#listadaslistas

Pena Schmidt cruzou dados de 121 listas de melhores do ano e chegou nos 51 artistas mais elogiados da música brasileira atual

por alexandre matias em

Trip / Música / Rap / Samba / Rock / Jazz

Dependendo da perspectiva, a música brasileira parece que são duas. De um lado, temos uma vasta gama de artistas e produtores que redesenham o cenário musical brasileiro misturando referências estrangeiras e nacionais, letras desafiadoras, gêneros musicais, experimentos estéticos, células rítmicas e harmonias tipicamente brasileiras. Do outro, há um mastodonte midiático que é referido como sertanejo, embora misture referências de pagode, axé e dance, fature milhões de reais em discos vendidos, plays em mídias digitais e publicidade e repita refrões com poucas sílabas. Ciente dessa discrepância, o veterano produtor Pena Schmidt —  um dos nomes mais importantes da música brasileira recente —, decidiu criar um método para tentar determinar outros recortes de importância que ultrapassem os números e cifras da música comercial brasileira para mostrar, quantitativamente, a boa fase que nossa cultura atravessa. 

LEIA TAMBÉM: Rincon Sapiência, um dos artistas mais comentados do rap nacional, fala de Galanga Livre, em que mescla a África ao funk em um enredo épico de afirmação negra

Ele se debruçou durante meses sobre planilhas, títulos de discos e listas de melhores do ano para transformar o desafio numa espécie de algoritmo não-digital. “O que me interessa é que surja e fique evidente a noção de que a música brasileira é rica, complexa e não pode ser resumida apenas aos grandes ‘vendedores’”, explica o produtor. “O simples reconhecimento desta diversidade vai proporcionar resultados imediatos ao ecossistema artístico.”

Técnico de som dos Mutantes e produtor que acompanhou a consagração da geração paulistana dos anos 80, Pena Schmidt analisou 121 listas de melhores do ano

Assim, Pena criou um mecanismo divertido e eficaz: uma lista com as melhores listas de melhores discos do ano. Foi um processo que começou entre 2013 e 2014, contou com um hiato nos anos em que foi diretor do Centro Cultural São Paulo (entre 2015 e 2016) e agora é retomado com uma enorme planilha, que reúne mais de 500 discos lançados entre janeiro e dezembro do ano passado, reunindo listas publicadas por mais de cem veículos — seja uma publicação de alcance nacional seja um blog de um jornalista amador, todos com o mesmo peso.

LEIA TAMBÉM: Com nome de planta e phaser na guitarra, Boogarins é uma banda de 4 rapazes de 20 poucos anos que decolou do cerrado brasileiro para mundo

O resultado é inspirador. Nomes novíssimos — tanto em faixa etária quanto em tempo de carreira — predominam nos primeiros lugares, bem como de cidades fora do eixo Rio-São Paulo: o rapper paulistano Rincon Sapiência foi eleito o melhor da lista desse ano seguido pelo vocalista do grupo O Terno, Tim Bernardes, em seu primeiro disco solo, pelo rapper baiano Baco Exu do Blues, a banda goiana Boogarins, o guitarrista de Guarulhos Kiko Dinucci, o rapper paulistano Criolo, a cantora carioca Letrux, o grupo baiano Maglore e a banda potiguar Far from Alaska. Entre os veteranos, destaca-se a presença de Chico Buarque — e mais velhos que a média apenas Paulo Miklos e Sepultura. Entre os representantes pop, a única presença é Pabllo Vittar, que Pena resume como "um artista verdadeiramente pop".

Técnico de som dos Mutantes e produtor que acompanhou a consagração da geração paulistana dos anos 80 (de nomes como Titãs, Ira! e Ultraje a Rigor), Pena tem uma longa lista de serviços prestados à música brasileira — além de diretor do Centro Cultural São Paulo, criou o primeiro selo independente ligado a uma gravadora multinacional nos anos 90, o Tinitus, foi diretor do Auditório Ibirapuera e há tempos é fascinado por métricas e dados aplicados à produção musical. Mas ele não fez todo esse trabalho sozinho.

Apesar de sua obsessão ter sido a força-motriz, ele dividiu o trabalho com Elson Barbosa, do selo e comunidade online Sinewave, Rafael Lopez, do site Hits Perdidos, Juliano Polimeno e Daniel Cukier, ambos da Playax, que trabalha com aferição de dados em reproduções musicais pelo Brasil. “O time trouxe um grande impulso à iniciativa, todos interessados em extrair um panorama mais detalhado da cena musical e o resultado foi uma planilha monstro, com muito mais dados do que apenas os votos”, continua o produtor. “As listas de melhores do ano são sazonais, fecham o ano, são lançadas entre dezembro e janeiro e este era o princípio, uma temporada de caça por ano. Mas a quantidade de dados que temos está transformando a #listadaslistas num projeto mais amplo, um mapeamento mais abrangente. Agora vamos descobrir se temos fôlego para tocar o projeto por mais tempo, por enquanto vejo entusiasmo crescente.” 

O top 10 você confere abaixo; para a lista completa, com 51 artistas, clique aqui — e não deixe de curtir nossa playlist no final da entrevista em que Pena conta mais sobre a ideia de criar a #listadaslistas.

Trip. Você tinha ideia sobre o que descobriria quando começou a pensar neste projeto?

Pena Schmidt. ​De alguma forma, a intuição de que iríamos encontrar algo grande e importante estava presente nas conversas iniciais. Tenho uns textos no meu blog Peripécias do Pena que desenvolvem um pouco mais o assunto. Em 2012 e 2013, havia uma grande comunidade de ​cenas locais espalhadas pelo Brasil, representadas por festivais, casas de música e produtores. Já tínhamos tido a movimentação nacional do Fora do Eixo (coletivo que reunia festivais e cenas independentes na década passada); o Toque no Brasil, um programa que tenta criar conexões entre bandas e promotores, chegava a ter 4000 milhares de bandas; já havia acontecido o Terruá Pará (evento produzido por Carlos Eduardo Miranda que ajudou a consolidar a cena musical paraense); o rap e o hip hop já eram de alcance nacional. A música brasileira estava sendo feita em muitos lugares e não conseguíamos enxergar o todo. Como curador do Auditório Ibirapuera, sabia da riqueza das possibilidades e da enorme dificuldade em enxergar quem estaria se destacando em sua cena local. Daí começa a necessidade de se descobrir mecanismos de aferição de reputações, que é o que as listas de melhores do ano indicam. Que seria tão diversa e surpreendente a lista que somasse todas, essa descoberta só apareceu na prática, altamente recompensante.

Utilizando macrodados para traçar tendências, você mecaniza conceitos subjetivos, tirando extratos estéticos específicos relacionados a um período de tempo. Isso pode ser utilizado com outras medidas, como canções, playlists, diferentes períodos de tempo? Com certeza estamos fascinados com as possibilidades. Uma das primeiras consequências que surgem do acúmulo de dados é esta possibilidade nova de percebermos histórias que os números contam, narrativas que estavam perdidas, fora do conjunto. ​Por isto, a preocupação maior é não ser dono destes dados para que eles possam contar o maior número possível de histórias. Estamos buscando visibilidade para o conjunto de dados sem tentar fechar a interpretação. Que fique evidente a principal manchete, a música brasileira não se resume à música explorada comercialmente, pelo contrário, a #listadaslistas deixa claro que esta não é a parte importante do que se faz na música. Dito isto, uma vez que aprendemos o mecanismo e pegamos o gosto, na medida do que as pernas alcançam, estamos buscando mais listas, tentando as de melhores canções do ano, buscando listas de quem tocou nos festivais. Estes são importantes curadores hoje em dia, queremos completar os dados, especialmente saber quem são os atores, os profissionais que trabalham com estes artistas apontados como importantes, e por aí vai. A evolução não para.

A ausência de artistas pop de grande escala diz o que sobre esta lista e a situação da música brasileira hoje? ​Esse é meu ponto exatamente. Na verdade existe um mercado exacerbado, aparentemente dominado por um estilos musicais absolutamente genéricos, de fórmula repetitiva, com artistas de alto poder de atração de público para grandes eventos em estádios, rodeios e festas, personalidades criadas por alto volume de execução em rádios e playlists, resultado de ações promocionais, popularidade comprada. Este mercado "não-criativo"​ é incentivado por um mecanismo perverso da distribuição do Ecad (entidade arrecadadora de direitos autorais), que favorece exatamente quem frequenta este ambiente de audiência de massa, comprável. Pode ser dito que uma porcentagem muito grande do dinheiro que circula na música no pais, dezenas de bilhões, circula apenas neste mercado tóxico. Para mim, o fato mais importante revelado pela #listadaslistas é a ausencia de artistas ditos comerciais. Para não dizer que os dados são viciados, temos Pabllo Vitar, um artista de altíssima popularidade presente e na vigésima terceira posição - apenas ela. Dá para se afirmar com segurança que ele apesar de ser um artista popular não faz parte deste mercado comercial mencionado, sendo talvez o único artista pop, no sentido de ter um público de massa representado na #listadaslistas. Anitta, outra artista que poderia ter características parecidas não conseguiu dez recomendações, até por não ter disco lançado em 2017, pois, me parece, vive de singles. O grande mercado é formado por artistas que não representam a música brasileira. A #listadaslistas e seus artistas recomendados vem propor que estes são os artistas que nos representam.

LEIA TAMBÉM: Ao mesmo tempo que lida com o Parkinson, Penna Prearo segue criando histórias repletas de significados e humor a partir da fotografia

A lista das listas também consegue identificar e filtrar o que é apenas hype? ​Um olhar rápido sobre as #listasdaslistas anteriores, de 2013 e 2014, mostram que estar entre os artistas mais recomendados não basta, é preciso perseguir a carreira, senão vários desaparecem do mapa. Isto também talvez não seja suficiente para apontar o que seja apenas hype. ​Talvez, para alguns artistas, seu objetivo seja ser apenas hype, quem sabe? Para saber quem terá uma carreira mais substantiva e consistente, vamos precisar levantar os anos de 2015 e 2016 e assim ter um pouco mais de dados para enxergarmos carreiras coerentes. Já dá para ver que nesta safra de artistas muitos tem persistência e coerência em seu trajeto.

A era digital ajuda a quantificar dados sobre hábitos e tendências musicais. Isso não tira a espontaneidade da cena? Acho que não, a cena está acontecendo apesar de programarmos nossa vida no celular. Lidar com informações, ler as tendências e agir a partir do que se aprende com os dados é uma forma de inteligência, os empreendedores de sucesso na cena musical sempre foram os que se lançam no abismo com segurança por que sabem, têm informações que ajudam nas decisões. A cena pode se formar a partir de pequenos núcleos criativos e ousados que rompem padrões e criam novos hábitos, mas para crescer e virar emprego e modo de vida é preciso empreendedores, bem informados.​

Créditos

Imagem principal: Creative Commons

Arquivado em: Trip / Música / Rap / Samba / Rock / Jazz