por Camila Eiroa

Em novo single-manifesto, cantora pede o fim da violência de gênero e reúne mais de 80 mulheres em clipe, entre elas, Maria da Penha, Elza Soares e Júlia Lemmertz

Respeita! Quantas vezes você, mulher, conseguiu dizer essa palavra em alto e bom tom em uma situação de abuso? Provavelmente, poucas. Silenciar é a arma mais próxima em uma sociedade que culpa mulheres por assédios sofridos. O que acontece quando começamos a falar sobre a situação é um reconhecimento mútuo: todas têm as mesmas feridas e a mesma luta. Para reiterar a importância de quebrar o silêncio, a cantora Ana Cañas trata de sua experiência pessoal com sua nova música, Respeita, que fala justamente sobre a violência de gênero e ganhou clipe com a participação de mais de 80 mulheres.

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“Ainda no começo deste ano, com o show Mulher Galáxia, comecei a abordar a minha história de abuso. Quando fui escrever a letra de Respeita, que fala sobre algo que é verdadeiramente meu, me questionei por que levei 20 anos para ter coragem de dizer que também sou vítima de assédio”, conta. Para a cantora, a experiência foi transformadora e mostrou a importância de se falar sobre esses casos até para que possam ser denunciados. “No dia da gravação, conversei com muitas meninas que foram estupradas, ou que a mãe ou a tia foram estupradas. Da elite paulistana ao Vidigal, a história é a mesma”, diz Ana.

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A música, que teve produção de Rica Amabis e Tejo Damasceno, do Instituto, ganhou clipe com direção de Isadora Brant e João Wainer. A equipe, de 12 pessoas, ajudou a formar o time de mulheres que participam do vídeo. De atrizes globais, grafiteiras e cantoras à presidente de cooperativa de recicláveis e liderança da ocupação Mauá e Hotel Cambridge, todas as 86 mulheres tinham a mesma missão: fechar os olhos, pensar em qualquer situação de violência vivida, abrir e responder para a câmera com o olhar. “Foi muito forte ver como cada mulher reagia, foi avassalador. Todas tinham em que pensar ao fechar os olhos”, entrega.

Ainda na opinião da cantora, existem dois momentos de silêncio. Um, no ato do estupro ou do abuso, por medo ou coerção física. O outro, após ser vítima. “Você divide isso com um terapeuta quando pode pagar e olhe lá. Dá medo, dá vergonha de a sociedade dizer que você provocou aquilo. A gente precisa falar quais gestos são agressivos, mas o tabu da sexualidade não permite que isso aconteça com naturalidade. Seu namorado pegar a sua mão e botar no pau dele é uma coisa agressiva, entende?”

Inspirada pela série Hip Hop Evolution, da Netflix, Respeita tem uma pegada de hip hop oitentista, com versos como “Respeita as mina, porra” e “Meu corpo, minha lei”. Algumas das mulheres que participaram: Ana Khel, Andréia Horta, Dona Divina, Eliane Dias, Elza Soares, Jeckie Brown, Júlia Lemmertz, Karina Buhr, Laura Neiva, Maria Rita Kehl, Maria da Penha, Mariana Lima, Marlene Bergamo, Mel Lisboa, Nathália Dill, Preta Ferreira, Preta Rara, Roberta Martinelli, Sinhá, Sophie Charlotte, Vânia Medeiros, Vera Egito e Zélia Duncan.

Créditos

Foto principal: Divulgação

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