por Nina Lemos

De origem simples e naturalmente elegante, ela caminha tranquila pelo mundo da fama

 

Chego alguns minutos atrasada para encontrar Grazi em uma livraria do Leblon. A moça, meio descabelada, me dá um beijo enquanto carrega uma pilha de DVDs. Depois que sentamos, ela me mostra o que vai comprar. Entre seus escolhidos estão clássicos como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni, e Freud, além da Alma, de John Huston. Só as suas escolhas já seriam um tapa na cara de quem acha que a moça de 28 anos, que foi manicure e vendedora de uma loja de cosméticos em Jacarezinho, no interior do Paraná, onde nasceu, é burra ou fútil.

Se o preconceito existe? Existe. E ela mesma confirma isso nas duas vezes em que encontra a reportagem da Tpm. Afinal, Grazi já foi miss Paraná, participou de vários concursos de beleza e ficou famosa após participar do Big Brother. “Quem é essa menina para ser atriz?” A pergunta deve ser feita por muitos atores que ainda olham para Grazielli Soares Massafera com desconfiança. Ex-Big Brother? Sai pra lá.

Só que Grazi faz a gente deixar todos os nossos preconceitos de lado. Hoje uma mulher famosa e rica, conserva o sotaque e o orgulho de ser interiorana. Sabe que é uma espécie de “cinderela moderna”, pois além de tudo encontrou um “príncipe”, o galã Cauã Reymond, com quem mora há três anos. Mas ela faz questão de manter os pés no chão. E parece que consegue.

Cornetas e busão

Ela conta, entusiasmada, uma de suas últimas aventuras. No dia do primeiro jogo do Brasil na Copa, ela estava achando muito sem graça ver o jogo em casa só com Cauã, sem festa. “Meu pai sempre se fantasiou em dia de Copa, sempre colocou peruca, essas coisas todas. Achei que a gente tinha que dar uma animada.” Pois bem, ela decidiu sair da casa onde mora, no Itanhangá, e ir até o centro da Barra da Tijuca comprar cornetas. Tudo em cima da hora de o jogo começar. Na volta, não conseguia táxi. “Vi um ônibus passar e não tive dúvidas. Fiz parar e entrei correndo. Conversei com várias pessoas sobre o jogo, sobre o trânsito, até que começou um burburinho de gente me reconhecendo.” Na hora em que chegou ao seu destino, Grazi não teve dúvidas. “Gritei da frente do ônibus: ‘Sou eu mesma, meu povo!’. Foi muito divertido e ainda tive tempo de chegar em casa com as duas cornetas bem na hora.”

“Eu tinha medo de deixar todo mundo na esperança de que eu fosse conseguir alguma coisa e fracassar”

Grazi se diverte, mas também trabalha duro. No momento, está no elenco da novela Tempos Modernos, que tem ibope baixo e críticas altas. Nada que preocupe demais essa filha de boia-fria e costureira que entrou no Big Brother para, quem sabe, ganhar um carro. “E vender para deixar a família mais folgada de grana.” Ela tenta ver tudo pelo lado positivo. Mas também não consegue ser alegre o tempo inteiro. Prova é que este ano começou a fazer análise, hábito que antes considerava “coisa de maluco”. E segue com o ideal de manter seu jeito de interiorana e suas raízes intactas, mas também de se abrir para o mundo. Por enquanto ela faz isso muito bem: nossa entrevistada ainda faz suas próprias unhas e resolveu olhar para dentro por meio do elitizado mundo da psicanálise.

Tpm. Seu primeiro contato com a fama foi em 2004, ao participar de um concurso Miss Brasil. Como foi essa experiência?
Grazi. Foram 15 dias de concurso. A gente acordava e já tinha ensaio. Tudo sem poder descer do salto. Mas eu gostava. Na minha região eu participei de quase todos os concursos, de rodeio, infantis. Era interior, então tinha as festas de agropecuária. Chegou uma hora que já não tinha mais a que concorrer. Eu já tinha ganhado quase tudo ali.

Você começou a participar de concurso com quantos anos?
Meu primeiro foi o Boneca Viva, com 8 anos. Mas eu ia porque queria, não porque os meus pais mandavam. As meninas do interior têm pouco dinheiro, têm o sonho de ser modelo. Mas o que tem de mais próximo do que elas querem é miss. Então a maioria vai por esse caminho. Para ser modelo você tem que vir para São Paulo, ter um book. Isso é caro. O acesso mais rápido é por concurso. Eu ia para competição com recursos da prefeitura da minha cidade. Eles davam até carro para me levar.

Você ia atrás de tudo isso sozinha?
Eu tinha uns amigos gays e eles me emprestavam a roupa, pagavam a inscrição. Conheci esses amigos com uns 7 anos, porque eu participava do Carnaval da minha cidade. E eles faziam o Carnaval. Eles foram a minha esperança, porque eu tinha os meus sonhos. E meu pai e minha mãe sempre estavam trabalhando muito, não ficavam parando pra pensar: “O que você quer da vida, meu filho?”. Cada um tinha que botar o pão dentro de casa. E botavam a gente para estudar. Meus amigos estavam sempre achando que eu ia chegar a algum lugar. Eles acreditavam mais em mim do que eu mesma. Aí comecei a acreditar também.

 

“Entrei no Big Brother porque queria ganhar dinheiro. E ainda tirar umas férias”

Você era vendedora de loja. Largou tudo pelos concursos?
Participei duas vezes do Miss Paraná [2000 e 2004]. Na primeira vez eu perdi. Na segunda esse amigo estava morando na Itália e ligou de lá me pedindo que eu participasse do concurso. Eu já estava trabalhando com carteira, registrada, assinada, não podia ficar faltando. O meu patrão na época ouviu a conversa e perguntou: “O que está acontecendo?”. Eu falei e ele disse: “De quanto tempo você precisa?”. Eu respondi: “Quatro dias”. E ele: “Pode ir”. Daí eu ganhei o Miss Paraná. Depois fui para o Miss Brasil e fiquei em terceiro lugar. Fui para a China...

Você disse que tinha esperança de ser “alguma coisa”. Queria sair do interior?
Tinha vontade de sair, o que me deixava presa lá era a minha família. A gente sempre foi muito unido, a gente é descendente de italianos. Sabe aquela bagunça? Eu tinha medo de sentir falta disso e fracassar. De deixar todo mundo na esperança de que eu fosse conseguir alguma coisa. A gente dizia “vencer na vida”, que é conseguir um salário bom, trabalhar decentemente. Ter uma profissão.

Você teve medo de viajar sozinha?
Muito. O máximo que eu tinha ido sozinha era de Jacarezinho a Curitiba de ônibus. A primeira vez que eu andei de avião tinha 19 anos. Foi para a preparação pro Miss. Porque no concurso regional eles têm um preparador, é levado a sério. A preparação era mais para me dar uma experiência de viagem, porque se eu ganhasse o concurso ia ter que viajar pra China, pro Japão. Acho que aquilo foi mais uma experiência. Fui para a Argentina, andei de avião, fui para restaurantes.

 

“Se deixar, alguém descasca uma banana para você, alguém vai te vestir. Já subi no salto e não percebi”

Você foi para o Japão como miss. Tinha dinheiro para viajar?
Não. Mas nunca tive revolta quanto à minha situação financeira. Tem gente que quando tem uma época de poucos recursos se revolta. Eu sempre aceitei. Quando fui para a China tinha dinheiro só para comprar cartão para telefonar e dar notícias. Comida o concurso dava, mas levei uma caixa de bolachas Passatempo, porque me disseram que a comida era horrível. Eu tinha uma amiga, a Telma, miss Angola. No fim do concurso todo mundo entrou no free shop. E eu fiquei esperando. Tinha uma vontade de ter um perfume. Aí a Telma falou: “Você não vai comprar nada?”. E eu falei: “Não, não”. E ela já tinha notado que eu não tinha dinheiro para nada. Ela não foi lá e comprou um perfume para mim? Fofa. Tenho guardado até hoje. Um J’Adore, da Dior.

Como foi a sua entrada no Big Brother?
Minha mãe queria que eu me inscrevesse. Foi um pedido dela. Ela ligou para duas amigas minhas e falou: “Vamos inscrever a Grazi?”. Eu nem sei o que estava escrito na ficha, elas que mandaram. E eu tinha que fazer um filme. Fizemos em uma academia. E olha que eu nunca tinha entrado em uma.

E como aconteceu o convite?
Eles me ligaram e eu falei: “Ah, é mentira, vai passar trote para outro”. Aí pedi para a pessoa me dar o telefone e retornei: “Alô, Rede Globo”. Ah, então é verdade! Aí eu falei para a minha mãe. Ela queria que eu ganhasse um carro para a gente vender, colocar o dinheiro para render e sobrar uma graninha para a gente ficar menos apertado. E era o que eu pensava também. Nunca tive a pretensão de entrar lá para virar atriz. Achava que ia entrar lá, ganhar um dinheirinho, algum prêmio. Porque também não tinha essa noção de como era o programa. Eu sabia a visão que as pessoas tinham lá do interior, que todo mundo via, era legal, era uma chance.

Para você o BBB era uma chance.
Isso. Eu não tinha essa outra visão de que as pessoas enxergam aquilo com preconceito, como se as pessoas se permitissem ser exploradas. Então quando me perguntam: “Por que você entrou no programa?”. Respondo que entrei porque queria ganhar dinheiro. E ainda tirar umas férias.

 

E se divertiu?
Não tenho nenhuma má recordação. Eu morava no interior, não tinha o que fazer. Não era da noite, nunca fui da noite. Na cidade não tinha muitos atrativos. Tinha só quermesse e umas festas no sábado. E no fim o programa me trouxe várias descobertas pessoais.

Quais?
Ah, arrumei uma profissão. E minha vida inteira mudou. Não só a minha, mas a de muitas pessoas envolvidas comigo.

E quando você saiu estava preparada para lidar com a fama?
Estava, sabe por quê? Porque foi de maneira carinhosa. Deve ser difícil para quem é rejeitado. Deve ser um pouco chato, porque muda a vida de uma pessoa no mau sentido. Mas eu só recebi carinho.

E logo você foi convidada para ser atriz?
Eu fui convidada pelo Mário Lúcio Vaz [diretor artístico da Globo] para fazer a oficina de atores da Globo. E depois ele e o Manoel Carlos me chamaram para fazer a novela Páginas da Vida. Eu fiquei assustada. Nunca tinha pensado em ser atriz. Mas pensava: “Se eles estão me chamando, eles que são tão bons, devem acreditar em mim, devo ter alguma coisa”. E decidi dar uma chance ao destino. Estava tão concentrada no trabalho que nem pensava em nada, no peso daquilo. E fui gostando e me apaixonando pelo trabalho de ator. É um trabalho muito difícil. Você tem que estudar muito.

 

“No Projac, não fico passeando. Fico no camarim estudando. Muita gente fala: ‘Não acreditava no seu trabalho, agora acredito’”

Como você estuda para se aprimorar?
Eu tenho uma coach quando vou fazer as personagens. E penso em estudar na Espanha, fazer um curso de três meses.

Você descobre sozinha, por exemplo, que livros deve ler?
Eu pergunto para as pessoas. Alguns amigos me dão toques de coisas legais. E quando entro em uma livraria, por exemplo, faço o que fiz aqui [na livraria Argumento, no Leblon], pergunto para o vendedor o que ele me indica. Eu aprendo com todo mundo.

E hoje, como você lida, por exemplo, com paparazzi?
No Rio de Janeiro a gente sabe onde tem. Eu não deixo de frequentar os lugares por causa deles, não tenho noia com isso. Acho que cada um faz seu trabalho. O cara tá lá fazendo o dele. Acho que o princípio de uma relação sempre é o respeito. Quando você não vai contra a corrente, quando trata com educação, tudo dá certo. Isso é uma lição de caráter que minha mãe e meu pai me ensinaram, que eu levo para a vida e quero passar para os filhos. Acho que respeito pelo outro e educação são sempre bem-vindos.

A vida da sua família mudou muito depois que você ficou famosa?
Mudou tudo lá em casa. Hoje minha mãe tem uma casa, não se preocupa com dívidas. Trabalha porque quer. Ela gosta de costurar, de fazer umas coisinhas para o meu irmão [Grazi tem três irmãos: um de 8, um de 14 e outro de 31 anos]. Meus pais são separados e o meu pai trabalha até hoje como pedreiro. Ele poderia parar. Mas não quer. Hoje tem uma segurança. A gente sempre pensou mais em saúde, sabe? Depender do SUS é muito complicado...

Quando entrevistei o Zeca Pagodinho ele disse que sentia falta do meio-fio quando morava na favela. Você sente falta do quê?
Olha, acho que de meio-fio [risos]. Outro dia eu sentei no meio-fio lá do Projac e veio um menino com uma cadeira. Falei: “Não, deixa eu sentar no meio-fio”. Então pensei: “Só tá faltando a mexerica”. A gente sentava na hora do almoço. Eu, minha avó, todo mundo almoçava e depois ia lá fazer a sesta, chupava mexerica, fofocava. Aí depois ia lavar a louça, limpar a casa. Eu sinto falta disso.

Você hoje deve ser uma atração e tanto em Jacarezinho, não é?
Vira ponto turístico minha casa quando eu estou lá. Minha mãe fica: “Ai, não aguento mais”. Ela é muito, muito italiana. “O povo quer falar com você, filha.” E aí vêm todos os tios, meus primos. Tem gente que fala que é amigo, mas eu nem conheço. No primeiro dia, quando eu chego, descanso, aí, quando o povo começa a chegar, minha mãe, com aquele coração mole, fala: “Vai lá...”.

Você era vista com preconceito por outros atores quando começou?
Era e ainda sou. O preconceito só diminuiu em escala. As pessoas estão percebendo que para mim esse é um trabalho sério. Quando estou no Projac não fico passeando. Fico no camarim estudando. Hoje tem muita gente que percebe isso e fala: “Ah, eu não acreditava no seu trabalho, mas agora acredito”. Estou longe de me considerar uma atriz pronta. Acho que a pessoa pode melhorar. Estou sempre estudando. Agora quero entrar no fonoaudiólogo, porque acho a minha voz muito infantil.

Você percebe quando alguém se aproxima da Grazi e não da celebridade?
Isso é fácil de identificar. Você percebe quando a pessoa fala com o coração, quando quer seu bem, tem um carinho por você. Uma vez uma pessoa de que eu gosto muito chegou e falou: “Você tá muito entojada. Acho que você tem que...”.

Descer do salto?
É. E eu: “Você está certo”. Levei isso para casa, pensei: “Se essa pessoa falou isso, é porque devo estar mesmo meio entojada”. Uma pessoa que te diz isso é uma pessoa que gosta de você, não é?

Você reconhece que em algum momento subiu no salto?
De repente você se vê numa posição em que está todo mundo ali para te servir. Se deixar, alguém descasca uma banana e vai dar para você. Se deixar, alguém vai te vestir. Então houve momentos em que subi no salto e não percebi. Mas acho que não cheguei a ficar metida não.

Estamos na Tpm #100 e percebemos que as pessoas famosas estão mais cercadas de assessores do que nunca. Isso não vem só do artista, mas da imprensa, de tudo. E é ruim porque tira o foco das coisas que a gente está precisando, coisas ligadas à política. Se você chegar em uma pessoa, em qualquer lugar, e perguntar quais são os candidatos à presidência, vai ser difícil que alguém responda tudo. Agora, se perguntar quem estava no Big Brother... Todo mundo sabe.

Você é considerada uma mulher elegante. Compra, por exemplo, suas próprias roupas?
Sim. Mas tenho um personal stylist para me ajudar quando tenho alguma festa, algum evento. Isso é uma coisa engraçada. Todo mundo tem, sabia? Só que poucas atrizes admitem. Isso é uma coisa que eu não consigo entender. O que tem de mais você ter um personal stylist? Isso não tem nada de mais! Você não é obrigado a saber fazer tudo.

Já se incomodou com essa coisa de ser celebridade e ter tudo à mão?
Você quer sentar, aparece uma cadeira. Você não tem que pegar. Se você for deixando, vai entrando nesse fluxo, vai deixando tudo isso acontecer. Às vezes nem porque você quer, mas porque está no meio do trabalho e as pessoas vão te ajudando... Mas eu não gosto. Gosto de pegar minha cadeira, de fazer as minhas coisas.

Como você faz para manter o pé no chão?
Olho bem para as situações e penso: “Não, isso não quero pra minha vida”. Tem coisas que eu quero e outras que não quero para mim. Isso sempre está bem estabelecido e tem que estar. Se não te confunde. E eu tive um choque muito grande de cultura. Saindo do interior, há cinco anos, e caindo no Rio de Janeiro... Com fama, tanta coisa. Vários acontecimentos na minha vida. Mas eu sempre me apeguei às coisas de que gosto. Sei que existem coisas novas, que tenho que me deixar levar, descobrir, aceitar, entender. Até para poder aprender. Tem novidades que vou aceitando, tipo... [fica pensativa].

Me dá um exemplo.
Morar junto sem casar foi uma coisa nova. Foi quebrar um tabu. Na época até meu pai ficou meio assim, mas eu vi que não tinha diferença morar junto sem assinar um papel.

O que mais mudou radicalmente na sua vida?
Comecei a lidar com coisas que eu mal sabia como eram, como pagar impostos [risos]. E até outro dia eu era uma pessoa que dependia do SUS para qualquer problema de saúde. E na minha cidade o SUS era bem melhor do que é no Rio de Janeiro. Eu converso com meus funcionários dentro de casa e eles dependem do SUS. Essas conversas inclusive me ajudam a não perder o pé. Porque você começa a viver em um mundo à parte, né? O meu mundo é um mundo totalmente diferente do deles. Não gosto de saber das coisas só pelos jornais. Gosto de sentar com eles e saber o que está acontecendo, como é o atendimento público daqui, sabe? Como é a vida deles, o que eles passam.

Quantas pessoas trabalham para você?
Duas, a moça que cuida da casa e o caseiro. A gente mora em casa, e não fico muito tempo lá. Tenho quatro cachorros e três gatos.

E como é para você assumir a responsabilidade de cuidar de uma casa?
Eu ajudava a minha mãe em casa. Então nunca tive medo de responsabilidade. Eu sempre achei que era uma questão de maturidade. Hoje sinto falta de estar mais presente em casa, arrumar as coisinhas do meu jeito, dar o toque no meu guarda-roupa, quero fazer a minha unha.

Durante a foto você comentou que faz a própria unha e também tira a sobrancelha.
Eu fui manicure. Acho gostoso. É terapêutico [mostra a unha, mais precisamente um borrado imperceptível]. Também gosto de cuidar do cabelo, fazer a sobrancelha. Sempre fiz isso. E gosto de cuidar da burocracia da casa. Quando eu não tenho tempo, fico estressada com isso. Quero saber quanto eu gasto de luz. Quero chegar para o funcionário e falar: “Este mês veio muito de água, o que você andou fazendo?”.

Você cuida pessoalmente de todo o seu dinheiro?
Cuido. E já tentaram me passar a perna. Contador já tentou me roubar, gerente de banco já tentou me encher de seguros. Já aconteceu de tudo.

E como fica o Cauã nessa história?
Tudo isso que eu faço ele também faz. A burocracia da casa fica comigo, mas ele participa do andamento de tudo. Ele tem jeito para... [pausa, dá uma risada gostosa] decoração. Mas ele faz de tudo. Não quero deixar parecer que eu faço tudo sozinha.


Você disse que não gosta de falar do seu relacionamento com o Cauã.
Não é que eu não queira falar. A gente acaba cuidando para que o nosso relacionamento não vire um produto, uma empresa. Pode ver que a gente não ganha dinheiro com isso. A gente não faz campanha juntos, não faz trabalho juntos. Não que isso nunca vá acontecer, mas nesse momento não há interesse, não é bacana, acho que não faz bem.

Você já é superfamosa. E namora um superfamoso. Como é isso?
Você pode perceber que quando vou falar do Cauã dou umas voltas e enrolo [risos]. É que somos um casal normal. Sabemos que despertamos naturalmente uma curiosidade nas pessoas. Nós dois somos famosos, atores. Por isso decidimos falar o mínimo possível, manter a individualidade dos dois. Inclusive porque não tem nada de mais com a gente. Somos normais.

Vocês combinaram isso de não falar?
No início do namoro a gente conversou sobre isso sim. Agora é uma coisa que acontece naturalmente. Queremos cuidar do nosso relacionamento e nos preservar. Senão começam a criar fofocas, não queremos abrir espaço para esse tipo de coisa.

Você é filha de pais separados. Acha que um casamento pode durar para sempre?
Acho que sim. Se os seus valores, as suas metas são parecidas com as do outro. Tem que existir amor, respeito. E você também não pode ser egoísta. Mas quem sou eu para falar sobre relacionamento? Eu não sei nada. Estou aprendendo ainda.

Sente ciúme por ser casada com um sex symbol?
Não. Eu fico lisonjeada ao ouvir isso que você está dizendo. Sou muito pouco ciumenta. E fico feliz de ouvir que ele é bonito. Eu acho isso tudo também.

Como é a sua relação com a família do Cauã?
É ótima. E ele se dá muito bem com a minha família também. Já foi até Jacarezinho. E eu também já fui a Florianópolis, a terra dele. Somos um casal normal.

As pessoas falam que a sua vida é um conto de fadas. O que você acha disso?
Conto de fadas também é uma maneira de vender, né? Não é conto de fadas. Claro que não é. Todo mundo tem problema. A vida de ninguém é perfeita.

Você estranha quando faz uma retrospectiva da história da sua vida?
Fico meio pasma. Penso em mim desde quando era criança. Tento entender o que aconteceu. De tempos em tempos gosto de fazer uma retrospectiva mesmo, sabe? Que história é essa? A da “menina filha de boia-fria do interior que virou atriz da Globo...”. Quem é ela?

Como você lida com o fato de, hoje, poder comprar a roupa que quiser?
Dinheiro eu gasto é com o meu trabalho. Lá em casa a gente tem uma videoteca. São coisas em que eu gosto de investir. Acho bacana ter material bom para estudar, tem tanta coisa que eu não vi e que tenho vontade de ver.

 

“Comprei uma bolsa de R$ 3 mil. Depois peguei nojo dela. É muito dinheiro! Pra quê?”

Alguma vez comprou algo muito caro e depois se questionou?
Já. Uma bolsa. Depois peguei nojo dela... Pra quê?

Quanto custou?
R$ 3 mil. É muito dinheiro!

O que te levou a comprá-la?
Foi um momento de loucura. Depois eu peguei nojo da bolsa. Não uso a bolsa. Comprar coisa cara só se for coisa clássica, que você vai usar a vida inteira. Só que nem era o caso.

Você precisa de dinheiro para ser feliz?
Não, não preciso. Preciso do meu trabalho, porque me apaixonei por ele. Quero me tornar uma boa profissional. E é engraçado, porque todo mundo fala que essa novela que eu estou fazendo agora, Tempos Modernos, não está dando certo.

O ibope não está legal?
Não está legal. A linguagem dela não foi compreendida e a novela foi se perdendo ao longo dos meses. Mas para mim tem um saldo positivo porque tive mais oportunidade de experimentar coisas, aprender. No início eu era aquela vilã de quadrinhos, artes marciais. Aprendi até kung fu. Aí virei um robô e fiquei louca depois. Agora, me transformei em uma menininha romântica. Dentro dessa personagem eu tive uma imensa oportunidade de aprendizado... Tá bom, a novela pode ser um fracasso, mas dentro dela eu considero que foi o meu sucesso. Então para mim o saldo é positivo.

E as críticas?
As críticas sempre vão existir. Muitas são construtivas e me ensinam.

Você fica magoada com as críticas?
Às vezes fico com muito ódio no coração. Nos primeiros 15 minutos. Mas depois eu vou digerindo isso. E graças a Deus não prorrogo. Acho que isso é uma coisa que eu aprendi com meu pai. Não prorrogar.

O que o seu pai te ensinou nesse sentido?
Meu pai? Meu pai me ensinou muita coisa. Ele trabalha até hoje. Pergunta se ele não gosta de trabalhar? Adora. Tem uma honra, uma dignidade com o trabalho dele, sabe? Eles se separaram quando eu era muito nova, mas meu pai e minha mãe me ensinaram muitas coisas de maneiras não convencionais, mas muito práticas, na criação mesmo.

Você pensa em ter filhos?

Penso, claro. Quero muito ter filho.

Já imaginou que eles serão criados em uma realidade bem diferente da que você foi criada?
Já pensei nisso. E em como passar os meus valores para eles. Tenho muito orgulho de ser do interior. Acho que lá a gente tem uma simplicidade que não existe aqui no Rio ou em São Paulo. Ao mesmo tempo, gostaria que meus filhos tivessem acesso a coisas que eu demorei muito a ter, como informação. Não sei como vou fazer para juntar esses dois lados. Mas espero conseguir.

Você começou a fazer análise há pouco tempo. O que te levou a isso?
É uma coisa de crescimento, de tentar me entender. Sempre me analisei muito sozinha, mas é uma coisa desgastante. Antes achava que análise era coisa de maluco. Hoje vejo que é uma coisa de autoconhecimento. Acho essencial. Faz parte de você tentar melhorar.

 (*) Para comemorar a Tpm#100 conversamos com 100 mulheres. Veja todas aqui

 

Créditos

* * * ESTILO CAMILA NUÑEZ MAQUIAGEM CAMILA ADI (CAPA MGT) PRODUÇÃO DE OBJETOS ANA LUIZA TOSCANO ASSISTENTE DE FOTO MICHELLE RUE SHORT CAMILA NUÑEZ, COLAR ELISA STECCA, SAPATO ACERVO PRODUÇÃO, MEIAS, REGATA, SUTIÃ E CORRENTES ACERVO PESSOAL * * *