Iasmin Turbininha a 150 BPM

Primeira DJ mulher do funk, a carioca da Mangueira é celebridade em todas as favelas do Rio e avisa: "A partir de agora, é só pu-ta-ria"

por João Pedro Soares em

Tpm / Funk carioca / Favela / Música

Aos 18 anos, Iasmin Soares tomou uma decisão arriscada. O McDonald’s do shopping Nova América, na zona norte do Rio, fora destruído por um incêndio. Os funcionários que moravam perto seriam transferidos para uma unidade próxima, enquanto o restante perderia o emprego. Ela, com dois anos de casa, ia ficar. Entre os dispensados, havia uma jovem mãe necessitada. Iasmin não tinha plano B, mas cedeu a vaga. 

Não demorou para o calor das chapas dar lugar ao do público. Hoje, aos 21, onde quer que a DJ da Mangueira chegue para se apresentar, encontra fãs sedentos por uma selfie. Sorridente, ela atende a cada um dos pedidos, sem medo de poses exóticas. São cerca de 200 fotos ao longo da noite. Quando finalmente chega à mesa de som, anuncia o que está por vir. “Boa noite, rapaziadinha! Pra avisar que, a partir de agora, é só pu-ta-ria”.

Iasmin Turbininha, a primeira mulher DJ do funk, tem mais de 250 mil seguidores no YouTube. Ela é parte de uma geração que colocou o Rio  de novo em evidência no cenário do gênero, depois de anos de domínio paulista. O 150 BPM – vertente do ritmo tocada em 150 batidas por minuto – é uma febre carioca que se espalha pelo Brasil. Turbininha é uma das principais difusoras da modalidade, que trouxe novos fãs para o funk, mas não sem enfrentar resistência entre os puristas do gênero. “Se você não tocar 150 no baile hoje, nego não dança. É o que segura o Rio hoje”, explica a DJ.

Foi no baile Céu Azul, na favela do Jacaré, que surgiu o apelido. Na época em que um dos funks mais tocados na área era o “Passinho do Turbininha”, Iasmin e um amigo ficavam em êxtase e iam para a frente da pista dançar. “Começaram a me chamar assim de brincadeira, e eu não gostava. Aí, sabe como é, né? Quanto mais tu reclama do apelido, mais nego te chama. Depois acostumei e até lancei no Face, aí ficou”, conta.

Hoje, aos 21, onde quer que a DJ da Mangueira chegue para se apresentar, encontra fãs sedentos por uma selfie

A reportagem da Tpm acompanhou Iasmin durante uma madrugada de trabalho. Como era sexta-feira da paixão, só rolariam dois bailes. Ela faz, no máximo, quatro por noite, com apresentações de 40 minutos a uma hora. “Eu nem aceito pedido de show mais curto, porque acho sacanagem com o público. Também já fui fã, e sei que a galera curte tirar foto, então gosto de ter sempre um tempo com eles”, explica.

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A noitada começa no estúdio de Jota, seu produtor, no bairro do Lins, zona norte da cidade. Na parede à sua direita, está pendurada uma imagem com quase um metro de altura de Ganesha, um deus hindu. “É o removedor de obstáculos”, explica Jota. No muro contínuo, há dois quadros menores de Xangô. O agente, que tem no currículo trabalhos com a Furacão 2000 e Nego do Borel, é só elogios para Turbininha.

“Ela domina programas de edição sem que ninguém precise ensinar e quebra vários paradigmas. É a primeira mulher a tocar em baile de favela, a única funkeira a tocar no Viaduto de Madureira e pioneira ao trazer o público LGBT para a cena”, comenta. Um vídeo lançado por ela de uma produção em parceria com MC Reizin – “Tudo que eu falar você vai fazer” – ilustra a fala de Jota.

No clipe, uma mulher rebola de costas. De repente, aparece um rapaz de cabelo vermelho fazendo o mesmo. “Ele foi subir no palco junto com as minas no show de um DJ, e o cara falou: ‘você não, porque é veado’. Mano, isso cortou meu coração. A pior coisa é ser rejeitado por um bagulho que você é. Eles são o melhor público, que abraça, não tem mimimi”, relata Iasmin. Ela, então, convidou o jovem para a performance do clipe.

Quando=chega à mesa de som, ela anuncia: “Boa noite, rapaziadinha! Pra avisar que, a partir de agora, é só pu-ta-ria”.

Uma buzinada anuncia a chegada da van que irá transporta-los pela cidade. Iasmin vestia uma blusa marrom com estampa rosa, short jeans bem acima do joelho e um tênis esportivo preto. Por baixo de um chapéu da mesma cor, caíam os cachinhos tingidos de loiro que são sua marca registrada depois do sucesso. “Já tá na hora de retocar a cor”, comenta.

O motorista está com seu filho de 14 anos, Tiago, visivelmente fascinado por Iasmin. O menino pede uma foto, diz que os colegas da escola não acreditam que ele a acompanha na noite. Quando todos entram, o clima é muito descontraído. A favela da Mangueira é a primeira parada. Viemos buscar Cadinho, que a acompanha desde o início da carreira e cuida de tudo a partir dali. Muito amigo da DJ, ele a cumprimenta com um selinho.

Sua presença aumenta a farra na van, embora Iasmin continue calada. Mais tarde, eu viria a descobrir o motivo: uma forte enxaqueca. Estávamos em um bairro pobre de Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Basta ela pisar fora da van para começarem os pedidos de fotos. “Solta a putaria nessa porra”, “Tu tá na Gaiola” e “Hoje tudo vai acabar em putaria”, foram as músicas que bombaram nas caixas e levantaram o público.

Em qualquer favela do Rio, Turbininha é disputada por fãs mirins na rua. Uma foto postada em seu Instagram mostra a DJ cercada por um grupo que escreveu seu nome nos braços. Em outro registro, uma menina se declara: "Iasmin, não quero mais ver Peppa (Pig), só quero ver o seu canal". Durante o set, nas festas, aparecem vozes infantis. São mensagens de carinho enviadas pelos pais a pedido dos filhos, que pedem para imitar seu cabelo.

Além de cativar os pequenos pelo carisma, Iasmin representa a possibilidade de driblar as estatísticas. Cria da Mangueira, ela perdeu a mãe aos dez anos. A avó paterna é seu principal laço familiar. Dona Cida não deixava que a neta fosse aos bailes na comunidade antes dos 16 anos, embora a adolescente fosse escondida. Hoje, ela recebe auxílio financeiro da DJ, graças ao sucesso no funk. “Ela tá meio doentinha, e poder ajudar é muito gratificante. Pra mim, ter a consideração das pessoas é o suficiente”, diz.

Quando tinha 12 anos, Iasmin passou a cuidar da lan house de um amigo. Logo nos primeiros dias, colocou vírus em todos os computadores ao tentar baixar um programa de edição musical. Sensibilizado, o dono do espaço formatou as máquinas e instalou o software. “No começo, eu era horrível. Aí, quando comecei a aprender, mano, fazia a festa”, conta. “Comecei a fazer uma mixagem meio doida, e diziam ‘caralho, mané, Iasmin leva jeito”.

Na trajetória autodidata, ela contou com o apoio de DJs consagrados na Mangueira. “Eu vinha e ficava do ladinho deles: me ensina aí!”. A evolução foi interrompida em um período que não pôde frequentar a lan por estar sem dinheiro. Sem computador em casa, não tinha como praticar. O problema foi resolvido quando uma tia de Brasília veio ao Rio passar o Natal e soube do desejo da sobrinha. Dois meses depois, chegava um notebook pelo correio.

Iasmin Turbininha, a primeira mulher DJ do funk, é parte da geração que colocou o Rio de novo em evidência no cenário do gênero

Foi durante uma temporada na casa de outra tia, em Pilares, zona norte, que começou a trabalhar como atendente na rede de fast-food, aos 16 anos. “Amadureci demais. Fui trabalhar no McDonald’s porque ela disse que seria bom para mim. Foi o primeiro emprego que tive, e vi que o bagulho era doido. Me mostrou como era a vida de verdade”, diz.

Lá o funk não era bem-vindo e Iasmin voltou para a casa da avó na Mangueira. Seis meses depois da demissão, ela já estava “mais conhecida do que pedra de crack” na comunidade, como anuncia ao microfone durante os shows. O sucesso veio com um set de  arrocha-funk, em 2015, que rapidamente se espalhou pela Internet. A carreira alavancou no ano seguinte, quando foi apresentada a Jota e passou a trabalhar no estúdio.

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Ano passado, uma sugestão de lei que tornaria o funk crime “contra a saúde pública de crianças e adolescentes e à família” foi rejeitada pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado. Pergunto à DJ o que ela pensa sobre o preconceito difundido sobre o gênero. “Muita gente critica a agressividade, mas é o mundo que a gente tá vivendo hoje. A gente lança o que o público quer ouvir. A putaria vem de todo canto e tá na mente”, argumenta. “Se não gosta do meu som, não ouve”, completa.

Naquela sexta-feira da paixão, a tropa da Turbininha seguiu para o centro do Rio. Ela iria se apresentar na Boiler, boate com público de classe média. Novamente, a DJ era cercada para as intermináveis selfies. O carinho pelo público é genuíno e cativá-lo é importante para que ela mantenha ativa sua principal fonte de renda: o YouTube. Um de seus vídeos soma 4,2 milhões de visualizações.

Ali, ela demonstra também conseguir superar as fronteiras invisíveis da cidade. “Playboyzinho e patricinha? Ih, filho, vai até o chão!”, avisou a DJ. Sua constatação seria comprovada durante o show, mas a liberdade dos corpos parecia diminuir em razão inversamente proporcional à da renda.

Já na van, Jota pergunta se Iasmin vai querer ir a algum baile. Ele fica surpreso com a negativa. É praxe que a noite de trabalho termine em alguma favela do Rio quando o dia amanhece. De preferência, a Mangueira. Desta vez, a enxaqueca venceu. Nem Iasmin Turbininha consegue viver a 150 batidas por minuto sempre.

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