por Marcos Candido

Em mais um exemplo extremo de exploração urbana, um grupo de paulistanos salta de prédios inacabados de 15 andares em São Bernardo do Campo presos apenas a cordas. Conheça os rope jumpers

"Adrenalina? Adrenalina é uma bosta! O que dá gás é esse fluxo da mente, entende?”, gesticula Marco Jota, 31 anos. Promotor de vendas durante a semana, Jota e um grupo de mais dez a 20 pessoas dirigem aos domingos até São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, para saltar do alto de prédios abandonados de 43 metros de altura. Na queda de 4 segundos, Jota e seus companheiros ficam presos a cordas amarradas entre pilastras de dois edifícios. A técnica é conhecida como rope jump e consiste em pular de cachoeiras ou edificações e amortecer o impacto com o movimento de vai e vem de cordas que rasgam o céu em um pêndulo, um balanço gigante radical.

O argumento de Jota é que o cérebro perde a capacidade de se situar no tempo e no espaço quando o salto é feito de uma estrutura decrépita. O chão, ele diz, mesmo a metros de distância, parece estar prestes a engolir você; as janelas inacabadas somem tão rapidamente quanto surgem diante dos olhos. Um melindre mal calculado pode levar o praticante a segurar a corda para se sentir mais seguro ao saltar – erro que costuma acabar em lesões, causadas por um tranco próximo ao fim do trajeto. “Você vai mais rápido que o tempo”, conclui Jota, enquanto se prepara para se encantar mais uma vez com o fluxo da própria mente. Ele ensaia os passos, chuta um punhado de pregos enferrujados e tijolos e salta em direção ao abismo entre os prédios alaranjados. As cordas que o sustentam pressionam as pilastras. O movimento de pêndulo, no ponto mais baixo, passa a 4 ou 6 metros do chão. Jota entoa o lema da turma: “É nóis que avoaaaaa, bruxãoooo!”.

Pendurar-se de prédios abandonados carrega mais significado que um simples salto em busca de adrenalina (ou do “fluxo da mente”). O salto de Jota em São Bernardo está ligado a uma tendência global de grupos de várias modalidades que alimentam redes de contatos autônomas de explorades e esportistas urbanos – uma mentalidade que em sua história recente une praticantes de base jump, parkour e urbex (a “exploração urbana”), para citar alguns. Sozinhos, eles criam mapas com novos locais a serem desbravados e radicalizados no próprio espaço à sua volta. É no surgimento de grupos assim, sem hierarquia de comando, em modalidades que, por enquanto, não têm grandes estrelas nem patrocínios de marcas, que o esporte radical vive em sua face mais crua.

 Esse mundo se abriu para Jota há três anos, quando, observando a cidade em que mora, se deparou com um grupo fazendo rapel no viaduto da avenida Doutor Arnaldo, em cima do metrô Sumaré, endereço certo de esportes radicais em São Paulo desde o fim dos anos 90, quando os primeiros praticantes de rapel se aventuraram por ali. Hoje, o local reúne também frequentadores de modalidades como highline e tirolesa, que descem por cordas em direção ao fluxo de carros da avenida Paulo VI, quase 30 metros abaixo. Os mais experientes – com kits de primeiros socorros, mosquetões, capacetes e habilidade para dar nós em cordas – instruem os calouros com noções básicas de cada técnica. Jota, como todo bom iniciante, tinha ressalvas em se pendurar em um viaduto, embora, por curiosidade e vontade, tenha arriscado a ter a sensação que hoje chama de “quase suicídio”. Em uma das descidas, conheceu Diego Benzi, um engenheiro civil com braços tatuados, e Vitor Vieira, um sujeito calado que trabalha com fabricação de lâmpadas de LED. Desde 2005, alguns grupos da Sumaré já utilizavam o pontilhão para praticar rope jump. Na técnica, inventada pelo americano Dan Osman (que morreu em 1998, após uma corda se romper durante uma performance na Califórnia), de três a seis cordas são esticadas sobre penhascos, cachoeiras ou no vão entre edifícios. Outra corda, que sustenta o saltador pela cintura e é menos elástica que as utilizadas no bungee-jump, é amarrada no meio do conjunto. Ao saltar, o praticante é projetado até o centro dos cabos, o que o faz balançar de um lado ao outro. “No bungee-jump, por exemplo, você ‘pinga’ e cai reto. Já no rope jump você encerra o movimento com um pêndulo”, explica Jota. Quando o movimento cessa, o praticante utiliza técnicas de rapel para descer. Para testar o raio do pêndulo e evitar que alguém encoste acidentalmente no chão, os rope jumpers costumam lançar uma mochila preenchida por pedras, equivalente ao peso de um saltador.

Inspirados também por vídeos que viam na internet, Jota, Vitor e Benzi fundaram, em outubro de 2015, o Rope Trips Aventuras Radicais,  conhecido pelos uniformes amarelos – “Tipo os Minions”, brinca Benzi. Com menos de um ano, a “família” dos três cresceu com a chegada de membros como Ana Cristina, uma técnica em segurança do trabalho que se encantou com o esporte ao averiguar os riscos que envolvem limpadores de vidraça, pendurados em balancinhos a dezenas de metros de altura; Jean Ferreira, um estudante de economia de fala mansa, ainda um pouco receoso para saltar de prédios; e Alan Ferreira, um taxista exageradamente risonho que pratica rapel há 22 anos. Em abril, Alan foi um dos idealizadores de uma ação que reuniu o maior número registrado de pes­soas realizando rope jump ao mesmo tempo, com 149 voluntários que saltaram de uma ponte em Hortolândia, no interior de São Paulo.

O grupo não tem patrocínio, cada um barganha cordas em sites na internet e doa dinheiro para viagens e materiais. Por que se arriscam nessas condições? O que buscam? “É como uma sensação de voar e voar – e querer voar ainda mais alto”, explica Ana. “Eu comecei a saltar quando estava mudando de emprego, há alguns anos”, diz Ernany Araújo, um consultor comercial. “Era uma fase de transição, e o primeiro pulo me fez sentir vivo de novo.” Jean, o estudante de economia, arriscou pela primeira vez para a Trip o pulo da torre abandonada. Aterrissou em êxtase, cumprimentando os colegas sorridente. “Tá vendo?”, diz Jota, apontando para Jean, que terminava de subir, esbaforido, os labirínticos lances de escada do edifício em ruínas. “Agora, se ele quiser, consegue saltar de qualquer lugar. O fluxo circula pelo corpo. É como matar 2 horas de terapia em 4 segundos no ar.”

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No começo deste ano, o grupo chegou a São Bernardo. Antes, alguns praticantes de highline instalaram ali cordas para atravessar de um prédio para o outro. A notícia correu e uma série de exploradores urbanos decidiu fazer uma vistoria ao espaço sem número da rua Gregória de Fregel. Na primeira excursão, o grupo de Jota descobriu que para chegar ao ponto mais alto das torres seria preciso vencer escadas que dividem espaço com fossos abertos de elevadores. Um passo mal dado pode resultar numa queda fatal em cima de pedras e vigas de aço.

Espaços sem função?

A distância, as estruturas parecem esqueletos humanos, imponentes e solitárias em um bairro preenchido por casas de classe média alta ao lado de pátios de montadoras de automóveis. Em meados da década de 80, uma construtora interessada em ampliar seus negócios para o ABC paulista propôs um empreendimento no terreno de 25 mil metros quadrados que pertencia a uma fábrica de lâmpadas. O projeto envolvia um condomínio de seis torres de 15 andares com vista para os primeiros declives que indicam a Serra do Mar, próximas a indústrias multinacionais e com fácil acesso à rodovia Anchieta A empreitada ruiu há 30 anos, com a falência da construtora, e se tornou um estorvo na paisagem do bairro. Por dentro, cada edifício parece encenar vidas que nunca existiram: é fácil imaginar onde seriam instalados os quartos, os banheiros e a cozinha. O terreno é ocupado, de tempos em tempos, por movimentos em prol de moradia, como o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas, expulso do local no fim de 2015 pela Guarda Civil Municipal de São Bernardo com balas de borracha e bombas de gás.

Uma limpeza recente levou mobílias destruídas que foram atiradas no terreno, enquanto outra ação tosou o mato alto e secou potes que acumulavam águas da chuva. “Já são mais de dois anos de negociações com os proprietários, construtoras e órgãos reguladores para o local ter alguma função”, explica Kaique Costa, representante de uma companhia de gerenciamento de condomínios que está retomando o projeto. Segundo a prefeitura, a empresa tem até 2019 para botar as obras em ordem – ou enfrentar um IPTU com aumentos maiores a cada ano. Mas os rope jumpers receberam uma notificação mais agradável que uma interpelação judicial: a permissão para continuar ocupando o espaço enquanto as construções não forem iniciadas. “Esse tipo de edificação representa a oportunidade de radicalizar espaços sem função na cidade e que fazem parte do cotidiano dessa nova geração”, disse Costa. Quando pinceladas inéditas de reboco e tinta chegarem, porém, a inscrição “É nóis que avoa”, pintada nas torres pelo Rope Trips, desaparecerão das ex-ruínas.

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Créditos

Imagem principal: Marcos Vilas Boas

Marcos Villas Boas

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