por Madson de Moraes

Um dos intelectuais mais admirados no Brasil responde questões sobre cultura do estupro, ocupação dos estudantes, ataques às feministas e ensina como não se tornar um imbecil nas redes sociais

Agendar um papo com o historiador brasileiro Leandro Karnal parece ser algo quase impossível. “Tem entrevista que ele ainda não atendeu”, confidencia um assessor. Não é para menos: hoje, Karnal é pop. Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), professor da Unicamp, especialista em história das religiões e autor de diversos livros, como Pecar e Perdoar: Deus e o Homem na História (Editora Nova Fronteira), ele ainda realiza palestras pelo Brasil ensinando sobre vida, história, religião, política, filosofia, ética e comportamento humano.

Em meio a toda essa rotina intensa, ele também encontra tempo para interagir e responder com muito humor no Facebook seus mais de 340 mil fãs, desfazendo a imagem do intelectual sisudo de terno e gravata. Essa “karnalmania” chega até mesmo ao Youtube: suas palestras foram e são assistidas por milhares de pessoas - disponíveis por completo ou em trechos. Sobre essa popularidade, ele diz: “Há uma vaidade imensa em ser pop. Ter consciência dela é uma forma de controlar o dragão flamejante da vaidade”.

Tpm quis saber do intelectual o que ele pensa a respeito de temas que atualmente exigem bastante reflexão da sociedade, como a violência contra as mulheres, os ataques às feministas e o ódio nas ruas e nas redes sociais. Sobre as recentes ocupações feitas por estudantes pelo país, por exemplo, ele considera os atos como um exemplo de consciência política e cívica. “Um aluno de escola pública ocupa o espaço da escola pública e diz que deseja dignidade e melhor educação. Ele seria um marginal?”, questiona.

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“Não é o fim do mundo que um professor pregue uma opção por um partido, é apenas chato”
Leandro Karnal

Tpm. Como professor e historiador, o que você pensa a respeito do movimento, que é um projeto de lei, chamado Escola sem partido e que prega, entre outras coisas, a “descontaminação e desmonopolização política e ideológica das escolas”? 

Leandro Karnal. Todo ensino é ideológico. Quando eu digo que a história é feita através da luta de classes ou digo que Deus está acima da História ou que Deus não existe, estou sendo ideológico. Não existe neutralidade em história. Neutro, para historiador, é só o sabão de coco. Toda opinião é política. O que um determinado grupo quer é, em primeiro lugar, impor um monopólio de uma visão conservadora de história e chamar a isto escola sem ideologia. Outra questão importante é destacar que não existe unidade entre o pensamento dos historiadores. Há professores de esquerda, de centro e de direita. Cabe ao bom profissional trazer o contraditório para a sala e evitar a catequese seja ela qual for. Os alunos devem ver diversos ângulos mesmo que o professor tenha uma opção partidária. Não é o fim do mundo que um professor pregue uma opção por um partido, é apenas chato. Os alunos de hoje ouvirão tudo e vão formar sua própria opinião. Um bom professor ensina a fazer boas perguntas em vez de dar muitas respostas.

Estudantes das Etecs de São Paulo ocuparam escolas para reivindicar merendas melhores. Em outros Estados, secundaristas também ocuparam escolas e foram às ruas reivindicar direitos. Como analisar essa juventude que ganhou as ruas? A política foi atomizada e, graças ao momento vivido pós-junho de 2013 e graças às redes sociais, ganhou um espaço mais público. O escândalo da merenda em São Paulo é gravíssimo, imoral e indecente ao extremo. Sou contra qualquer depredação do patrimônio público, mas também sou a favor de movimentos que discutam o papel do Estado, o valor da merenda, a probidade administrativa. Estes alunos estão dando um exemplo de consciência política e cívica e estão dizendo que os verdadeiros criminosos são aqueles que saqueiam os cofres públicos em qualquer governo. Um aluno de escola pública ocupa o espaço da escola pública e diz que deseja dignidade e melhor educação. Ele seria um marginal?

Sobre o caso da adolescente estuprada no Rio de Janeiro e dos números de assédio sexuais contra as mulheres: que traços da sociedade brasileira ainda estimulam a cultura do estupro e essa naturalização da violência? Falta de estudos de gênero na escola, falta de combate ao falocentrismo e ao machismo patriarcal,  falta de coerção a atos machistas desde o plano das piadas até o da violência real, debate maior e mais amplo sobre o pensamento feminista para trazer à tona coisas seculares como a misoginia (preconceito contra as mulheres) e uma sociedade que supere a imbecilidade de responsabilizar a vítima em vez do canalha estuprador.

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A internet virou também palco para ataques aos movimentos feministas que ganharam as ruas e o debate. Por que a luta feminina gera tanta repressão? Porque o preconceito contra as mulheres é o mais antigo de todos e, provavelmente, o mais sólido. Ele pode ser sobreposto: mulher negra sofre o preconceito duplo, mulher negra lésbica o triplo e assim por diante. O preconceito pode contaminar outras áreas: um homossexual mais “feminino” sofre mais preconceito do que um mais “masculino” porque a misoginia é anterior à homofobia.

“A intolerância é uma infantilidade misturada com questões sexuais e de problemas de formação intelectual”
Leandro Karnal

O Fla x Flu político se acirrou a ponto de as pessoas se cuspirem e se agredirem. O que tempos de intolerância podem ensinar a uma democracia tão jovem como a nossa? Devemos aprender que quem discorda de mim não é meu inimigo. O debate é saudável e a divergência mostra que não existe um pensamento único. A intolerância é uma infantilidade misturada com questões sexuais e de problemas de formação intelectual. Tolerância tem um limite: o aspecto da lei e da ética. Não posso ser tolerante com racistas, com estupradores, com pedófilos etc. Neste caso não há margem de debate, apenas de repressão. Nos outros campos há muitas coisas para ouvir e falar, discutir e evitar apenas ficar insultando ou adjetivando.

Você é bem atuante no Facebook, tem mais de 340 mil seguidores e responde a muitos com bom humor. Essa interação virtual é positiva para a sua vida e carreira? Creio que sim. Deve corresponder a uma carência recíproca minha e das pessoas que interagem. Encaro como parte de um processo e de uma missão. O humor tem função política: ele dá relatividade e diminui o peso das coisas.

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Você recorre ao escritor Umberto Eco para dizer que a internet democratizou a imbecilidade. Como não ser um imbecil nas redes sociais? Parando de repetir o clichê e o senso comum, ouvindo de vez em quando, lendo muito, tentando expor sem paixão extrema seu ponto de vista, aprendendo, sabendo que sabe algumas coisas, mas não sei tudo. Dominar narciso e ser mais humilde. Todo imbecil é alguém que tem medo e acaba transformando este medo em raiva.

O tema de um de seus livros recentes, Felicidade ou morte, é debater a busca pela felicidade. Ser feliz dá trabalho? Muito trabalho. Pela inércia somos levados a uma vida morna, insípida, de coisas cotidianas e sem sentido. Ser feliz é aumentar consciência e direcionamento a partir dos seus valores e encontrar, em meio a muitas pessoas, um lugar onde sua vida valha a pena.

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Suas palestras são assistidas por milhares de pessoas, assim como as curtidas em sua página no Facebook. Seus lançamentos de livros formam filas. Como um estudioso do comportamento humano lida com a vaidade e orgulho em meio ao sucesso? Vaidade é um valor universal. Há vaidade imensa em ser pop e há vaidade no depressivo que diz que ninguém o entende ou procura. Há um risco na vaidade porque ela anima e acomoda ao mesmo tempo. Vaidade é, como diz a Bíblia, tudo. Ter consciência dela, discutir com ela, separar pessoa e personagem, assumir seus limites e destrinchar seus medos permanentemente é uma forma de controlar o dragão flamejante da vaidade. Sem ela ninguém cresce e ela é o abismo no qual quase todos caem, de Lúcifer a megaempresários. Mas quem se irrita com alguém vaidoso provavelmente é alguém que não consegue conter o fato de que sua vaidade é aranhada pela vaidade do outro. Somos todos espelhos das nossas dores e ela é o espelho com a moldura mais dourada.

Créditos

Imagem principal: Mário Martins / Divulgação

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