De volta à estrada

Em turnê pelos EUA com o Little Joy, o baterista do Strokes, Fabrízio Moretti fala sobre sua nova banda

por Carlos Messias em

Trip / Música / Arte / Música

O Little Joy é o projeto paralelo do baterista do Strokes, Fabrízio Moretti, com sua namorada Binki Shapiro e nosso compatriota Rodrigo Amarante, do Los Hermanos. Fabrízio desmente as comparações precipitadas que foram feitas entre o Little Joy e sua banda original, logo que as primeiras músicas vazaram na internet: “A grande diferença é que no Little Joy a gente toca qualquer coisa que vem na cabeça, dá para experimentar muito mais”. De fato, no álbum homônimo de estréia – lançado este mês nos EUA e previsto para sair aqui até o fim do ano –, pouco se vê daquela estrutura engessada do quinteto nova-iorquino. Fabrízio, que nasceu no Rio de Janeiro e foi com a família para lá aos três anos de idade, parece disposto a experimentar novos sabores (reggae, ska e um samba à Los Hermanos) e instrumentos (guitarra tenor, baixo, percussão e escaleta). No começo do ano que vem, o Little Joy colocará essa mistura à prova em solo brasileiro (de 23 a 31 de janeiro, com shows programados para Rio, São Paulo, BH e Salvador). Na estrada, em turnê pelos Estados Unidos, Fabrízio falou com a Trip por telefone.

Hello, is this Fabrizio?
No, this is Rodrigo?

Amarante?!!
É…

Fala Rodrigo, aqui é o Messias, to ligando pela Trip.
E aí, Messias, beleza?

Beleza. Então você vai dar o cano no show da Orquestra Imperial, no Studio SP? [o show aconteceu uma semana depois da entrevista]
Pois é, nem me fala...

O Fabrízio está por aí?
Tá sim, espera um pouco...

Hello, Fabrízio?
Oi.

Você prefere falar em português?
Prefiro, se você conseguir me entender [risos – o português de Fabrízio é claro, pendendo para um leve sotaque carioca].

Claro, sem problemas... Você e o Amarante já se conheciam desde 2006, quando o Los Hermanos abriu o show do Strokes no festival Lisboa Soudz, em Portugal, mas quando vocês decidiram começar a tocar juntos?
Naquela noite a gente até brincou com a idéia de se juntar para tocar. Quando ele veio para os Estados Unidos gravar com o Devendra [Banhart, no disco Smokey Down Thunder Canyon, que saiu em setembro de 2007], em Los Angeles, me ligou pensando que eu estava em Nova York. Por coincidência, eu também estava em LA e aí a gente começou a trabalhar junto. Daí, até o disco chegar pronto em nossas mãos, levou mais ou menos um ano.

O Amarante é muito admirado e respeitado no Brasil. Você já o conhecia por reputação antes de Portugal?
Já conhecia, sim. Quando ele veio falar comigo naquela noite, se apresentou como Rodrigo do Los Hermanos e eu já sabia quem ele era. Meu irmão sempre me mandava CDs do Los Hermanos e eu gostava muito das músicas.

Com ele você se sente mais próximo das suas raízes brasileiras?
Ah, muito mais próximo. Meu português, que ainda está ruim, estava muito pior [risos].

Musicalmente, que diferenças você apontaria entre Strokes e Little Joy?
A grande diferença é que, quando a gente toca no Little Joy, qualquer coisa que vem na cabeça, qualquer emoção que a gente quer expressar, pode ser transformada em música. Não tem restrição. Com o Strokes, tudo tem que ficar dentro daquele formato de duas guitarras, um baixo, uma bateria e um cantor. Agora dá para experimentar muito mais, usamos até guitarra tenor [que tem quatro cordas e uma sonoridade mais rústica].

Como é estar longe dos parceiros de Strokes após dez anos?
A gente não está muito distante, não. Demos um tempo de fazer música juntos, mas somos muito amigos. Eu vejo o Nick [Valensi, guitarrista], que mora em Los Angeles [QG atual do Little Joy] pelo menos uma vez por semana.

[O barulho de uma buzina é escutado na ligação] Vocês estão na estrada?
Sim, estamos na Pensilvânia, a caminho da Filadélfia.



E como é para você voltar a tocar em lugares pequenos, viajando de van, com vocês mesmos dirigindo, com uma estrutura mais modesta?

Tá legal, cara. É ótimo poder começar de novo, de um jeito legal. Ter a oportunidade de viver um começo de novo é uma experiência fantástica.

E como é tocar na mesma banda que a sua namorada?
[Risos] É difícil às vezes. Porque o normal é você levar as emoções de casa para o trabalho e as emoções do trabalho para casa, e assim as coisas se misturam. Mas a gente é tão aberto um com o outro que acaba sendo uma coisa legal.

O Amarante não está segurando vela, não?
Segundo o quê?

Segurando vela, é uma expressão brasileira, tipo estar sobrando, ou, como vocês dizem aí nos EUA, “the third wheel”.
[Gargalhadas: “Ele está perguntando se você não está segurando vela”, Moretti provoca Amarante do outro lado da linha] Não, porque ele trouxe a mulher dele [a atriz e cantora Karine Carvalho] e estamos vivendo como uma grande família.

E para os shows no Brasil, você está animado?
Porra, não vejo a hora de estar aí! Acabei de voltar [esteve aqui no mês de outubro] e já estou com muitas saudades da minha família, dos lugares, do chopinho...

Com que impressão você ficou do público brasileiro quando tocou por aqui com o Strokes?
Porra, o público aí é muito legal. Eu notei uma grande diferença entre o público brasileiro e o americano. Aí parece que eles te abraçam como parte da família. Eles cantam não só as letras das músicas, como os riffs de guitarra, os solos... É uma grande festa. Eu adorei, cara.

Qual a sua cidade preferida no Brasil?
Eu adoro o Rio, é o meu lugar. Foi onde eu nasci e a minha família está toda lá.

E a cultura brasileira, que papel ela exerce na sua vida?
Eu quero me jogar um pouco mais na cultura brasileira, pra dizer a verdade. Na última vez que eu fui, estava com o Amarante. Ele me apresentou para seus amigos músicos, a gente ia para as casas dessas pessoas, cantávamos sambas, tocávamos juntos, fazíamos batuque. Foi muito legal, cara. Eu comecei a ver um aspecto completamente diferente do que eu conhecia, sabe? Essas memórias vêm de infância e vivi uma espécie de reconhecimento.

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