Revista Trip

Tópico: Corpo
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Vida antes da morte

24 pessoas em dois cliques vitais: um pouco antes do adeus e o seguinte logo depois
12.08.2009 | Texto: Ana Maria Peres | Fotos: >Walter Schels

 

 

“Vim aqui para morrer. Por que ainda não morri?”
Walter Wegner nasceu no dia 18 de dezembro de 1923 e morreu em 13 de março de 2005

Uma ressonância magnética no cérebro do publicitário Heiner Schmitz mostrou que ele não tinha muito tempo de vida. Em poucos dias, o alemão de 52 anos teve de se mudar para um Hospiz, tipo de instituição comum na Europa, voltada ao cuidado de portadores de doenças incuráveis, para amenizar as circunstâncias. Uma pessoa internada em um Hospiz – ou Hospice, em inglês – sabe que a morte está bem próxima.

Nessa época, em novembro de 2003, o fotógrafo Walter Schels, 72, e a jornalista Beate Lakotta, 42, já estavam tocando, há um ano, o projeto Noch Mal Leben (Viver de novo, em tradução livre), com a proposta de documentar a vida – e a morte – de pessoas em situação semelhante à de Schmitz. Em locais como o Hospiz em Hamburgo, onde estava o publicitário, a dupla passou a conviver com pacientes que toparam compartilhar seus últimos instantes. Como resultado de cada paciente acompanhado, dois cliques de Schels – um pouco antes do momento final e, o seguinte, instantes depois da morte – e um depoimento colhido por Beate.

 

 

“Tudo o que está além deste mundo é melhor do que nosso mundo. Melhor do que qualquer coisa que nossa mente possa imaginar.”
Maria Hai-Anh Tuyet Cao nasceu no dia 26 de agosto de 1951 e morreu em 15 de fevereiro de 2004

Todos os escolhidos sofriam com dramas parecidos com o de Schmitz. Os encontros com o publicitário não duraram muito. Durante aquele período, os amigos se empenharam: promoveram várias festas em seu quarto, traziam cervejas, cigarros e assistiam a jogos de futebol pela TV. As meninas da agência levavam flores com desejos de melhoras. Depois de um mês, Heiner se foi. “Algumas pessoas se abriram muito mais com a gente do que com parentes e amigos. Parece bem difícil encontrar alguém disposto a dividir desespero e tristeza”, afirma o fotógrafo.

“Ninguém questiona como me sinto. Estão todos com cagaço. Conversam sobre tudo, menos sobre isso. Acho realmente triste esse jeito desesperado de evitar o assunto. Vocês não entendem? Vou morrer! Esse é o único pensamento que me ocorre.”
Heiner Schmitz nasceu no dia 26 de novembro de 1951 e morreu em 14 de dezembro de 2003

Casados há 12 anos, Walter e Beate contam que o projeto foi um meio de aprender a encarar a própria morte. “Temos 30 anos de diferença. De repente, ficamos assustados com o fato de que um dos dois tinha que morrer primeiro. Como seria a sensação de ficar?”, ela quis saber. “Fomos atrás da resposta.”

Entre dezembro de 2002 e junho de 2005, o casal entrevistou e retratou 24 pessoas de idades e perfis variados, resultando numa exposição que passou por diversos países. “Todos sabemos que vamos morrer um dia. Mas não acreditamos que isso vai nos acontecer de fato”, explica a jornalista, que é especializada em ciência e faz parte do staff da revista Der Spiegel. “Muitos entrevistados disseram que a doença aparecera justamente no momento em que haviam decidido passar mais tempo com a família, viajar bastante, ter mais prazer. Perceberam que a vida estava acabando quando, em tese, deveria começar”, diz. “Agora procuro evitar esse equívoco; estou centrada no presente.”

 

 

“É possível ter uma segunda chance na vida? Acho que não. Eu não tenho medo da morte – vou ser apenas um dos milhões, bilhões de grãos de areia no deserto.”
Klara Behrens nasceu no dia 2 de dezembro de 1920 e morreu em 6 de fevereiro de 2004

Para Walter Schels, o trabalho também o ajudou a se livrar de alguns traumas. “Passei por experiências terríveis durante a Segunda Guerra, quando minha casa foi bombardeada. Com apenas 9 anos tive que identificar corpos queimados dos vizinhos pelas roupas. Desde então, evitei o contato com a morte; aos 18, permaneci distante do meu pai quando ele morreu e, aos 50, nem ousei olhar para minha mãe durante seu velório”, conta. “Durante anos, tive um esqueleto no meu estúdio para tentar superar esse medo, mas não deu certo. Tive que me desfazer dele.”

Após o contato com as pessoas que vemos nestas páginas, ele enxerga o assunto hoje de forma mais amena. “Fazer o último retrato foi uma espécie de meditação sobre minha própria morte. Cada um dos encontros foi um choque de realidade, mas tentamos não lutar contra a tristeza. Na verdade, foi menos assustador do que havia imaginado.” Por quê? “A última vez na vida pode ser uma experiência preciosa e intensa. Com a morte, a dor desaparece. Basta olhar.”

Vai lá: www.noch-mal-leben.de