O esporte como super­a­ção

Ao sofrer o acidente de carro que o deixou sem movimentos da cintura para baixo, em 2009, o paulista Fernando Fernandes, 35 anos, entendeu que teria que optar entre duas alternativas para dar sequência à vida. A primeira o faria se dedicar integralmente à possibilidade de voltar a andar – ainda que a possibilidade seja remota, quando se trata de lesão medular os médicos nunca a descartam. A outra, e talvez a mais difícil, seria aceitar a nova realidade e seguir. “Escolhi a segunda”, diz Fernando, sabendo que a primeira o obrigaria a se focar mais em si mesmo e a segunda o levaria para o mundo. “O fundo do poço não passa da noite para o dia, é uma batalha, mas uma hora a gente sai dali e entende que a felicidade, tanto a minha como a daqueles que me amam, estava ligada ao fato de como eu ia reagir.”

Aceitar a vida, com tudo o que ela oferece, é tarefa penosa para qualquer pessoa, mas Fernando estava prestes a descobrir que tomar decisões corajosas gera grandes recompensas. Apenas seis meses depois do acidente, movido pelo que podemos chamar de a coragem da ignorância, se inscreveu para disputar a São Silvestre sem ter noção de como pilotar uma cadeira de corrida. A experiência seria ao mesmo tempo a mais penosa e a mais significativa de sua vida. Sem saber frear, usava as mãos sempre que precisava parar, o que estourou suas luvas já no segundo dos 15 quilômetros de prova. Com as mãos em carne viva, ia empurrando a cadeira gritando de dor, e, a alguns metros da linha de chegada, quando tudo parecia resolvido, o pneu furou. Exausto e desanimado, pensou em desistir, mas seguiu empurrando a cadeira até o fim. “Fui o último a chegar, mas aquele foi o momento mais importante da minha vida. Tudo ali indicava que eu ia fracassar e virei o jogo”, lembra.

Quando sofreu o acidente, Fernando, que era modelo, estava de partida para a Europa, onde iria desfilar na Semana de Moda de Milão para os mais badalados estilistas do mundo. “De repente precisei me reinventar. Pensei: se tenho meio corpo funcionando, vou fazer bom uso dele.” Ao descobrir a canoagem, ele entendeu que poderia resgatar o lado atleta, que era na verdade um sonho antigo, e que com a canoagem ele se colocava em igualdade. “Na água somos rigorosamente iguais, e isso me fascinou. Depois de algum tempo me bateu: por que não dar essa chance a crianças que passem pelo que eu passo?” Em 2013, quatro anos depois do acidente, ele fundou o Instituto Fernando Fernandes Life, ou o IFFL, para ajudar crianças com dificuldades motoras a se reinserirem na sociedade através da canoagem. “Com o Instituto entendi que ao oferecer uma chance a outros a gente acaba ganhando coisas que jamais imaginou ganhar. Essa criançada me dá força e esperança.”

Fernando já ganhou quatro vezes o mundial de paracanoagem, mas não conseguiu vaga para a Paralimpíada do Rio de Janeiro, o que foi uma grande frustração. “As dores na vida seguem sendo as mesmas, não importa se você está sentado ou em pé, mas hoje sei que posso me superar. É uma lição importante aprender que fatalidades geram oportunidades.” Fora da competição, Fernando (que participou da segunda edição do Big Brother Brasil, em 2002) foi convidado pela Globo para ser comentarista. “Acabei me reabilitando para a vida não apenas fisicamente”, diz. Se antes ele era um modelo bem cotado e um atleta frustrado, agora se considera um ser humano em evolução e um atleta bem-sucedido.

“Ser deficiente não é ser incapaz. O coitadismo não vai mudar esse cenário, só vamos virar esse jogo se nos apresentarmos com dignidade e grandeza”, diz Fernando. Para mostrar que tudo está ao seu alcance, ele já surfou a pororoca de caiaque, fez motocross e saltou de paraquedas. O Instituto é a forma que encontrou de fazer pelos outros o que a vida fez com ele: mostrar que o esporte tem poder mágico, que o cadeirante é tão capaz quanto qualquer outro e que a vida segue plena. “A gente não faz nada de grandioso no Instituto. É um trabalho ainda pequeno, mas altamente transformador na medida em que oferece dignidade. Às vezes basta um dia por lá para que a pessoa saia transformada”, diz. Para completar, nas aulas do IFFL, a ideia de Fernando é misturar deficientes e não deficientes, para que o processo de inclusão seja mais bem assimilado. “No Instituto todos são bem-vindos.”

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