Um ano e meio depois do repouso do Los Hermanos, Rodrigo Amarante foi bem além do clichê "projeto pessoal". Resolveu dedicar-se ao que faz melhor: sonhar. Arrumou as malas e foi à Califórnia. Resultado: aditivou a banda de Devendra Banhart. Fez uma fértil parceria com Fabrizio Moretti, o baterista dos Strokes, que resultou na banda Little Joy. Trip pegou Amarante no meio de um tour pelo underground dos EUA. Divulga o disco sem roadie, produtor ou cachês decentes. Feliz e calmo, ele está de volta ao básico. De onde, na verdade, nunca saiu.
Não se iluda com a fama, anônimo leitor. O show business não passa de um sonho ornado de aplausos. Veja o caso de Rodrigo Amarante. Há dois anos estava lá — no auge. Hordas gritavam seu nome em shows abarrotados. Era um dos hemisférios criativos da maior banda de seu país, os venerados Los Hermanos. Mas o mundo gira, meu amigo... Hoje ele tá aí, olha só. Na sarjeta.
No sentido concreto, é bom que se diga, assim como o repórter. Ambos sentados no meio-fio de um bairro de poucos recursos em Oklahoma City para a entrevista a seguir. Rodrigo acabou de passar o som em um clube de rock honesto, porém fuleiro. Vai tocar daqui a uma hora e meia com seu novo grupo, Little Joy. US$ 8 a entrada, US$ 3 a cerveja, coisa de 40 pagantes, mais duas bandas no line-up. Ele carregou seus cases e amplificadores e montou o palco com os novos companheiros. Duro, cansado, com a voz judiada, Amarante sente-se tudo, menos rebaixado. Afinal, o tal sonho do show business só ilude quem não sabe que está sonhando.
A agenda de shows parece rota de fugitivo. Em 38 dias, 30 shows, 29 cidades, cada dia em um hotel. Na enorme van, alugada de uma amiga, vão Rodrigo e sua mulher, Karina, a luminosa Binki Shapiro, tecladista e cantora, e Fabrizio Moretti. Se o nome do último não lhe é familiar, sua outra banda deve ser. Moretti, brasileiro, é baterista dos Strokes. No Little Joy ele toca um raro violão tenor e capricha no backing vocal. Apresentações diárias, sempre no mesmo esquema: eles mesmos guiam, descarregam a van, montam o palco, passam o som, comem um grude, vendem merchandising, carregam o porta-malas — e de volta à estrada, a caminho de outro palco de pequeno porte.
Para muita gente não faz sentido. Por que dois dos músicos pop mais bem-sucedidos de seus países toleram a insalubridade do underground? Por que Rodrigo largou a mamata do Los Hermanos, deu adeuzinho à teta da Orquestra Imperial e as costas à vida ganha? Primeiro: o underground nos EUA não é exatamente insalubre. Segundo: Los Hermanos e Orquestra não são exatamente mamatas. Terceiro: não deu as costas a nada. E mais importante: porque ganhar a vida para Rodrigo tem mais a ver com oferecer do que... bem... ganhar. Sem pé-de-meia, sem residência nos EUA, sem certeza do que vai fazer nos próximos meses, aos 32 anos Amarante está mais seguro do que nunca.
“Acredito muito no poder do pensamento, do sonho”, explica sem medo de soar metafísico demais, “acho que isso tem um papel fundamental na construção do destino.” Solto no tempo e no mundo, adotou a sorte como uma fiel vira-lata andando solta ao seu lado. Em seus meses nos EUA, sem plano ou maquinação, foi o responsável por juntar a turma de Devendra Banhart e a de Fabrizio Moretti em Los Angeles. As novas amizades já estão virando novos discos e bandas, não apenas a Little Joy, criando o que pode ser um dos terrenos musicais mais férteis da Califórnia hoje.
Rodrigo tem uma espantosa lucidez para tratar de assuntos voláteis como o éter em si, seus temas favoritos: “Me interesso por qualquer coisa que seja difícil de ser explicada e constrangedora de ser resumida”. É conciso inclusive para rastrear de onde vem sua transparência: “Ser famoso, dar entrevistas, me obriga a ter clareza, a fazer algum sentido, me obriga a ser aberto, mas não ser bobo”. E os pés firmes no chão para entender essa mambembe turnê pela América, “não interessa se eu sou do Los Hermanos e o Fabrizio dos Strokes. Essa é uma banda nova, e precisamos conquistar as pessoas de novo. Não tem outro jeito...”. De algum modo a condição da Little Joy combina com os tempos nos EUA. Recursos reduzidos, um passado para não se apegar, um forte senso de autopreservação e interdependência. Se a crise é o prato da vez, Amarante lambe os beiços: “O reconhecimento da crise é matéria da solução”.
Em momento encaixotando Amarante; ao lado, com o pai, Jayro, e a
irmã Marcela, que aparece também nas outras duas fotos
Em minutos ele vai subir no palco capenga. Vai fazer os 40 gatos pingados aplaudirem cada vez mais alto no fim de lindas canções. Vai dar seus trancos na guitarra, fazer suas dancinhas decididas e vender discos e camisetas depois da gig... Mas antes, no meio da entrevista, é interrompido por uma garota tímida americana. Pede licença e pergunta se ele é do Little Joy. “Eu vim aqui ver vocês. Adoro sua música.”
Falar o quê? Sorte, estrela, trabalho, talento... Que diferença faz? Léguas distante de casa, naquela fria sarjeta de Oklahoma, uma garota com os olhos incontidos de alegria faz Rodrigo Amarante, mais uma vez, parecer fadado ao sucesso. Ninguém o belisque.






