Revista Trip

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Salvem a memória do Orkut

Ronaldo Lemos: "É preciso preservar o conteúdo integral do Orkut"
21.11.2011 | Texto: Ronaldo Lemos | Ilustração: Luba Lukova

 

Luba Lukova

 

 

Se a nossa Biblioteca Nacional tiver um mínimo de visão e conexão com o presente, deveria começar a agir já. É preciso preservar o conteúdo integral do Orkut, criar um espelho público do site que registrou boa parte do que aconteceu nessa incrível década passada

O jornalista Elio Gaspari é dos poucos que chamam a atenção para a destruição de processos judiciais antigos no Brasil. Nos milhões de arquivos queimados, desaparece boa parte da história do “andar de baixo” da sociedade. Gaspari lembra que até mesmo o processo de indenização do acidente de trabalho em que Lula perdeu o dedo foi destruído. Afinal, que interesse haveria em guardar tanta papelada?

Nos últimos anos, a história do “andar de baixo” está sendo registrada não apenas em processos judiciais, mas também online. Com o fenômeno das lan houses e a crescente apropriação da rede pelas periferias brasileiras, a internet tornou-se um espelho poderoso do que acontece na base da pirâmide social do país. Quem navega com atenção no Orkut (e YouTube, Twitter e Facebook) percebe a relevância da diversidade demográfica. Esses sites (Orkut em especial) refletem não só o presente, mas a memória detalhada das mais diversas e fascinantes relações sociais.

Nas infindáveis comunidades do Orkut é possível acompanhar dramas pessoais, pessoas lutando contra doenças, reclamações contra empresas e políticos, brigas, paqueras, discriminação sexual e racial, todo o coquetel de benesses e mazelas que acontecem em toda parte, mas que nem sequer se sonhava ter registro. É um material riquíssimo para pesquisar qualquer assunto, dos movimentos políticos às mudanças do uso do português nos últimos anos.

Pensando exatamente nisso a biblioteca do Congresso nos EUA começou a arquivar todo o conteúdo do Twitter. Estão sendo preservados os mais de 55 milhões de tuítes enviados todos os dias. O conteúdo atingiu 167 terabytes, espaço equivalente a 21 milhões de livros. Apesar dos números astronômicos, o custo é relativamente baixo, já que o armazenamento digital fica cada vez mais barato. Nas palavras de um dos responsáveis pelo projeto: “Esse é um acréscimo novo para o registro histórico da biblioteca, que permite gravar a história segundo a segundo das pessoas comuns”.

Alô, Biblioteca Nacional!

Aqui, a preocupação é urgente. Aparecem sinais de que o Orkut vai fraquejar. Começou a perder para o Facebook e, para complicar, o Google lançou sua rede, o Google+, fazendo com que a rede social preferida de muitos brasileiros vá se tornando uma heroica jangada à deriva.

Se a nossa Biblioteca Nacional tiver um mínimo de visão e conexão com o presente, deveria começar a agir já. É preciso preservar o conteúdo integral do Orkut. Criar um espelho público do site que registrou boa parte do que aconteceu nessa incrível década passada. Década em que muitos brasileiros isolados na geografia ou socialmente puderam conviver no mesmo espaço, trazendo suas esperanças e conflitos. A Biblioteca Nacional não deve perder um segundo a mais. Precisa criar uma linha de preservação da memória digital do país, a começar pelo Orkut. São capítulos importantes da história do “andar de baixo” que podem acabar como milhões de processos que vêm sendo destruídos: a fogueira, nesse caso, virtual.

*Ronaldo Lemos, 34, é diretor do Centro de Tecnologia da FGV-RJ e fundador do site www.overmundo.com.br. Seu e-mail é rlemos@trip.com.br