por Antonia Pellegrino
Tpm #171

Do avanço ao retrocesso, coluna da Antonia Pellegrino

Dois mil e quinze chegou ao fim embalado por uma alegria guerreira. Dois mil e quinze foi o ano em que nós, mulheres, fomos para as ruas dizer não ao projeto do então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que tinha como objetivo dificultar o aborto em caso de estupro (já garantido por lei). Em 2015 a gente encharcou a rede com nossas histórias de abuso. Ocupamos os espaços de fala dos homens e nos fizemos ouvir. Chegamos ao fim de 2015 com mais de 8 milhões de estudantes refletindo na redação do Enem sobre o tema: A Persistência da Violência contra a Mulher.

Em uma sociedade escancaradamente machista como a brasileira, era óbvio que, ao salto afirmativo dado por nós mulheres, viria uma reação conservadora. Ou backlash, na expressão americana cunhada no início dos anos 90 pela feminista Susan Faludi, no livro em que identifica as inúmeras formas de retrocesso em relação aos avanços no campo feminista a partir da década de 60.

Mas quem poderia imaginar que chegaríamos ao fim de 2016 com o Rio de Janeiro (que não levou ao segundo turno o candidato a prefeito envolvido no escândalo de violência contra mulher) em vias de ser governado por um reacionário que homenageia as mulheres no dia 8 de março com a frase: “Uma mulher de salto é poderosa, mas uma mulher de 
joelhos é invencível”?

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Desde 8 de novembro estamos, no Brasil e no mundo, nos perguntando por que tantas mulheres brancas votaram no francamente misógino Donald Trump. Desde 1º de novembro estamos, no Rio de Janeiro e no Brasil, nos perguntando por que tantas mulheres votaram em um candidato conservador como Marcelo Crivella.

Primavera feminista
Para Crivella, discussão de igualdade de gênero nas escolas nunca deve acontecer, sob o argumento de que “nossas crianças de 6 anos não podem estudar sexualidade” – numa clara demonstração de que ele próprio deveria ir para uma sala de aula com crianças de 6 anos aprender a diferença entre ideologia de gênero e sexo.

Essa mudança tão súbita do avanço ao retrocesso, da primavera feminista ao enaltecimento da mulher de joelhos, acentua o caráter infantil da sociedade brasileira. Faz parecer que os movimentos aqui acontecem apenas superficialmente, sem lastro na realidade. E que a primavera feminista eclodiu numa bolha.

Mas não. Pode até ter começado numa bolha, mas irradiou. Hoje, muitas mulheres se assumem feministas com tranquilidade. E, apesar do conservadorismo de nossas mulheres e homens, somos nós, as feministas, que vamos protagonizar a resistência aos retrocessos na agenda de gênero. E, como nossos feminismos têm lastro na realidade, a briga vai ser boa.

Créditos

Imagem principal: Flo Para Branco

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