por Camila Eiroa

A figura da mulher negra tem importância no trabalho da cantora, que traça caminho paralelo à banda Aláfia e tem disco previsto para o próximo verão

"Se eu posso fazer alguma coisa pra que essas injustiças sejam menos dolorosas, essa coisa é cantar." Xênia França é poderosa e sabe usar o palco para se expressar. Uma das vocalistas da banda Aláfia, ela se sente madura para lançar carreira solo, que foi recém anunciada com o clipe de Breu, novo single e EP. A música, escrita por seu namorado Lucas Cirillo, gaitista da Aláfia, é uma homenagem à Cláudia Silva, assassinada pela Polícia Militar do Rio de Janeiro em 2014.

"Outra mulher, outro fim, mesma dor", o trecho da letra mostra o que Xênia queria expressar: "Quando eu e Lucas soubemos do que aconteceu com a Cláudia, ficamos estarrecidos. Disse a ele o quanto era difícil ser uma mulher preta nesse país, ele foi até o quarto e fez a letra", conta. Além da temática racial e feminina, o primeiro disco da cantora também vai abordar a relação com sua terra, a Bahia, o amor e a ancestralidade. O lançamento está previsto para o verão de 2017.

Leia abaixo conversa com a Tpm.

Como você retrata a mulher negra no seu trabalho? Da mesma maneira que vivo minha vida. Uma mulher preta tem o que dizer, pode escolher, pode ser feliz. Claro que não deixo de falar sobre a minha insatisfação com as tristezas do povo preto, mas quero mostrar a vida normal de qualquer pessoa, sem ter que provar nenhuma diferença pra ninguém. A vida de quem existe, de quem deseja um amor real e tem diferentes visões de mundo.

Xênia França vai estar na Casa Tpm 2016, que acontece no final de semana dos dias 30 e 31 de julho. Vai lá!

Você sente que pode empoderar outras mulheres com o seu canto? O que adiantar você tomar posse do seu próprio poder e não querer que isso aconteça com os outros? Se empoderar é um trabalho árduo de desconstrução e autoconhecimento. Dentro da própria estrutura do racismo, tenho alguns privilégios e poderia ficar confortável com isso, mas não. Como boa filha de Xangô e Iemanjá, duas energias diferentes, procuro entender quem eu sou e como refletir isso para as pessoas. Em cada palco que subo, procuro as meninas pretas. E elas têm vindo cada vez mais. Eu me vejo nelas, em cada olhar vejo um pouco da minha história. Precisamos estar dispostas a nos conhecer e nos colocar no lugar de todas.

E o palco pra você tem essa função? O palco é um portal. É o auge da conexão entre as pessoas, a música e eu. Sinto medo todas as vezes antes de subir, mas na segunda canção já estou completamente à vontade, com uma sensação de presença absurda. É como se o poder cósmico estivesse ali e fosse ali que eu devesse estar. É importante que os artistas se posicionem, precisamos interferir nas estruturas, a representatividade precisa ser ampla.

Você se sente pronta para a carreira solo? Depois de tantas dúvidas, altos e baixos, medo de me lançar como cantora solo por me sentir totalmente verde, decidi soltar Breu. Pra minha surpresa, a repercussão está sendo ótima. Agora estou em busca de parceria para lançar mais 3 vídeos, o que fecharia o ciclo do EP até dezembro. Em seguida, no começo do ano que vem, começo a pré-produção desse meu tão querido e já amado primeiro disco solo.

O que difere do trabalho com o Aláfia? O Aláfia me oferece muito suporte, foi lá que me consolidei como cantora e tem muito recurso sonoro, estético. A banda é enorme, são 15 pessoas e tenho mais dois companheiros cantores. Já estava me acostumando com esse formato, mas recentemente parei para refletir e quis sair da zona de conforto. A carreira solo, pra mim, significa me experimentar, ouvir a minha voz, testar outros sons que eu curto, decidir o que quero e o que não quero, isso não é muito fácil numa banda grande. Mesmo assim, não se faz nada sozinha.

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Créditos

Imagem principal: Sté Frateschi

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