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Arthur Veríssimo, nosso expedicionário dos transes coletivos e estados alterados de consciência, vai a Teresópolis conhecer Chandramukha Sami, um dos quatro gurus brasileiros do movimento hare krishna

por Arthur Veríssimo em

Acredito que qualquer leitor já tenha se deparado com eles, vestindo seus trajes esvoaçantes e imaculadamente alaranjados, cantando, dançando e celebrando enquanto espalham os ensinamentos de Krishna, cheios de positividade e um astral altíssimo – seja em Xangai, Amsterdã, Buenos Aires, em Ipanema ou em Campina Grande –, com seu maha (grande) mantra: Hare Krishna, hare Krishna/ Krishna, Krishna/ Hare, hare/ Hare Rama, hare Rama/ Rama, Rama/ Hare, hare. Começando em 1966 com a fundação da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna (Iskcon) por Srila Prabhupada, o movimento Hare Krishna deu alcance global a uma tradição monoteísta da cultura hindu que venera o deus Vishnu, ou um de seus avatares, caso de Krishna. Os seguidores do movimento cinquentenário se afirmam parte de uma linha sucessória de mestres e gurus que se estende por mais de 5 mil anos.

Crédito: Rafael Salim

Como um humilde expedicionário dos transes coletivos e estados alterados de consciência, o universo dos gurus sempre me magnetizou. Meu primeiro contato com o orientalismo e o transcendentalismo foi com o indiano Baghawan Shree Rajennesh, nos desbundantes anos 80, na Califórnia, onde tive o privilégio de conhecê-lo e imergir em seu universo místico e espiritual. Junto com a Trip ao longo das últimas três décadas, pude acompanhar diversas outras manifestações religiosas, seitas, mestres espirituais e o sobrenatural. Em 2010, visitei o guru Sri Prem Baba em Rishikesh, na Índia, que me disse: “O guru é um poder que tira uma pessoa da escuridão e a coloca na luz”.

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De uns tempos pra cá, um tsunami de empresas espirituais de autoajuda conquistou o mercado: milhares de seitas oxigenadas, pajés urbanos, profetas da web e gurus do marketing surgiram com cases para solucionar o sofrimento e reverberar a felicidade, em um emaranhado onde pululam embusteiros. Com o intuito de esclarecer o que significa o conceito de guru, desta vez fui ao belíssimo Ashram Vrajabhumi, perto de Teresópolis, encontrar Chandramukha Swami, um dos líderes do movimento Hare Krishna no Brasil. A seguir, o suprassumo da nossa conversa.

Crédito: Rafael Salim

O que é o guru? Etimologicamente, guru é aquele que dissipa as trevas, que traz à luz o conhecimento, abrindo as cortinas da ignorância e fazendo os discípulos terem uma visão profunda da vida. Krishna é a fonte, é deus, e o guru, o representante. O guru foi despertado pelo seu próprio guru, e assim sucessivamente. Faço parte de uma sucessão. Se a pessoa quer ser um engenheiro, um psicólogo ou médico, precisa procurar uma universidade e estar realmente credenciado. Na vida espiritual é a mesma coisa. Mas você não deve aceitar qualquer escola ou um sujeito que inventa e cria seu próprio processo. Na nossa tradição, os ensinamentos revelados por um avatar chegaram aos dias de hoje por uma corrente de sucessão discipular. O guru não criou uma mensagem, não inventou um método: ele é um humilde representante dessa corrente, uma fonte segura e com comprovação. Para uma alma corporificada, como é o nosso caso, com sentidos imperfeitos e propensão a errar, a iludir, a enganar os outros, ter um guru facilita o caminho da vida.

Como foi seu reconhecimento como guru? Realizei minha iniciação em 1979, quando fiz meus primeiros quatro votos – não comer nenhum tipo de carne, peixe ou ovos; não se intoxicar, seja com drogas ou álcool; não se envolver em jogatina; e não praticar sexo fora do casamento ou ser promíscuo. Sou celibatário desde então. Em 1986 fui iniciado como brâmane (sacerdote). Nosso guru Srila Prabhupada partiu em 1977 e a organização do Iskcon decidiu que era o momento de aumentar o número de gurus. Faço parte, então, da segunda geração.

Quantos gurus existem no movimento Hare Krishna? No Brasil somos quatro e, no mundo, 88. Minha base é aqui no Ashram Vrajabhumi, em Teresópolis, mas isso não significa que não tenho discípulos em outras localidades. Circulo pelo Brasil e pelo mundo transmitindo ensinamentos e abrindo mentes e corações.

Como é a responsabilidade de ser um guru? O guru é o representante de uma gigantesca sucessão discipular desde Krishna. No livro sagrado Bhagavad Gita, há um diálogo entre a divindidade Krishna e o guerreiro Arjuna. Krishna representa o mestre espiritual e Arjuna, o discípulo. Os ensinamentos e sua essência encontram-se ali. O guru precisa ter um conhecimento profundo das escrituras para ser capacitado a instruir e auxiliar novos discípulos e alunos. Sempre digo aos discípulos que temos que recolher os sentidos e fazer um trabalho interno. Os sentidos são como cavalos, o corpo é a carruagem e a mente são as rédeas. A inteligência é o cocheiro da carruagem, ela tem que orientar e discernir, e nós, a alma, somos simplesmente o passageiro.

Crédito: Rafael Salim

Você é um guru multifacetado. Circula em escolas, universidades e corporações fazendo palestras, workshops, shows. Como é esta vida de andarilho? Onde quer que haja a oportunidade, estaremos lá. Recentemente dei palestras sobre os sete pecados capitais no Projac. Em eventos como esse, falo por exemplo sobre como as escrituras contam que nessa era ninguém irá se isolar e se entocar em uma caverna. As pessoas precisam cantar. Estamos conectados com a energia espiritual através do canto, que é uma forma de purificação profunda. Não precisa ser erudito. A pessoa canta e se conecta. O canal de comunicação com Deus está entupido, nossa mente está repleta de entulhos e o mantra tem o poder de limpar, de desentupir. O canto é a semente que desperta o ser espiritual que está dormente. Nosso guru Srila Prabhupada, em uma das suas inúmeras viagens pelos Estados Unidos, foi recebido pelos devotos que cantavam e dançavam no saguão do aeroporto. Um repórter perguntou: “Prabhupada, qual é sua missão?”. O guru respondeu: “Minha missão é transformar moscas em abelhas”. As moscas procuram excremento para pousar mesmo em um jardim florido. As abelhas, ao contrário, voando por sobre um lixão, pousam apenas quando encontram uma flor. Minha missão é fazer as pessoas enxergarem o lado positivo da vida. Transformarem-se em abelhas!

No Ashram Vrajabhumi vocês recebem vários grupos de ioga e autoajuda. Soube de um episódio em que os participantes ganharam um diploma de avatar. Como assim? No nosso Ashram recebemos diversos grupos que interagem conosco. Pessoas de todos os tipos. Temos uma belíssima infraestrutura. Um desses grupos veio fazer seu retiro e curiosamente nós descobrimos que no final da imersão a pessoa ganhava deles um diploma de avatar de uma divindade. Custava US$ 1 mil à vista ou, em três vezes, ficava
US$ 1.200 [risos]. Nunca foi tão barato virar deus.

Créditos

Imagem principal: Rafael Salim

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