Uma ferramenta para viver melhor

Sobre autoconhecimento, disciplina e o tão esperado dia em que você vai dar sorte e a vida finalmente será fácil

por Ariane Abdallah em

Tpm / Corpo / Espiritualidade / Felicidade / Yoga

 

Sempre que eu conto às pessoas que pratico ashtanga – um estilo de ioga intenso, vigoroso e exigente – todos os dias, há dez anos, e que faço isso no Ashram Serra da Cantareira – e, portanto, acordo às 5 e meia da manhã na maior parte dos dias –, as reações geralmente variam entre quatro grupos:

1. O grupo dos que me chamam de louca (pela distância, pela frequência, pelo “exagero”, pela intensidade da prática etc.);

2. O dos que acham tão legal que acabam experimentando em algum momento. E, como sempre acontece quando nos abrimos sinceramente a novas experiências, mesmo que não fiquem, absorvem algo de bom para agregar à sua vida;

3. O dos que acham legal e ponto. Na linha do “que bom pra você”. Estes, geralmente, estão ocupados fazendo as próprias escolhas para viver bem, então não têm tempo de ficar pensando, falando, muito menos tirando conclusões sobre as escolhas dos outros;

4. O dos que admiram minha disciplina e dedicação e lamentam não poder fazer o mesmo porque não têm tempo ou dinheiro ou porque não "deram a minha sorte” de encontrar algo “pelo que me apaixonasse, como aconteceu com você".

Ariane em sua prática diária no Ashram Serra da Cantareira - Crédito: Arquivo pessoal

Acontece que eu não dei sorte. Eu procurei muito, exaustivamente, por ferramentas que me fizessem viver melhor. Eu pesquisei religiões, terapias, eu experimentei o que me pareceu capaz de me trazer ao encontro de mim. Eu procurei conscientemente. Eu verbalizei minha busca. Eu mudei de ideia e abri mão de escolhas que deixaram de fazer sentido inúmeras vezes. Eu não tinha garantia alguma de que ia encontrar algo que fizesse sentido pra mim, que desse forma a uma busca que tenho desde que me entendo por gente.

“Já que tudo o que fazemos e temos é consequência de quem somos, segui priorizando a sinceridade à imagem”
Ariane Abdallah

Mas como acredito que não há nada mais a ser feito na vida a não ser buscar uma maior clareza sobre quem sou, já que tudo o que fazemos e temos é consequência de quem somos (simples assim), segui priorizando a sinceridade à imagem. 

Eu também não tinha tempo nem dinheiro para isso. Mas logo entendi que não teria nunca se não invertesse as prioridades. De novo, primeiro ser. Para, então, fazer e ter. Trata-se, portanto, de investimento. Fiquei devendo diversas vezes para investir no meu core business: eu mesma. Comprovei, na prática, que dinheiro vai e vem, e que raras vezes se trata realmente disso. Na grande maioria, é apenas uma questão de priorizar ali em detrimento daqui.

Preciso perseguir a coerência, está registrado no manual de instruções que me acompanhou no meu nascimento. Então, preciso praticar as prioridades que teorizo.

Em resumo, isso significou inicialmente vender o carro, não comprar tantas roupas, escolher bem as viagens, arriscar emprego e relacionamentos por agir da maneira que acredito ser a correta e arcar com as consequências. Porque você passa a andar na contramão da “normalidade”. O que sempre me deu motivação para seguir em frente a despeito dos impactos gerados foi observar a tal da normalidade. Com uma reflexão minimamente crítica, sempre ficou claro para mim que o “normal” não tem nada de normal. As pessoas “normais” não parecem em geral lúcidas nem felizes. E, para mim, a vida é sobre essas duas palavras. Que ninguém sabe o caminho está evidente. Mas então o que há a perder em arriscar outra direção?

“Eu não sou, não fui e tenho grandes dúvidas se um dia serei apaixonada por ioga. Na verdade, acho um saco e morro de preguiça”
Ariane Abdallah

E, por fim, vamos esclarecer: não fui, não sou e tenho grandes dúvidas se um dia serei apaixonada por ioga. Na verdade, acho um saco e morro de preguiça. Detesto acordar cedo, continuo sendo capaz de acordar ao meio-dia se puder e nunca entendi as pessoas que dizem que seus olhos simplesmente abrem pela manhã e elas não conseguem mais ficar na cama. Nunca soube e não sei até hoje do que estão falando. 

Eu sou, sim, encantada com os efeitos da ioga na minha vida. Como seria por qualquer outra ferramenta que gerasse resultado similar. Fico mais forte todos os dias que supero a preguiça e faço o que me faz bem e não o que é mais confortável para mim. Isso não tem nada a ver com paixão. Sequer tem a ver com querer. Na maioria dos dias, eu não quero ir para a ioga. Eu não quero acordar, e só acordo porque deixo o despertador estrategicamente posicionado a 3 metros da cama. Só acordo porque não quero voltar para aquela vida cinza, sem graça, que conheço de cor e salteado e da qual já me cansei. Mas não acordo sorrindo, de bom humor. Talvez um dia aconteça, mas não conto com isso para me motivar.

Até porque, quando se adentra o caminho do autoconhecimento, uma das primeiras lições é: não vai chegar o momento em que ficará fácil e entrará no piloto automático, como a gente sempre deseja. Mesmo uma década depois, ir para a ioga não faz parte da minha rotina como escovar os dentes ou beber água. Se falto dois dias, meu impulso é não ir nunca mais. Para que tanto esforço mesmo? É preciso primeiro ir para depois lembrar. É preciso primeiro escolher se entregar e depois entender para quê.

Crédito: João Wainer

Hoje tenho experiência suficiente para desejar, ao menos racionalmente, que nunca entre no piloto automático. Por um princípio básico: busquei a ioga porque busco clareza e consciência. Queria ter comando sobre minhas emoções, meus pensamentos, minhas vontades e meu corpo. Estar no piloto automático significa estar ausente, inconsciente, na inércia. São direções contrárias e excludentes.

Não vai ter uma hora em que ficará fácil porque os desafios evoluem comigo. Como não há uma cartilha, com certo e errado, como não é uma competição de performance com os outros e como não há “o lugar” a que chegar, a barra é interna, é a de cada um. E nada pode ser mais exigente do que a clareza sobre a nossa capacidade. Sair da ignorância do “eu não posso”, “eu não consigo” e adentrar o território em que a única negativa aceitável é a “eu não quero” é para quem está realmente a fim de viver perigosamente. Porque quando diz “não quero”, você assina embaixo de toda a responsabilidade que a consciência e, consequentemente, a liberdade carregam.

A boa notícia é que se persistir, chega uma hora em que você entende que resistir a fazer SUA parte na SUA vida dá mais trabalho do que simplesmente fazer. E aquele clichê faz todo sentido: você aprende a amar o que faz, e para de correr atrás do rabo pensando estar buscando o que ama.

Créditos

Imagem principal: João Wainer

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