A escolha de Sophia

A caçula dos Medina acelera rumo ao topo do mundo do surf por uma simples razão: é o que ela quer. E o plano, que envolve uma pequena operação de guerra, começa a funcionar

por Pedro Carvalho em

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Quinta-feira, por volta das 15 horas. Um grupo de dez crianças, entre 9 e 13 anos, surfava em frente à rua 15, em Maresias. A maioria descansava sobre as pranchas no momento em que, sem aviso, uma parede de água verde-chumbo escondeu o horizonte. O grupo começou a remar na direção dela. No caminho, alguns passam a gritar em incentivo: “Vai, Sô!”.

E então uma menina franzina de 12 anos, vestindo lycra vermelha e biquíni azul, sobe na prancha e desce a parede que tem pelo menos duas vezes a sua altura. Quando passa pela turma, todos se viram para acompanhar a cena. Em seguida, eles ouvem um barulho e veem as quilhas da prancha aparecerem na crista da onda, jogando água para cima em uma manobra forte e precisa. Pouco depois, Sô estava de volta, remando com um sorriso de criança: “Uou, nessa eu dei uma cacetada, hein?!”.

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Apesar do clima descontraído, era mais do que uma brincadeira. Sô (na verdade, Sophia Medina, a irmã caçula do primeiro brasileiro campeão mundial de surf) vive uma impressionante preparação para se tornar, ela também, uma campeã. As duas horas que surfa todos os dias – sempre acompanhada por fisioterapeutas, pedagogos, nutricionistas, além de técnicos e cinegrafistas (para depois rever e estudar os próprios movimentos) – fazem parte desse plano, que acaba de avançar casas importantes.

"O nome até me ajuda, mas quero criar a minha história. Para ser justo", diz Sophia Medina - Crédito: Aleko Stergiou

No início do ano, Sophia assinou com um patrocinador de peso, no setor de surfwear. Em fevereiro, ela ganhou um dos mais tradicionais campeonatos para jovens surfistas: o Grom Search, disputado no Rio de Janeiro e em Santa Catarina. Competiu na categoria de garotas até 16 anos. Como prêmio, em 2018 ela participará da final mundial do evento, ainda sem data e local definidos. Vale lembrar: no ano passado, Sophia venceu o brasileiro Sub-12 e chegou à final da categoria de meninas até 14 anos. E a pequena Medina está prestes a ganhar um programa só dela no canal Off, ainda sem nome escolhido.

Nada disso tem acontecido por acaso. Eis a rotina de Sophia. Se o mar está bom, ela surfa antes de ir para a aula, que começa às 8 horas. (“Acho interessante ciências, mas gosto de matemática, porque sempre tem uma coisa nova e tudo tem uma razão”, ela diz. Sophia é articulada e boa de papo.) As tardes, ela passa no Instituto Gabriel Medina (IGM), o centro de treinamento de primeiro mundo que o irmão construiu em Maresias. Ali ­– junto de outros 31 jovens selecionados em um torneio de surf – ela tem aulas de natação, ginástica funcional, apneia, inglês e informática. E, duas horas por dia, ela surfa. Três vezes por semana, assiste aos vídeos para analisar suas manobras com os treinadores.

Sophia no colo do pai, Charles, a mãe, Simone e o irmão, Gabriel - Crédito: Arquivo pessoal

Aos 12 anos, ela já explorou as ondas da Califórnia, do Havaí, das ilhas Maldivas e da Austrália. Sophia é instruída a não andar mais de skate para não se machucar, nem jogar futebol – que ela adora – porque “são totalmente diferentes os músculos que trabalham”. Tem a alimentação controlada, mas ainda tem idade para tomar uma “Coca-Colazinha”. “Meu pai [Charles Saldanha, padrasto e técnico de Gabriel] fala para eu aproveitar até os 15 anos, porque chegará uma idade em que não poderei mais tomar isso, né?” Tem ainda as sessões de media training, em que ela aprende a falar com jornalistas – e não é fácil marcar uma conversa com a Sô, porque a assessoria de imprensa impõe uma série de condições para que o papo não atrapalhe os treinos.

Comemorando o título brasileiro conquistado em Itamambuca, em 2017 - Crédito: Arquivo pessoal

É natural se perguntar quais efeitos essa pequena operação de guerra – somada à pressão do sobrenome – causa na cabeça de uma menina de 12 anos. “Tento não carregar muito o nome do meu irmão”, ela diz, antes de fazer uma pausa para pensar. “Para algumas coisas, o nome até me ajuda, mas eu quero criar a minha história. Quero conseguir por mim mesma, para ser justo, sabe? Um mundo justo.” No mais, a sensação é de que ela adora aquela rotina. “Meus pais falam que eu posso fazer o que quiser, estudar o que quiser. Mas eu quero isso para a minha vida. Espero chegar no CT [o circuito mundial]. Mas tem muita etapa, da vida e do surf, até lá”, conclui. 

Atrás de um “tubão”

“Eu vejo esse contexto, que envolve fatalmente o Gabriel, como positivo para ela”, avalia Alex Willian César, o Leco, coordenador técnico do IGM. “O Charles [que também é técnico de Sophia] agora tem uma bagagem grande, até para não cometer com ela eventuais erros que tenha cometido com o ‘Biel’. E ela lida bem com essa posição. Ao mesmo tempo em que é bem criança, tem um comprometimento muito grande, é a primeira a acordar para ver o mar. Tem um ‘quê’ de Medina”, ele afirma. Por via das dúvidas, em maio, um psicólogo começará a trabalhar no IGM.

Treinando o seu famoso lay-back - Crédito: Aleko Stergiou

Daqui para frente, ela vai enfrentar testes mais decisivos para medir o seu surf. No ano que vem, pretende competir no Pró Junior, que reúne garotas de até 18 anos do mundo inteiro. Também encara o Grom Search Global e, sem dúvida, vai se tornar a-menina-a-ser-­batida nas competições brasileiras. “A Sophia é casca-grossa. Tem uma rasgada muito forte e um lay-back que virou sua marca registrada, uma manobra que a faz ganhar muitas baterias”, diz o experiente fotógrafo Aleko Stergiou – que produz imagens para o IGM. “Quando o Gabriel foi campeão mundial, quem estava de fora se surpreendeu, mas aqui em Maresias a gente já estava vendo isso acontecer”, completa Leco. “Acredito que a Sophia tem essa possibilidade.”

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A garota, porém, parece mesmo preocupada com um objetivo mais imediato: conseguir pegar um “tubão” em Maresias, a praia onde seu irmão aprendeu essa técnica, a qual usaria depois como arma decisiva no título mundial. “Tubo, tubo mesmo, eu ainda não peguei, só uns ‘chapeuzinhos merreca’. Mas já acertei uns aéreos”, ela conta.

Dentro da água, os olhos de Sô buscam por ondas um pouco mais tubulares do que aquelas da bancada da rua 15. “Onde está melhor, aqui ou mais para lá? Eu queria pegar uns tubos...”, ela perguntou a Rafael Maeco, o salva-vidas que acompanhava as crianças, enquanto apontava o lado norte da praia. “Olha, mais para lá está melhor...”, ele responde. Para, em seguida, como quem subitamente se dá conta do que está falando, reformular a orientação: “Mas fica por aqui, Sô, porque o campeonato do fim de semana vai ser aqui nesta onda, e você precisa treinar”.

Créditos

Imagem principal: Aleko Stergiou

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