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Licença para matar

Um homem muito inteligente, mas incapaz de deixar de inalar substâncias tóxicas
08.02.2012 | Texto: Paulo Anis Lima | Ilustração: Arthur Carvalho

Arthur Carvalho

 

 

Um amigo querido está lutando contra um câncer de pulmão. Ele fumou durante os últimos 55 de seus 69 anos. Hoje, exatamente no dia em que escrevo este editorial, está completando 70. Vai ter um bolinho, mas é provável que ele não consiga ver o doce. Não sei se permitem a entrada de alimentos vindos de fora na UTI. Se abrirem uma exceção no hospital, talvez ele experimente um pouquinho.

Até alguns dias atrás não conseguia ingerir alimentos sólidos, mas nas últimas horas voltou a mastigar coisas macias, sempre em pedaços pequenos de fácil digestão. As velinhas provavelmente serão dispensadas. Há três meses e meio ele se sentia bem, curtia uma fase nova em sua vida, com mais tempo para andar por aí, para trabalhar com o que gosta e estudar fenômenos inexplicados, como o mistério dos “crop circles”, por exemplo, aqueles desenhos geométricos e enormes que aparecem vez por outra em campos de trigo e em plantações pelo mundo e que são atribuídos por muita gente boa a visitantes de outras galáxias. Esse é um dos seus hobbies. O outro é espalhar positividade e palavras de estímulo para quem encontra pela frente. Desconhecidos, amigos íntimos, gente que acaba de cruzar, não importa quem.

Em cerca de cem dias, a doença andou rápido. De uma dor na perna ao diagnóstico e dele a uma complicação depois da outra. Ossos enfraquecidos, massa muscular reduzida, locomoção e fala prejudicadas, intestino, rins, sangue... No Natal, ainda bem menos afetado pelos sintomas, ele pintou com carvão dois traços pretos e largos sob os olhos. Disse que estava usando a pintura dos guerreiros e que estava pronto para a luta. Era verdade. A forma como vem encarando a briga deixaria nosso lutador convidado desta edição, Anderson Silva, e seus amigos guerreiros camaiurá impressionados (veja a reportagem aqui). Dizem os estudiosos da alma e da natureza humanas que o medo tem muitas chances de imperar enquanto apenas imaginamos o obstáculo. Mas, quando de fato o estamos enfrentando, nossa natureza lhe dá a devida dimensão. Nem menor e, principalmente, nem maior, como tendemos a projetar antes de estar de verdade frente a frente com ele.

Meu amigo vem lutando muito elegante e bravamente. E conseguindo algumas vitórias aqui e ali, baseado na sua capacidade de amar, na sua vontade de viver mais, ao lado da mulher, das filhas, dos netos, dos amigos da vida inteira e dos parentes. Tem sido capaz de feitos impensáveis. Só não conseguiu uma coisa: parar de fumar.

Um homem de inteligência privilegiada, com uma vida interessante e plena, consciente do que está enfrentando, mas absolutamente incapaz de fazer o que sua mente lhe diz para fazer: deixar de inalar os milhares de substâncias tóxicas que destruíram suas defesas lenta e ininterruptamente.

CORTINA DE FUMAÇA

É exatamente esse um dos maiores absurdos, entre tantos outros, relacionados à indústria tabagista na época em que estamos. Corporações (e governos coniventes) responsáveis por genocídios em massa ao longo de décadas – vendendo um produto criado para sequestrar em pouquíssimo tempo a capacidade de escolha de suas vítimas (um dos indicadores da dependência química é justamente o fim da capacidade de discernir do indivíduo) – se arvoram agora a condição de defensores supremos da liberdade de escolha do cidadão, numa atitude cafajeste e que subestima de forma radical a inteligência das pessoas.

Uma estratégia tão nojenta e letal quanto o produto que desgraçadamente dedicam suas vidas a produzir e comercializar. Há cerca de 14 anos, quando a internet comercial ainda engatinhava no Brasil, a Trip produziu uma pesquisa e uma edição especial na qual não apenas declarou que não mais aceitaria publicidade de cigarros em suas páginas, mas que serviu também para informar melhor a quem fuma e a quem não fuma e para provocar um amplo e vigoroso debate em canais de televisão, jornais e outros meios. Na pauta, as mentiras escancaradas da indústria tabagista veiculadas especialmente através da propaganda sedutora e impecavelmente produzida com orçamentos ilimitados, focada especialmente nos públicos infantil e jovem.

Agora, quando o comando organizado da indústria cigarreira recorre a estratégias ainda mais maquiavélicas para defender seus lucros e sua licença para matar, entendemos que se trata de uma excelente hora para voltar ao tema. Esperamos que esta edição possa trazer mais conhecimento aos fumantes e aos não fumantes e que venha novamente ajudar a produzir reflexão relevante sobre um assunto de saúde pública muitas vezes esquecido atrás da cortina de fumaça erguida e mantida pelos interessados em defender a produção e a venda de um produto que assassina mais de
6 milhões de pessoas por ano no mundo.

P.S.: para falar de algo infinitamente mais leve e positivo, nesta mesma edição você verá também a festa de 25 anos da Trip em Nova York, que aconteceu em dezembro na galeria Espasso. Nela, lançamos uma edição da revista com capa e encarte especial com as principais matérias em inglês. Foram 5 mil exemplares direcionados para formadores de opinião de Nova York e da Califórnia. Enquanto isso, sai este mês nas bancas da Alemanha e de outros países europeus de língua germânica a quinta edição da Trip em alemão. Nossa maneira de ver o mundo vai aos poucos abrindo as fronteiras. Graças a sua força. Obrigado e um 2012 generoso para todos nós.

Paulo Lima, editor

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