por Milly Lacombe

No dia da visibilidade lésbica, lembro o dia em que contei ao primeiro sobrinho que sou gay

São Paulo, março de 2003

Antonio comia seu hambúrguer (“só pão e carninha”, pediu à atendente do McDonald’s) quando resolveu, sem aviso prévio, entrar num papo cabeça comigo. Antonio tem sete anos e é meu sobrinho. Estávamos passeando em um shopping center de São Paulo, e o dia prometia nada além de conversas sobre novos game boys, o presente de aniversário que eu ainda devia, a escola e o irmão mais velho Paulo (sempre bom assunto para o caçula). Mas eis que, entre as ferozes dentadas no sanduíche, ele coloca sobre a mesa a pergunta indigesta: “Por que você nunca casou?”.

Pela primeira vez era confrontada por um sobrinho. Paulo, de dez anos, nunca foi direto ao assunto e, embora tenha comigo uma relação mais íntima do que Antonio, não parece dar bola para o fato de, num apartamento de três quartos, eu dormir numa mesma cama com Roberta. Ou é recatado e elegante demais para me colocar na parede. Mas Antonio, enorme para seus sete anos de vida, é um trator e fala o que vem à cabeça. Portanto, é justo imaginar que, ao me perguntar sobre casamento, essa tenha sido a primeira vez que o tópico cruzou sua cuca. E, mais uma vez, lá estava eu frente a frente com uma oportunidade de ser verdadeira.

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“Porque eu não gosto de homem”, tentei ser simplista. Ele pareceu não registrar a informação e eu tive certeza de que sua próxima declaração seria sobre o tal presente que eu nunca dei e que, afinal, estávamos ali para comprar. Enquanto ele calmamente comia seus nuggets, eu, ansiosa, balançava meus pés embaixo da mesa e esperava pelo que viria. “Ah, já sei, então você é bicha!”, ele disse sem nenhuma intenção de me fazer rir. “Não porque bicha é homem que gosta de homem”, respondi. Mais um silêncio cruel se seguiu. E ele, alheio à seriedade que aquele papo agora tinha para mim, continuava a comer alegremente seu sanduíche. Depois de um tempo, disse: “Já sei, já sei: você é gay!”. “Isso mesmo, Antônio, eu sou gay”, falei tentando ser séria, mas não muito. Ele riu, como se eu tivesse contando uma piada. “Eu sou gay”, repeti para deixar claro que não estava tentando fazer ele rir, “e não há nada de errado com isso. É como eu dizer, ‘o Antonio é loiro, o Antonio tem olhos pretos’. É só quem eu sou.”

Ele, ainda mastigando e me encarando, precisou de um tempo para absorver a informação. Como não dizia nada, achei que deveria ser mais clara e comecei meu pequeno e tão ensaiado discurso.

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Expliquei que no mundo tem menino que gosta de menina, menina que gosta de menino, menina que gosta de menina e menino que gosta de menino. Antonio, mergulhando o nuggets no molhinho barbecue, foi balançando a cabeça como quem concorda. “Olha em volta”, falei. “Aqui dentro deve ter outros vários gays além de mim”. “Será?” “Com certeza”, falei enquanto ele virava a cabeça na tentativa de encontrar outros gays.

Nesse ponto, a conversa parecia já ter deixado Antonio satisfeito. Mas já que o diálogo havia sido repassado imaginariamente na minha cabeça infinitas vezes resolvi seguir o roteiro até o fim. “Por isso, Antonio, quando na escola algum amigo seu tirar sarro de gay, bicha e sapatão, você pode dizer: ‘E o que tem isso? Minha tia é gay’. “Nessa hora, ele soltou uma gargalhada e disse que faria melhor: “Não, eu vou falar: ‘E daí, ser gay é até mais legal’”. Foi quando eu saquei que tinha exagerado. “Não, não é mais legal”, expliquei rindo. “Só é tão legal quanto.” E nesse momento Antonio deu a tacada final: “E o meu presente?”. Como ele tinha acabado de me dar um, achei justo retribuir e lá fui eu pagar em game boy o amor que ele havia acabado de exercitar comigo.

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