Revista Trip

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Osso em pó

Alexandre Orion criou obra de arte limpando em vez de pichar e ganha exposição em São Paulo
11.03.2010 | Texto: Diogo Rodriguez | Fotos: >Divulgação
Quem passava pelo túnel Max Feffer  no dia 13 de julho de 2006 via um “pichador” trepado no corrimão, desenhando caveiras,  “vandalizando” os painéis de metal que estão nas paredes da passagem entre a Avenida Europa e a Cidade Jardim. A Polícia Militar parou para averiguar, a CET, e mesmo assim, o suposto infrator não foi preso.

Não se tratava de vandalismo, nem ao menos depredação. Alexandre Orion, o “pichador”, estava apenas limpando o túnel. “Percebi que eu podia fazer um trabalho de arte simplesmente limpando a fuligem”, conta. Usando retalhos de pano e água, o artista paulistano criou a intervenção Ossário, que encheu de caveiras a pista subterrânea da zona oeste de São Paulo. Durante 17 madrugadas, Orion fez seu “grafite reverso” (como ficou conhecida a técnica) até que a prefeitura resolveu lavar os painéis sujos de fuligem.

O vídeo fez sucesso no Youtube (tem mais de 980 mil visualizações) e deu projeção ao artista. No dia 20 de março, a exposição relembra a intervenção, recriando o ambiente do túnel no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, além de trazer fotos, textos e vídeos sobre os dias de execução de Ossário.

As caveiras vêm de longe na vida de Alexandre Orion. Nascido na capital paulistana em 1978, morava próximo de um cemitério na Vila Mariana e costumava brincar lá: “Pulei muito túmulo”, conta. Não vê conexão direta entre esse fato e os desenhos de fuligem: “Não gosto de caveira, mas lido com isso [a morte] numa boa”. Foi nesse bairro em que descobriu a arte de rua, hoje sua profissão e sustento. Da varanda onde passava a maior parte de seu tempo livre, viu um dia um desenho num muro, na esquina de casa: “Desci e vi que era um carvão envernizado. Aquilo me chamou a atenção pra caralho porque eu olhava todo dia da varanda e tinha um mundo ali; de repente, tinha um olho”.



São Paulo diz: mendigos, nóias e cocô
Foi o estalo para saber que a rua era seu lugar. Já andava de skate e convivia com o hip hop; a mudança para o bairro do Jabaquara, aos 10 anos, sacramentou seu interesse pela arte de rua, segundo ele. Aos 13, fez a primeira intervenção perto de um viaduto na Avenida dos Bandeirantes: “Lembro de quando cheguei lá: tinha moradores de rua, uns nóias, muito cocô de gente”. Depois disso passou a perceber que “por mais que você conheça a cidade ou ache que conheça, quando você vira artista de rua, você percebe que não conhecia a cidade, que ela tem muito a dizer”.

Imagem: Divulgação

Intervenção da série Metabiótica, que foi exibida na Pinacoteca do Estadp

Intervenção da série Metabiótica, que foi exibida na Pinacoteca do Estadp


Após o seu debut na rua, Orion passou a ouvir a cidade e diversificar as atividades de desenho: dos 15 aos 17 tatuou no Salim Tattoo, no Jabaquara. Para oficializar a profissão (e concretizar o abandono da carreira de técnico em eletrônica, cogitada no ensino médio), fez faculdade e se formou. Já em 2006 veio seu primeiro grande feito, a série de intervenções Metabiótica, desenhos em estêncil que pareciam interagir com as ruas. Ficou em cartaz na Pinacoteca do Estado por dois meses naquele ano. Conseguiu uma certa fama  e semelhanças com o artista Banksy foram apontadas. A reportagem pergunta se ele se incomoda com a comparação e ele responde, sério: “Não sei, me sinto pressionado com essa pergunta porque o Bansky é um puta gênio. Eu me sinto arrogante tentando responder à pergunta, justificar qual seria uma possível comparação” .

O reconhecimento maior veio com Ossário, que foi parar em jornais e revistas e no Youtube. Se o artista de rua pinta na rua, como ele fica conhecido? Pela internet, diz Orion: “O grafite se tornou uma arte muito ligada à internet. Ela cumpre um papel no mundo arte muito interessante. O vídeo [de Ossário] no Youtube tem 950 mil views. Isso é uma medida, não digo da aceitação, mas da provocação”.

Revisitando Ossário

Imagem: Divulgação

Vista do túnel Max Feffer

Vista do túnel Max Feffer

Orion faz questão de frisar que a exposição no CCBB será apenas “um documento de um processo efêmero”. Ele acha que a arte de rua fora dela vira outra coisa. “Arte de rua na galeria, vira arte de galeria, pronto. O pessoal adora pintar parede de galeria achando que assim a ideia do grafite se mantém”, analisa. Metabiótica também foi parar no cubo branco, mas em forma de fotografia. Na exposição, o clima será o daquelas dezessete madrugadas do inverno de 2006: as placas sujas (de carvão vegetal, não-tóxico), os barulhos da cidade e a limpeza reveladora de Orion.

Durante a entrevista, Alexandre Orion discorreu sobre a rua e a arte, a galeria e a rua, mas e a arte em si? Seu trabalho serve a algum propósito, ou seja, a arte serve para alguma coisa? “Para tudo. Pode ter funções sociais, políticas, acadêmicas, econômicas. Serve para combinar com o sofá,  para custar muito caro, para fazer o município lavar o túnel”, afirma. A prefeitura limpou as paredes do túnel Max Feffer matando Ossário logo após sua concepção, mas Orion trata de não deixar a intervenção morrer, seja no Youtube seja no “simulacro” (como ele se refere à exposição no CCBB) que estreia no dia 20.

Vailá: Exposição Ossário no CCBB
Quando: a partir de 20 de março (terça a domingo, das 10h às 20h)
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112 - Centro - São Paulo; telefone: 3113-3651 / 3113-3652)
Quanto: gratuito

Saiba mais: site de Alexandre Orion