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Fred D’Orey

O surfista estilista ataca a política, a elite, a moda e diz: 'O país não vai dar certo'
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13.04.2009 | Texto por Giuliano Cedroni Fotos Leandro Pagliaro

Muitos sonham. Alguns falam. Poucos realizam. Fred d’Orey pertence a essa última categoria. Nascido de mãe sueca e pai carioca, Fred teve o privilégio de descobrir muito jovem que seu talento maior se encontrava na fina arte de caminhar sobre as ondas. E que, para isso, precisaria conviver com aquela faixa de terra onde o chão deixa de ser firme, onde o sol é adorado, onde os corpos podem desfilar quase nus e, sobretudo, onde todo brasileiro sonha estar – a praia.

Frederico Guilherme Kumlin d’Orey é fruto da união entre uma decoradora de família de diplomatas europeus e um pai que pilotava carros de Fórmula 1. Nasceu no Rio de Janeiro em 1962, quando a cidade materializava a maneira bossa-nova de viver. Mas o garoto não tirava os olhos da água. Nativo do Arpoador, costumava passar horas de olho na faixa conhecida como line up, onde as ondas quebram. E foi nessa vigília incansável que o garoto testemunhou a chegada do movimento hippie ao Brasil, a descoberta da maconha como droga social, a revolução comportamental em torno do Píer de Ipanema, a consagração do biquíni brasileiro, Petit, Rico, Bocão, a família Gracie. Sem saber, Fred testemunhava o surgimento da cultura de praia no Brasil.

Conheci Fred no line up do Inside Corner, onda perigosa que varre a bancada de Uluwatu durante a maré baixa. Era a Bali de 1993, pré-conflitos de Jacarta, pré-bombas em Kuta, pré-tsunami. Eu vivia o sonho de quase todo surfista de minha geração; morava na casa de uma família balinesa sem luz, sem internet, sem celular, mas com três pranchas na parede. Enquanto eu brincava de Gerry Lopez, Fred cortava a ilha de um lado a outro equilibrando a exportação de produtos balineses num pé, e a maré certa para surfar no outro. O cara surfava o Corner como poucos e, sem saber, costurava as barras do que seria a Totem.
Criada há 15 anos, a grife possui duas fábricas (uma no Rio, uma em Bali), que somam 200 funcionários, e 11 lojas próprias, além de distribuir suas peças em centenas de pontos de venda no Brasil e mais 11 países. Fred dirige toda a parte criativa, desde a aprovação dos desenhos das roupas até a criação da bem editada newsletter, passando pelo garimpo das músicas que enchem os podcasts no site da grife e a direção dos catálogos. Num deles, aliás, Fred serviu como modelo, noutro fotografou toda a coleção, o que gerou comentários ácidos do mercado sobre sua personalidade egocentrada. “Depois disso, a tabela de preços dos fotógrafos despencou”, diverte-se em seu apartamento em Ipanema, onde recebeu a Trip para uma longa conversa. Nela, Fred se mostra indignado com o país. “Adorava o [Paulo] Francis e hoje adoro o [Diogo] Mainardi e o [Arnaldo] Jabor. Eles estão certos, os políticos brasileiros devem ser todos presos!” Essa vertente polêmica alimenta uma fama de encrenqueiro no universo do surf, fama esta que começa a invadir a praia do mundinho fashion: “Não tenho saco pra fofoquinha do mundo da moda, acho tudo um saco!”.
O fato é que Fred faz. Ele é daqueles que já viveram várias vidas em uma e aposentar-se não desponta em seu horizonte. Já foi campeão brasileiro de surf e o mais bem pago atleta das ondas do país; já teve o próprio jornal e editou revista dos outros; já viveu em Garopaba, em Florianópolis e atualmente mira a Austrália. Como se não bastasse a Totem e a coluna mensal que mantém na revista Fluir (e que gerou o livro Outras ondas, recém-lançado pela editora Gaia), ele ainda arranja tempo para produzir uma mostra de cinema pop, com foco em música e comportamento. Num episódio surpreendente, juntou quase mil pessoas em Ipanema para protestar contra a violência após ser assaltado quando voltava do aeroporto numa de suas inúmeras viagens pelo mundo.
Um dia, já de volta ao Brasil, meus amigos de praia me telefonaram dizendo que Fred dedicara um artigo sobre meus dias de Uluwatu. Falava de surf, liberdade, desprendimento, superestimando um estilo de vida que eu nem sabia que levava. Quinze anos depois, é hora de inverter os papéis. A seguir um retrato dividido em páginas de alguém que conseguiu moldar sua vida através do surf sem cair no clichê do rato de praia e do surfista maconheiro. Afinal, quem disse que na praia só tem vagabundo?
Você viveu a praia carioca desde o fim dos anos 60 e durante toda a década de 70, num período em que aquela faixa de areia era mágica. Muita coisa aconteceu ali, seja na música, no surf, na moda, no comportamento, nas drogas. Como foi ver essa cena de camarote?
Acho que a geração de surfistas do início da década de 70 no Brasil é parecida com a do fim da década de 50 na Califórnia. Foi a galera que chegou à praia e falou: “Porra, mas isso aqui é o melhor lugar do mundo. Não quero mais sair daqui! Como é que eu faço?”. Então tiveram que inventar um esporte e quebraram a cara pra isso. Teve uma geração antes da minha que correu os maiores riscos de abrir mão do emprego público ou do emprego na empresa do pai, de deixar de estudar, de crescer o cabelo. Eu era mais moleque, queria mesmo era surfar.

Que tipo de criança você era?

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Sem tirar os olhos das ondas em 1975, aos 12 anos, na praia da Macumba

Bem tímido. Depois que minha mãe foi embora, eu fiquei muito quieto, sofrendo aquilo. Na verdade comecei a perceber isso só depois que fui pai e as coisas começaram a voltar em flashback. E o surf me ajudou muito, me deu segurança pra me libertar e conquistar um espaço dentro do grupo, comecei a ser admirado pelo talento de pegar onda.

 

Quando teve o primeiro contato com o surf?
Bem cedo, na praia de Pitangueiras, no Guarujá. Fiquei louco ao ver os caras pegando onda pela primeira vez. Aí comecei a pegar onda com 7, 8 anos de idade.

No isopor?
Prancha de isopor, mas a gente fazia as mesmas coisas que os caras de [prancha de] fibra faziam, as mesmas manobras. Era engraçado.

Você viveu aquela cena do Píer de Ipanema, nos anos 70?
Não, porque meu pai não deixava eu ir ao Píer, era lugar de maconheiro, de cabeludo. Ali ficavam o Pepê, o Rico, o Bocão, caras mais velhos do que eu, que era o garotinho que ficava olhando de longe, meio assustado com aquilo tudo, mas ao mesmo tempo fascinado. Queria fazer parte daquilo um dia.

E, em cima daquela contracultura toda, muito surf?
Eu surfava todo dia, cara. Chegava a surfar até antes do colégio, e o ônibus escolar passava pra me pegar às sete da manhã! No surf eu realmente me encontrei. Falo pro meu filho: “Pô, Martin, não interessa se você não gosta de surf, não tem problema, mas você tem que encontrar alguma coisa de que goste, e então tudo vai conspirar a teu favor”.

Ele pega onda?

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Fred e Martin, pai e filho, no Arpoador,
lugar onde o estilista cresceu

Ele aprendeu a pegar onda, mas começou a faltar na aula de surf, e um belo dia eu vi que ele não tava mais a fim. Então a gente conversou. Eu disse: “Martin, acho que você não gosta de pegar onda e você não precisa pegar onda. Eu gosto de você igual, cara, não vai mudar nada entre a gente.”.

 

Rolou pressão da sua parte para que ele fosse surfista? Isso é comum.
Eu aspirava que ele fosse surfista muito pela oportunidade de conviver mais com ele, de viajar junto. Porra, viajei o mundo por causa do surf, e se ele pega onda a gente vai fazer várias viagens juntos. Se ele não pega, vou ter que fazer as minhas viagens e vou ter que encontrar tempo pra fazer as viagens com ele também. Então a gente vai perder tempo junto. Mas quando eu fui conversar com ele a gente se aproximou mais, porque ele se emocionou com aquilo, tirou um peso das costas, começou a escorrer lágrimas dos olhos dele, tipo “que bom que eu não preciso mais”.

 

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