Mark Arm, do Mudhoney, divide o microfone com Fabrício Nobre
Poucos sabem, mas é do centro do país que um Bacharel em Direito movimenta a cena musical independente do país. Aos 30 anos, Fabrício Nobre nunca exerceu seu curso de formação. Preferiu usar sua “nerdice” para se especializar em produção musical. “Meu irmãos são acadêmicos, mestres. Minha irmã mais nova é psicóloga em Granada (Espanha) e meu irmão mais novo é biólogo na Austrália. Minha nerdice me levou pro lado errado [risos]. Aprendi a fazer outras coisas”. Essas “coisas” que Nobre faz são nada menos do que administrar o maior selo independente do país, a Monstro Discos, fundar a Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes) e produzir dois festivais em Goiânia, o Festival Bananada e o Goiânia Noise Festival, além de tocar ao lado de sua banda, o MQN.
Nascido e criado em Goiânia (GO), Fabrício de Almeida Nobre começou sua carreira em produção musical por necessidade de colocar o seu Melhor do Que Nada (MQN) para tocar, gravar e lançar discos, “acho fundamental no trabalho que eu faço hoje a experiência que tive com o MQN. Se eu não tivesse uma banda, não sentisse a necessidade de fazer tudo para que ela tocasse e gravasse, eu não teria aprendido a produzir discos e shows. É a boa lição do punk, do it yourself”, diz o goiano que hoje divide suas horas entre a empresa, banda e família, “depois que a Ana nasceu, diminui bastante o ritmo dos shows. Se eu falar que diminui o ritmo das viagens, vou apanhar da minha esposa em casa [risos]. Mas por culpa da Abrafin, viajo bastante, e se já tinha medo de entrar em um avião, agora eu morro de medo”.
Outra coisa que poucos sabem é que a verdadeira paixão de Fabrício Nobre não é a música, e sim, a gastronomia, “a música era meu hobby há 5 anos, hoje é meu trabalho. A coisa que mais me dá prazer é comer, e isso é um problema, porque eu estou gordo pra caralho. Gosto de tudo com bacon. Salada com bacon, feijão com bacon. Não tem nada com bacon que fica ruim”. Não é toa que o vocalista do MQN é conhecido como Diabo Bacon. “Mas tem que tomar cuidado, porque bacon mata o cara [risos]”, diz Nobre. Prestativo e sem preguiça, Fabrício Nobre faz questão de colocar a hospitalidade goiana em tudo o que faz. Assim, ele conquista cada vez mais amigos que de alguma maneira acabam ajudando o despretensioso projeto iniciado quando tinha 17 anos a crescer cada vez mais, “eu tenho excelentes parceiros. E tem pessoas que falam que a Abrafin é a Associação Brasileira dos amigos do Fabrício. E eu tenho culpa de ter amigos melhores do que os outros?”.
Quando foi que você desvirtuou para o rock?
Quando eu comecei o lance da banda. Acho fundamental no trabalho que eu faço hoje a experiência que tive com o MQN. Se eu não tivesse uma banda, não sentisse a necessidade de fazer tudo para que ela tocasse e gravasse, eu não teria aprendido a produzir discos e shows. É a boa lição do punk, do it yourself. Outra coisa que influenciou também foi viver na minha cidade e ver bandas como o Mechanics lançando discos, gravando, fazendo shows do caralho. Eu pensava, “pô, o cara é meu vizinho, tosco pra caralho e está tocando. Então eu posso fazer isso também”.
Mas você é formado em Direito não?
Eu acreditava num lance de ajudar as pessoas e ser justo, aquelas coisas de guri. Não estou generalizando, mas depois você vê que o Direito na prática é muito diferente, processual demais, sabe? Quando eu tinha 17 anos eu já comecei a trabalhar com produção, e escolhi o curso de Direito porque eu podia estudar a noite, trabalhar de manhã, ter banda.
Você lembra qual foi o seu primeiro contato com produção musical?
Eu me formei em um colégio particular daqui de Goiânia, e sempre rolavam as festas de final de ano. Daí eu resolvi produzir a festa de formatura do segundo grau, só que coloquei minha banda pra tocar. Foi a coisa mais errada do mundo [risos], nós tocamos umas covers muito toscas, de Raimundos a Sonic Youth e umas músicas nossas. Depois comecei a produzir shows em clubes da cidade, e com 19 anos já estava ganhando uma graninha que era minha, e isso era bem legal.
E quais foram os primeiros shows que você fez em Goiânia?
Da Relespública (PR), Wry (SP) e Autoramas (RJ), eu acho. E no final de 1998 eu fiz o Man or Astroman? (EUA), foi o primeiro show internacional daqui da cidade. Uma história super engraçada.
Como foi?
Na época eu assinava a Folha de São Paulo por causa do vestibular [risos], e vi uma matéria no Folhateen falando que o Man or Astroman? viria para o Brasil. A gente estava almoçando e eu mostrei o jornal para a minha mãe e disse “acho que vou fazer o show dessa banda aqui em Goiânia”. Meu irmão caiu na gargalhada. Eu peguei o telefone da Folha, liguei e quem me atendeu foi o Lúcio Ribeiro. Falei pra ele que era produtor em Goiânia, dono de selo [na época, o selo Me and My Monkey Records] e que queria saber quem estava trazendo a banda pra o Brasil. O Lúcio na hora me disse “olha, eu não deveria fazer isso, mas você está tão animado que vou te passar o contato da Motor Music”. Liguei lá, o Marcos Boffa atendeu, e falei a mesma história pra ele. Acho que ele pensou que eu era maluco. Disse que nunca tinha feito show em Goiânia e que seu eu quisesse tinha que pagar o cachê, passagens e depositar tudo no dia seguinte.
Eu tinha um graninha guardada, pedi mais uma grana pra minha mãe e no dia seguinte depositei o cachê inteiro na conta do cara. Depois fiquei amigo do Boffa e fizemos Superchunk, Luna, Trail of Dead, Mudhoney. Acho que foi aí que o pessoal da Monstro Discos se interessou em trabalhar comigo.






















