Para não ser fechada, empresa diz que o presidente Lula perdeu o dedo em suas dependências

O mindinho perdido por Lula virou alvo de disputa judicial. Para alegar importância histórica e não ser fechada, uma empresa diz que o presidente sofreu o acidente em suas dependências. Mas Trip apurou que a história não é bem assim

Nunca antes na história deste país uma empresa usou um acidente de trabalho ocorrido em suas dependências como argumento para renegociar suas dívidas e ser salva da falência. Foi justamente isso o que fez a metalúrgica Fris Moldu Car, de São Bernardo do Campo. Mas não se trata de um acidente qualquer, perdido no tempo, e sim da mais célebre lesão trabalhista ocorrida no Brasil: a perda do dedo mínimo da mão esquerda do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva.

Se a história até aqui já soa estranha, espere até conhecer o próximo capítulo: o acidente não ocorreu na Fris Moldu Car, como a empresa alegou. Na verdade, Lula perdeu seu dedo na (hoje fechada) Metalúrgica Independência, de São Paulo capital, conforme a Trip apurou. Portanto, é falso o argumento da Fris para reivindicar importância histórica e não ter suas atividades encerradas: a de que Lula teria iniciado ali sua trajetória de metalúrgico e também ali se acidentado.

Agora vamos à história completa. A tragédia aconteceu em data imprecisa de 1964, quando Lula tinha 18 anos. Em seu segundo emprego como metalúrgico, Lula trabalhava de noite na metalúrgica Independência, que funcionava num galpão na avenida Carioca, na vila de mesmo nome, zona sul de São Paulo. Hoje, o terreno está desocupado, e a fábrica negou o acidente até fechar suas portas. Enquanto isso, a Fris Moldu Car, onde Lula trabalhou em 1965, depois de sair da Independência, tomou para si o fato, em um caso singular no qual a paternidade de um acidente de trabalho foi requerida. Concordatária, tomou vantagem da mutilação do presidente para requerer - e conseguir - recuperação judicial.

A argumentação da Fris, contudo, não bate com os depoimentos de Lula a Denise Paraná, autora de sua biografia - O Filho do Brasil, que deu origem ao filme de Fábio Barreto. "Lula perdeu o dedo na fábrica Independência, onde trabalhou por 11 meses", afirma Denise. A informação da jornalista foi confirmada pela presidência da República à Trip, por meio da chefia de gabinete de Lula.

Ao jornalista Mário Morel, em 1979, Lula relatou: "Uma noite quebrou o parafuso de uma prensa. Eu fiz o parafuso e, quando fui colocar, o companheiro prensista que estava cochilando distraiu-se, largou o braço da prensa, que fechou, e eu perdi o dedo". Como o acidente aconteceu de madrugada, Lula teve que esperar amanhecer para que alguém o levasse ao hospital Monumento, o único que atendia ao IAPI, o instituto de previdência social da época. O ambulatório continua em atividade. Resiste ao tempo e às paredes pichadas, mas não guarda em seus arquivos a ficha do acidentado ilustre - os prontuários são eliminados a cada seis anos.

O dedo mínimo é chamado pelos médicos como o da "força de preensão", responsável por manter preso algo que se está segurando. "Ele é o que faz mais força, sobretudo no uso de ferramentas", afirma o chefe do grupo de cirurgias da mão da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Carlos Henrique Fernandes. "Perdê-lo significa sofrer um trauma físico e emocional muito forte".

"No hospital, o médico olhou o meu dedo e cortou o resto. Fiquei preocupado com a minha mão. Passei alguns anos com complexo por estar sem dedo. Eu tinha vergonha. Mas isso era comum entre metalúrgicos, muita gente ficava sem dedo ou sem pedaço de dedo. Naquele tempo a segurança do trabalho era quase inexistente", relatou, em 1998, a Denise Paraná. O acidente rendeu a Lula uma indenização de 350 mil cruzeiros, suficiente para comprar móveis para a mãe e um terreno.

O número de irmãos do presidente que sofreram algum tipo de lesão confirma o título de "campeão de acidentes de trabalho" que o Brasil deteve na década de 1970. Vavá, por exemplo, quase perdeu uma das mãos quando trabalhava em uma algodoeira, no interior paulista. Jaime, o mais velho, perdeu parte dos dedos em uma serralheria. Outro irmão, Zé Cuia, mecânico de caminhão, amassou a mão em uma máquina.

No caso de Lula, ainda ficou a dúvida sobre a necessidade da amputação completa. "O dedo não tinha amassado todo, poderia ter deixado um cotoquinho pelo menos para eu coçar o ouvido. Mas eu era peão, estava de macacão, três horas da manhã, fedendo a óleo, acho que o cara que me pegou falou: ‘Sabe de uma coisa: arranca logo o dedo desse peão'." Segundo Fernandes, da Unifesp, nem sempre é possível recuperar um dedo esmagado. "A lesão por esmagamento é a mais difícil de ser recuperada, porque você tem a perda da microcirculação do sangue, o que impede muitas vezes a reconstituição ou reimplante".

A Independência pertencia ao polonês Estanislau Knysak, hoje com 91 anos. Fabricava trincos, maçanetas e segredos para cofres. Funcionou até 1998 na vila Carioca. Empregou gente como Sebastião Zanoni, 67, o "Zicão", amigo da família de Lula. "Trabalhei antes de ele começar", lembra. "O polonês era um cara muito gente fina. Tratava muito bem os funcionários". Knysak hoje vive recluso em uma casa no Sacomã, bairro colado ao Ipiranga. Perdeu a mulher, que cuidou da venda da Independência, há nove anos. Considera-se velho demais para lembrar detalhes. "Não tenho mais idade, estou com 91 anos", diz. "Mas isso [o acidente] não foi na metalúrgica. Quando o Lula trabalhou comigo, ele estava perfeito."

Lula deixou a empresa no ano do acidente, depois de discutir por aumento de salário. "Tive uma briga com um chefe. Pedi a conta", disse ao site ABC de Luta, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Em 9 de fevereiro de 1965, foi admitido como meio-oficial-torneiro na Fris, no Ipiranga, em São Paulo - a empresa mudou-se, anos depois, para Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo.

“O dedo não tinha amassado todo, poderia ter deixado um cotoquinho para coçar o ouvido”, declarou Lula

Histórias reais e imaginárias
A vila Carioca é celeiro das mais diversas histórias sobre o presidente - reais e imaginárias. Cada um tem a sua - sobre a casa onde morou, times que criou e locais em que perdeu o dedo. "Foi na Metal Leve", diz o taxista Edísio Rodrigues. "Isso foi lá na Marte", opina Orides Zanoni. "Nada, foi aqui na Independência", vaticina João Gordo, figura constante no bar a poucas quadras da metalúrgica falida.

A confusão aumenta com a entrada em cena da Fris reivindicando o acidente. A empresa guarda o torno onde jura que o presidente perdeu o dedo. A ficha de empregado está posicionada na recepção da fábrica. Para justificar a afirmação de que o acidente teria ocorrido em suas dependências, a empresa alega que a antiga Independência transformou-se em Fris. Mas Knysack nega que a Independência tenha sido adquirida por outra companhia; as datas de funcionamento das empresas não coincidem, tampouco os registros de Lula.

A Fris é ainda a única empresa em que Lula trabalhou que segue de pé. Além da Independência, a fábrica de parafusos Marte e a Villares também fecharam suas portas. Há quatro anos, a Fris passou perto do mesmo fim quando teve a sua falência requerida pelo mesmo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC que Lula presidiu na década de 70.

A indústria de moldes para carros deixou de pagar funcionários e fornecedores e foi ocupada por operários no biênio 2006/2007. Foi ao requerer recuperação judicial, na justificativa preparada pelos advogados Roberto Leonessa e Fabio Picarelli, que a empresa usou como argumento a passagem de Lula pela fábrica - e o dedo que o presidente não perdeu ali. "A Fris Moldu Car possui uma [característica] muito própria que a identifica sobremaneira com as indústrias metalúrgicas de São Bernardo do Campo e com a própria história da cidade: foi na Fris que o hoje presidente Lula iniciou sua trajetória como trabalhador metalúrgico. E foi também nessa empresa que o então operário Lula acidentou-se e sofreu a amputação do dedo mínimo de uma das mãos. Certamente [o presidente da República] não se sentiria feliz ao saber que a empresa onde iniciou o primeiro emprego teve falência decretada". Segundo a justificativa, publicada no Diário de Justiça de São Paulo, "pelo aspecto histórico, a recuperação judicial da Fris é mais salutar que a sua inviabilização econômica".

"Foi uma lembrança do fato", justifica o advogado Roberto Leonessa. "A maioria dos credores nem sabia disso. [O acidente] virou uma referência para se lembrar da empresa". O pedido de recuperação foi aceito pela Justiça, e a Fris pôde renegociar suas dívidas. A reportagem tentou, por diversas vezes, contatar a diretoria da empresa, que por duas semanas alegou diversas justificativas para não falar.

O relato ao ABC de Luta não corrobora a boa recordação que a Fris supõe que o presidente tenha. Lula foi demitido em um ato de rebeldia: pegou o dinheiro das horas extras que deveria fazer no fim de semana e foi para praia. "Quando cheguei segunda-feira, queimadinho que nem um camarão - porque pobre não se bronzeia, se queima que nem camarão -, o cara: ‘Por que não veio trabalhar?' ‘Ah, fui pra Santos.' ‘Então vai ser mandado embora.' ".

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