Maria Ribeiro fala sobre ter 30 anos

Aos 30, eu tinha o temor e a coragem, as despedidas e as perspectivas, tudo doendo e sendo bom ao mesmo tempo

por Maria Ribeiro em

Com 30 anos eu me separei. Já tinha filho, emprego, dez anos de análise, todos os discos do Tim Maia e uma cicatriz no lado esquerdo da testa. Já sabia que avião só com Frontal e que reunião de pais só com bala de mastigar, de preferência Mentos, que demora pra acabar.

Já sabia que não daria tempo de virar noites em Coachella nem de escalar a pedra da Gávea – tem coisas que se você não faz na idade certa, depois só resolve com tatuagem.

Com 30 anos paguei meu primeiro aluguel, minha primeira conta de luz, e comprei meu primeiro kilim – em oito vezes. Eu ainda não sabia que sentar pra jantar em cima de um tapete que você mesma comprou poderia dar tanto significado a um sanduíche de rosbife (talvez por isso tenha demorado tanto pra comprar mesa e cadeiras para o apartamento da rua Maria Angélica, comendo no chão diante de uma mesa de centro por quase um ano – os japoneses sabem tudo).

Com 30 anos eu percebi que não poderia mais brigar com meus pais, e que não era com eles que resolveria as lacunas da infância ou a distância na juventude. “Não era com eles”, ainda repito vez ou outra pra mim mesma.

Com 30 anos deixei pra trás uma casa onde fui feliz por oito anos, e onde vi meu filho pronunciar aos 24 meses todos os países da Copa do Mundo que estavam no álbum de figurinhas da Panini. Ele ficava contente ao ver a satisfação que causava no pai ao pronunciar Trinidad e Tobago, e eu olhava aquela cena torcendo pra não ser verdade o que eu intuía ser: nós três, de manhã, juntos e com cara de sono, tava acabando.

Com 30 anos e em carne viva por ter desfeito aquela família, eu não sabia que hoje, dez anos depois, estaríamos almoçando todo domingo, e que sobreviveríamos, os três, a uma dor que parecia não ter fundo.

Eu também não sabia que casaria de novo e que seria tão feliz, que teria outro filho, que meu caçula seria o melhor amigo do meu ex-marido e que eles jogariam bola juntos, os dois irmãos e seus respectivos pais.

De repente

Com 30 anos eu não sabia que o Collor estaria discursando no Senado em 2016 num impeachment do PT, que a cintura alta voltaria, que Cuba receberia líderes americanos, que teríamos um outro vice na presidência e que o Los Hermanos acabaria de repente.

Com 30 anos eu não sabia que logo perderia meu pai, que viveríamos o 7 a 1, e que no mesmo ano da derrota histórica que sofreríamos da Alemanha, também eu seria goleada aqui no meu campinho.

Com 30 anos não tinha o disco novo da Céu, não tinha os desenhos da Rita, não tinha meu filho Bento feliz a qualquer hora do dia, não tinha a Greta Gerwig nem a Lena Dunham, não tinha o Instagram, não tinha o Tá no ar nem os vídeos do Porta dos Fundos.

Com 30 anos tinha o temor e a coragem, as despedidas e as perspectivas, tudo doendo e sendo bom ao mesmo tempo. Era bom não ser mais jovem e era ruim não ser mais jovem.

Com 30 anos eu não sabia que com 40 continuaria sem saber como fazer pra não ter medo de amar e de dizer o que sinto.

Ainda bem.

Créditos

Imagem principal: Ilustração Anália Moraes

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