesar de estar sempre pronto para ser surpreendido. Mas vou ter um filho agora em março, fruto de uma amizade-colorida maravilhosa que eu tenho", conta animado. "Tô ansioso e excitado. Quero ser pai há um tempo", revela. Paulo é o tipo de gente que senta para almoçar com Mr. Catra, que faz uma participação no filme, e sai convencido de que precisa ter filhos – Catra tem 32 herdeiros. "Na hora, cinco me pareceu um bom número. Depois acalmei", lembra às gargalhadas. Seu mundo entrelaça brincadeira e seriedade, piada e atitude política.

Apaixonado pela diversidade, Paulo gosta do que é esquisito, diferente, um pouco estranho. Sua turma mais chegada mora muito mais no submundo das artes contemporâneas do que nos corredores das emissoras de TV. "Gosto de um universo aberto para quebra de padrões. Onde a gente pode fazer um pouco de maluquice", diz. Mas e o atual papel de neurótico em Haja coração, novela das 7 da Globo? "Posso fazer também. Aliás, estou achando maravilhosa essa oportunidade. A Globo tá me descobrindo como galã de meia idade. Me sinto um rapaz de 40", diz rindo.

A imensidão
Ser o cara da novela das 7 e um dos criadores de uma instalação performático-musical chamada Aplique de carne – um mito amazônico-carioca em que, dentre outras coisas, uma mulher criada por um arraia, desenvolve lábios vaginais gigantes e ao gozar cria um rio – resume bem a imensidão que é Paulo Tiefenthaler. O cara que diz o que pensa e algumas vezes literalmente engole as palavras de volta para reformular a frase. "Ele sempre foi o menino bagunceiro da escola mas nunca deixava de ser querido pelos professores", lembra Christian Gaul, fotógrafo deste ensaio e amigo de infância de Paulo. Ambos estudaram numa escola suíço-brasileira no Rio. Paulo é "cariocaço", mas sabe filosofar em alemão. O pai, comerciante, era suíço, veio para o Brasil aos 13 anos, e a mãe é Teresópolis. Ele e a irmã foram criados entre a casa em Copacabana e o sítio na cidade serrana do Rio. Pra Suíça, ele foi algumas vezes, mas foi na França, aos 22 anos, que engatou no curso de teatro que o levaria de vez para o mundo da atuação. "Aliás, eu descobri a cultura brasileira na França, morando com dois indianos apaixonados pelo Brasil", lembra. E se tem alguém apaixonado por algo, Paulo para pra ouvir, pra absorver. Visceral, ele gosta do que arrebata, do que move.

“Ele é transparente e amoroso, além de ser um Don Juan por excelência”
Camila Groch, produtora de cinema

Foi com a energia das entranhas que ele deu vida a outro Paulo, o Oliveira, no seriado Larica total. O programa de culinária e humor foi ao ar em 2009 no Canal Brasil. Fazendo um tipo doidão, Paulo cozinhava coisas básicas de forma precária, numa cozinha bagunçada e com o que tinha na geladeira. Foi com certeza o precursor da tendência de culinária ogra e se tornou cult num mundo onde os programas de comida são o tempero certo para levantar a audiência. A simbiose entre Paulo e larica foi tanta que até hoje, e muitos seriados (FDP, da HBO; Terminadores, da Band; e Amor Veríssimo, do GNT, entre eles) depois, Paulo segue sendo parado na rua por causa do programa, extinto há quatro anos com o fim da terceira temporada. E foi justamente por essa comoção que ele resolveu parar com o Larica. "Eu não aguentava mais. Estava virando um comediante de um personagem só. E eu gosto de diversificar. O programa foi incrível, aquele improviso, aquela liberdade, aquele tesão foram demais. Entrei com tudo naquilo, mas precisava sair pra seguir tendo orgulho. Como já não dava dinheiro, foi a deixa pra parar." Mas, como nenhuma paixão morre nas mãos do ator, em novembro uma versão remodelada, turbinada e ao vivo do Larica ganhará o Brasil. Através de um financiamento coletivo, Paulo e dois amigos músicos, Bernardo Paulera e Daniel Castañera, levantaram grana para montar o Larica Live Concert, como ele mesmo diz: um stand-up com culinária e música. Mas Paulo logo avisa: "Não vai ter personagem, serei eu mesmo numa cozinha sobre rodas falando de comida, do broto ao bacon. A ideia é falar sobre o que estamos colocando pra dentro. E é muita merda que a gente põe pra dentro. Vai ser engraçado, eu vou cantar, mas é um teatro político, não vou poupar ninguém".

E posar pelado, como foi? "Sempre quis fazer algo nu. Gosto disso", ele diz com naturalidade. A amiga e produtora de cinema Camila Groch diz que Paulo tem essa persona vaidosa e amalucada, mas que sua profundidade vai quilômetros além. "Ele é um cara extremamente observador, sensível e autêntico. É uma usina de emoções e ideias, mas tem a capacidade de ficar em silêncio com o olhar perdido um tempão enquanto reflete sobre algo. Ele é transparente, amoroso e consegue nos fazer rir mesmo quando não tem intenção. Além de ser um Don Juan por excelência, é claro."

Créditos

Foto principal: Christian Gaul

Paulo Veste Calça Reserva Bermuda Redley camisa e sapato acervo produção Coordenador de produção Alex Bezerra Estilo Carlos Peti Agradecimentos Camila Silva/Teatro Rival Petrobrás

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